Setor bancário perdeu 16 mil trabalhadores no espaço de 10 anos

Outra das conclusões é que ao longo de todo o período em análise assistiu-se a uma redução muito acentuada da margem financeira (diferença entre juros recebidos e pagos). Em percentagem do ativo médio, a margem financeira passou de cerca de 4,5% em 1990 para valores em torno de 1,5% nos anos mais recentes.

Cristina Bernardo

Nos últimos anos, viveu-se um contexto de assinalável redução do número de trabalhadores da banca. Ainda assim, o sector carateriza-se pela predominância de colaboradores com muitos anos de experiência e de idade. Esta é apenas uma das conclusões de uma análise que o Banco de Portugal fez sobre os últimos 30 anos do setor bancário português.

Em 2008 havia 78.963 colaboradores e em 2018 eram 62.895, uma redução de cerca de 16 mil bancários.

Há também a assinalar que 57% dos colaboradores estão há mais de 15 anos na banca e 48% têm mais de 44 anos, só havendo 7% com menos de 30 anos.

A nível das habilitações, em 1990 cerca de 20% dos bancários tinham curso superior e agora são 63%. Nos anos 90 havia 40% de pessoas com o ensino básico na banca e hoje são apenas 4%.

Enquanto o peso dos ativos no PIB ou o número de balcões mais do que duplicaram durante a década de 90, o emprego no setor passou de cerca de 60 mil entre 1990-95 para valores próximos dos 50 mil nos 10 anos seguintes. Posteriormente, a sua evolução está mais em linha com outros indicadores de dimensão, tanto no crescimento registado até ao início da crise, como no período de forte diminuição observado nos últimos anos de análise, constata o banco central que acrescenta que os valores abaixo dos 47 mil de 2016 a 2018 correspondem  aos números mais baixos desde 1990.

O peso do setor bancário no total do emprego tem diminuído na generalidade dos países, e esse peso é inferior em Portugal, traduzindo a menor dimensão do setor na economia portuguesa. Em 2018, na área do euro, por cada mil pessoas, 5,4 trabalham no setor bancário, enquanto esse número é de 4,5 em Portugal.

Rentabilidade. Margem financeira a cair desde 1990

Ao longo dos últimos 30 anos assistiu-se a uma diminuição da margem financeira do sistema bancário, num contexto de redução expressiva das taxas de juro e das margens de intermediação financeira, bem como de uma forte desaceleração do crédito. Esta é uma das conclusões das séries longas do setor bancário português, uma base de dados que agrega a evolução do setor bancário português em comparação com os outros 19 países da zona euro, que foi hoje divulgada por ocasião dos 73 anos do Banco de Portugal.

Esta base de dados vai ser disponibilizada para utilizadores externos.

Durante vários anos essa evolução da margem financeira foi sendo compensada por um aumento de outros proveitos, como as comissões, e uma redução de custos. No entanto, desde 2007, e de uma forma mais evidente desde 2010, verificou-se uma forte diminuição dos resultados no contexto de um significativo aumento das imparidades/provisões, o qual foi parcialmente revertido nos anos mais recentes, diz o BdP.

Ao longo de todo o período em análise assistiu-se a uma redução muito acentuada da margem financeira (diferença entre juros recebidos e pagos). Em percentagem do ativo médio, a margem financeira passou de cerca de 4,5% em 1990 para valores em torno de 1,5% nos anos mais recentes. Esta evolução refletiu tanto uma diminuição das margens entre taxas de juro ativas e passivas (efeito preço) como de uma desaceleração da atividade (efeito volume).

No estudo é dito que desde 1990, verificou-se um forte crescimento do setor bancário, acompanhado por um aumento do seu nível de concentração durante a década de 90, destacando-se dois períodos em que se verificaram importantes operações de fusão e aquisição – 1995 e 2000. A expansão da banca portuguesa ocorreu também além-fronteiras, tendência invertida com a crise financeira. A partir de 2012 tem-se verificado uma forte redução da atividade internacional, revela o banco central.

Em território nacional, a criação de novas agências, incluindo em concelhos mais pequenos, foi um fenómeno generalizado aos vários grupos bancários até 2010. Desde então, verificou-se um movimento de redução do número de agências. Atendendo à dimensão do setor, existem mais balcões em Portugal do que na área do euro, conclui o relatório.

O número de balcões bancários no território nacional mais do que duplicou na década de 90, passando de um número inferior a 2.000 em 1990 para um valor em torno dos 5.300 em 2000. Depois de alguma estabilização nos primeiros cinco anos do novo milénio, verificou-se um novo aumento nos anos seguintes, atingindo-se um valor máximo perto de 6.500 em 2010. Desde então, e em especial a partir de 2013, o número de balcões registou uma grande diminuição, situando-se ligeiramente acima de 4.000 em 2018.

A tendência de diminuição do número de balcões ocorreu também na área do euro, tendo-se, no entanto, iniciado mais cedo do que em Portugal. Os bancos em Portugal aparecem sempre como aqueles com mais balcões por ativo gerido.

Depois de anos de grande crescimento do crédito, a crise financeira e o ajustamento da economia portuguesa levaram a um aumento nos níveis de liquidez: o rácio entre crédito e depósitos reduziu-se de cerca de 150% em 2010 para menos de 90% em 2018. Em linha com as maiores exigências regulatórias, verificou-se igualmente um expressivo aumento dos níveis de solvabilidade. Portugal compara mal com os pares do euro, já que está entre os países onde o rácio Tier1 é dos mais baixos.

O peso dos ativos no PIB inferior em Portugal é inferior ao da área do euro, diz o estudo. Os ativos do setor bancário português representavam cerca de 100% do PIB em 1990, aumentando desde então para um valor máximo perto dos 300% entre 2009 e 2012. Nos anos mais recentes, esse indicador registou uma significativa redução, passando para cerca de 190% em 2018, conjugando um aumento do PIB nominal de 20% com uma descida do valor total dos ativos de 22%. O peso dos ativos no PIB permaneceu sempre inferior ao observado para o conjunto da área do euro,  de acordo com a informação para os 19 países da área do euro no período iniciado em 2008.

O Banco de Portugal divulgou hoje as Séries Longas – Setor Bancário Português 1990-2018, uma base de dados com informação histórica sobre o sistema bancário português, que inclui dados sobre indicadores financeiros, empréstimos a clientes e taxas de juro, recursos humanos, distribuição de agências e sistemas de pagamentos.

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