“São precisas entre 70 a 75 mil pessoas para trabalhar na construção mas estão inscritos no Centro de Emprego 33 mil que não respondem às ofertas”, afirma Mineiro Aires

Em Portugal, com a engenharia civil a dar sinais de recuperação, fruto da área da reabilitação urbana, os engenheiros civis vivem dias desafiantes em condições ainda frágeis.

“Ninguém vai trabalhar para construção civil para ganhar 600, 700 ou 800 euros, porque é isso que pagam aos trabalhadores de topo e aos serventes. E o que oferecem a um engenheiro também anda nesta casa. É preciso ter noção que estamos todos muito mal pagos”, frisou ao Jornal Económico o Bastonário da Ordem dos Engenheiros, Carlos Mineiro Aires, à margem da cimeira Lisbon CES – Civil Engineering Summit, realizada no LNEC entre 24 e 28 de setembro.

Em entrevista ao JE (ver edição 27 setembro), Mineiro Aires identifica os diferentes entraves e aponta o preço da crise que tanto afetou o setor da Construção Civil. Considera que os empresários portugueses “têm uma tendência muito grande para a lamentação” e defende pontos de equilíbrio e decisões mais justas para todos.

Que leitura faz da evolução da engenharia civil em Portugal, na última década?

Desde logo, não posso deixar de abordar a questão da crise que a construção civil sofreu, sendo que ainda hoje temos problemas grandes. Desde a crise, fecharam 65 mil empresas, sobretudo as pequenas empresas de construção civil; foram-se embora do país, ou abandonaram a profissão, 350 mil empregados e hoje não há capatazes ou alguém para dirigir obras. Há uma falta de mão de obra extraordinária, estima-se que são precisas entre 70 a 75 mil pessoas para trabalhar na construção mas estão inscritos no Centro de Emprego 33 mil que não respondem às ofertas de emprego. E porquê? Primeiro, porque é óbvio que existe uma atividade paralela e clandestina, sobretudo nos biscates e pequenas remodelações de casas para uso fruto ou para transformar em alojamento local. Por outro lado, porque o nível salário praticado não tem qualquer atratividade. Ninguém vai trabalhar para construção civil para ganhar 600, 700 ou 800 euros, porque é isso que pagam aos trabalhadores de topo e aos serventes. E o que oferecem a um engenheiro também anda nesta casa. É preciso ter noção que estamos todos muito mal pagos. É claro que se uma pessoa pode estar nos biscastes, sem pagar impostos, a ganhar ao dia mais de cem euros, não vai deixar de o fazer. O resultado, é que estamos a importar mão de obra, e aparece gente de todo o lado, inclusive pessoas que têm dificuldade em comunicar. E quero desde já reafirmar que sou inteiramente a favor da integração de todos os cidadãos do mundo em cada país. Deus quando fez o mundo não meteu fronteiras em país nenhum. Mantenho por isso os princípios da universalidade, as fronteiras que existem são as naturais e não as artificiais, o resto é tudo imaginação. Mas aqui, em Portugal, estamos a pagar o preço de uma crise e temos de saber dar a volta a isto. E como? Não sei. O primeiro-ministro, e bem, disse no congresso anterior da Ordem algo que está farto de repetir: não quero ver o país crescer à custa de salários baixos. Eu gosto muito de o ouvir e repetir isso mas não vejo resultados práticos. Na verdade, também é importante que se diga que os empresários portugueses têm uma tendência muito grande para a lamentação, arrisco-me a ser acusado de ser um perigoso esquerdista mas a verdade é esta: as pessoas em vez de abrirem mão de 50 ou 100 euros, preferem pensar que, para ser assim, é preferível fechar o negócio. E não é assim, há pontos de equilíbrio e certamente decisões mais justas para todos, sem nunca deixarmos de ter em conta que quem investe, o empresário, tem de receber o retorno do risco em que incorre e ninguém é a Santa casa da Misericórdia. Os empresários investem para ganhar dinheiro, ponto.  Tem de haver alguma justiça e parcimónia dos próprios porque o Estado não tem de ter qualquer papel regulatório nisto, o mercado é que regula.

Independentemente do enquadramento, considera que a engenharia civil está numa fase verdadeiramente pós- crise, de retoma e com um crescimento ainda que não seja muito pronunciado?

Voltar ao período antes da crise, não acontecerá. Porque chegaram mesmo a ser mais empresas estrangeiras a trabalhar em Portugal do que nacionais. Havia dinheiro para toda a gente e mais alguém. Mas veio depois um período em que não houve nada. Agora, começa a aparecer, com a reabilitação urbana e as obras públicas, algum mercado. Há mercado privado, com os particulares a fazer obras e a investir, o que levou a mudança. A questão de fundo é que, e volto ao mesmo ponto, é que os salários e as condições que são oferecidas continuam a não ser suficientemente atrativos. Conheço casos de engenheiros que preferem estar atrás de um balcão na noite em Lisboa, a servir gins e a divertirem-se, porque estão a ganhar muito mais do que se tivessem a exercer a sua profissão.

Ainda assim temos de distinguir algumas coisas. Hoje em dia, em Portugal, há uma procura doida por engenheiros informáticos. É uma procura doida porque não chegam para as encomendas. E quando as multinacionais aparecem aqui, e estamos a falar de uma Bosch, de uma Google, sobretudo empresas ligadas às teconologias pedem sempre aos 200 ou 300 engenheiros. Absorvem a formação toda e tendo nós dois graus de formação, o pré e pós Bolonha, que com durações diferentes de tempo de estudo, naturalmente têm papeis diferentes a desempenhar. Esta é uma evidência e só não vê quem não quer. E há muita desta oferta que passa por formação curta, num modelo anglo saxónico que está a ser aplicado cá e com algum sucesso, como no caso de Leiria em que o politécnico está a formar para a área de moldes e garantem logo emprego. Com estes cursos técnicos especializados, por assim dizer, há gente que tem sucesso e até recebem bem. Sendo que também há gente que ganhou essas skills, vão lá para fora e quando voltam, voltam por cima. Mas de facto, na engenharia civil, não é isto que se passa. Não voltaremos aos tempos em que tudo era melhor: não faltava emprego e até não era mal pago.

Isto são sempre ciclos e Portugal está ciclicamente na bancarrota. Isto vem da monarquia, ultrapassou as primeiras repúblicas, depois apareceu um salvador, ou tido como tal, o Salazar, que foi na minha ótica o responsável pela grande desgraça deste país, um ‘unhas de fome’ que para equilibrar as finanças não ligou nenhuma à qualidade das pessoas. Cortou tudo e a falta de investimento em tudo e, sobretudo, na educação leva a que ainda hoje estejamos a pagar essa fatura. Nessa altura, se tivéssemos sabido dar a volta à bancarrota, tínhamos ajudado a mudar as mentalidades e só se mudam as mentalidades com educação. Foi onde o homem falhou, e apesar de puder ser bem intencionado e não tenho quaisquer dúvidas que o seria, vivia num mundo só dele, de quatro paredes e só ouvia o que lhe diziam. Vivia numa outra realidade e nunca percebeu que estava a matar tudo, o país, ao não dar educação às pessoas. Por isso, a grande aposta que se fez na educação é de facto o grande salto que demos nos últimos anos.

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