O PRR está neste momento em execução, com meses decisivos pela frente. É precisamente por isso que a pergunta certa a fazer neste momento (na esperança que já tenha sido feita antes do próprio desenho do programa) é: “o que estamos a construir para que fique quando os fundos cessarem?”.
Se Portugal fosse uma empresa, olharíamos para o PRR como uma linha de investimento em curso e perguntaríamos, no conselho de administração: como é que este investimento se transforma em competitividade, em mercados e em salários melhores?
Para respondermos a estas questões podemos aplicar o Metabolismo da Inovação, um framework que desenvolvi (que será explicado no meu futuro livro “The Innovation Metabolism: How Future-Driven Organizations Build The Next Legacy in a World of Perpetual Change) e que procura explicar como a inovação e a transformação de uma organização dependem de cinco dimensões que se reforçam: Alma (propósito), Visão (liderança e estratégia), Inteligência (estrutura e processos), Emoção (pessoas e cultura) e Ambição (inovação).
Vamos então a isso.
Se Portugal fosse uma empresa:
– Faria da Alma (propósito) a sua razão de ser. Antes de decidir o quê, decidiria para quê. Portugal precisa de um novo sentido de próposito, de uma nova ideia de futuro que mobilize todos. Eu proporia: servir o mundo com soluções humanas para um planeta sob pressão. É um fio condutor simples: água que não se desperdiça, energia que se usa melhor, cidades que descansam as pessoas em vez de as cansar, saúde que prolonga a vida com dignidade, educação que integra e combate divisões. Quando o propósito é claro, cada euro do PRR que ainda aprovamos passa a ter um critério: aproxima-nos, ou não, do papel que escolhemos para o país?
Se Portugal fosse uma empresa:
– Transformaria Alma em Visão (liderança e estratégia). Uma empresa séria faz escolhas com coragem. Escolher não é excluir o talento que temos; é concentrar. Onde há tração e reputação, aprofundamos. Onde não há, cooperamos e aprendemos. A Visão é apontar mercados concretos, elevar a fasquia dos salários e manter as portas abertas ao mundo. Portugal cresce quando é plataforma e ponte entre sistemas, culturas e cadeias de valor, não quando se fecha na ilusão da autossuficiência. Liderança, aqui, é dar direção e tempo: proteger as escolhas certas da ansiedade dos ciclos eleitorais.
Se Portugal fosse uma empresa:
– Mediria a sua Inteligência (estrutura e processos) pela fricção que se retira a quem cria valor. Processos que se explicam numa página. Prazos que contam. Decisões que dizem “sim” ou “não” sem labirintos. Dados públicos tratados como infraestrutura, acessíveis, estáveis, previsíveis, a acelerar quem investe e quem inova. Justiça que chega a tempo; regulação que diz o que vale e faz cumprir. Um Estado liberal regulador não distribui favores, desenha um bom campo de jogo e apita com imparcialidade. E aproxima universidades e empresas com naturalidade: problemas reais a inspirar investigação, conhecimento novo a regressar depressa ao terreno. Quem cria valor, partilha valor.
Se Portugal fosse uma empresa:
– Investiria na Emoção (pessoas e cultura), onde tudo ganha corpo. Falamos de investimento real em pessoas. Se Portugal fosse uma empresa, reservaria tempo pago para aprender e orçamentos claros por colaborador; faria da recertificação contínua um direito simples e de mobilidade entre funções uma possibilidade concreta. Atrairia talento de fora sem labirintos (vistos céleres, reconhecimento de credenciais), e ao mesmo tempo cuidaria do talento de dentro: carreiras técnicas com prestígio, salários que sobem com competência e produtividade, programas de requalificação para as transições verde e digital que não deixam ninguém para trás. E misturaria mundos com intenção: engenheiros com designers, clínicas com data scientists, autarquias com startups. A cultura certa é consequência desta aposta: quando as pessoas sentem que o país investe nelas, a ambição vira hábito e a execução deixa de ser exceção e passa a ser rotina.
Se Portugal fosse uma empresa:
– Não se envergonharia de ter uma grande Ambição. Para escolher problemas grandes e assumir o compromisso público de os resolver melhor do que os outros. Para pôr nome às soluções, dar-lhes preço, garantir serviço, e dar-lhes força. Ambição é transformar conhecimento em valor que perdura: um produto que aguenta auditorias, um serviço que cumpre prazos, um software que fala várias línguas e integra com o que já existe. Sem fogos-de-artifício, com confiança. Ambição também é coragem: matar o que não prova valor e acelerar o que prova, sem culpados nem romances. É ritmo: decidir em semanas, aprender em dias, melhorar todos os meses. É construir alianças de mercado com clientes âncora, parceiros industriais, distribuidores, que abrem portas onde sozinhos demoraríamos anos. É tratar a marca “Portugal” como um selo de seriedade: se prometemos, cumprimos; se erramos, corrigimos depressa.
Ao Estado liberal cabe o essencial: manter o campo aberto e previsível, reconhecer certificações e normas internacionais, facilitar a vida a quem quer vender lá fora e sair de cena quando o jogo começa. Ambição, no fim, é isto: resolver melhor, vender mais longe, crescer com sobriedade, garantir melhores salários e reforçar a coesão social.
O PRR é uma oportunidade de ouro. Não esperemos pelo fim para “ver o que ficou”; façamos ficar enquanto executamos. Pensemos cada decisão pela Alma, concentremo-nos pela Visão, simplifiquemos com Inteligência, investamos em pessoas para sustentar a Emoção certa, e fechemos o ciclo com uma Ambição que transforma investimento em produtividade, oportunidade em receita, reputação em contratos.
O pós-PRR não é, portanto, um capítulo futuro, mas sim uma atitude presente. Em cada momento que conta, façamos três perguntas simples (as que qualquer conselho de adminsitração faria): que receita nova trouxemos de fora? que importação deixámos de precisar porque passámos a fazer melhor cá dentro? como garantimos que as nossas pessoas estão preparadas para novos ciclos de competitividade?
Se Portugal fosse uma empresa, saberíamos o que fazer. E começaríamos já.



