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Só 13% dos portugueses domina conceitos financeiros básicos, alerta Banco de Portugal

Literacia financeira em Portugal próxima da média europeia, mas com lacunas graves em conceitos básicos e desigualdades marcadas, segundo inquérito do Banco de Portugal.
16 Março 2026, 12h00

Portugal regista níveis de literacia financeira semelhantes à média da área do euro, mas revela fragilidades significativas no domínio dos conhecimentos básicos, nomeadamente no cálculo de juros e na compreensão do risco e da diversificação. É o retrato traçado pelo Banco de Portugal no Boletim Económico de março, intitulado “Um retrato da literacia financeira em Portugal”, divulgado esta segunda-feira.

O diagnóstico dos conhecimentos, atitudes e comportamentos financeiros da população portuguesa, identificando as principais lacunas existentes, pretende contribuir para melhorar as estratégias de promoção da literacia. O Banco de Portugal explica que “utilizou dados de duas fontes de informação complementares: primeiro, apresentam-se os resultados do 4.º Inquérito à Literacia Financeira da População Portuguesa, enquadrado no 2023 International Survey of Adult Financial Literacy, que abrangeu 1.510 pessoas e, seguidamente, os resultados do módulo do PISA 2022 dedicado à literacia financeira dos estudantes de 15 anos, no qual participaram 4.075 alunos
portugueses”.

“Apenas 13% dos entrevistados em Portugal atingem o nível essencial de conhecimentos financeiros, sobretudo devido a dificuldades no cálculo de juros e na compreensão da relação entre risco e diversificação”

Apesar de os comportamentos e atitudes financeiras dos portugueses estarem acima da média europeia – com maior tendência para a poupança e prudência –, apenas 13% dos inquiridos respondem corretamente às sete questões que avaliam os conhecimentos financeiros essenciais. “Apenas 13% dos entrevistados em Portugal atingem o nível essencial de conhecimentos financeiros, sobretudo devido a dificuldades no cálculo de juros e na compreensão da relação entre risco e diversificação”, segundo o inquérito.

Na área do euro, esta proporção sobe para 17,9%. A maior dificuldade surge no cálculo de juros: só 40% acertam o saldo final de um depósito de 100 euros a 2% ao ano, e apenas 25% compreendem o efeito dos juros compostos ao fim de cinco anos. Mais de metade dos portugueses também não percebe que a diversificação reduz o risco em investimentos em ações.

O indicador global de literacia financeira (que pondera conhecimentos, comportamentos e atitudes) atinge os 63,4% em Portugal, praticamente idêntico à média da zona euro. A Alemanha lidera com 76%, enquanto a Itália fecha a tabela com 53,3%.

Os dados do 4.º Inquérito à Literacia Financeira da População Portuguesa (2023) mostram que apenas 54,8% dos adultos pouparam no ano anterior. Entre os que o fizeram, quase 60% mantiveram todo o dinheiro na conta à ordem ou em numerário, abdicando de qualquer retorno. Apenas 33,1% optaram por depósitos a prazo ou obrigações, e a utilização de produtos mais complexos (ações ou fundos) é residual (7,3%).

Ao mesmo tempo, a detenção de instrumentos financeiros é generalizada: 43,8% têm seguros, 34,2% depósitos a prazo, 35% cartão de crédito e 14,1% crédito à habitação. “Esta exposição reforça a importância de conhecimentos que permitam escolher as opções adequadas”, sublinha o relatório.

Mulheres, idosos e baixos rendimentos mais vulneráveis

As desigualdades são evidentes. Os homens apresentam 64,9% de conhecimentos financeiros, contra 56,8% das mulheres – uma diferença que persiste mesmo controlando para escolaridade e rendimento. Os idosos (60+ anos) e os jovens (18-29 anos) registam os piores resultados em conhecimentos, enquanto os indivíduos com ensino superior ou rendimentos elevados superam em mais de 30 pontos percentuais os que não completaram o secundário.

Curiosamente, o diferencial de género não resulta de menor envolvimento das mulheres na gestão diária das finanças: nos comportamentos e atitudes, as diferenças são mínimas ou inexistentes.

Os jovens já usam banca digital, mas há menos “top performers”, conclui ainda o BdP.

O módulo de literacia financeira do PISA 2022, que avaliou 4.075 alunos de 15 anos, revela que os jovens portugueses já estão imersos na economia digital: 38,1% têm conta bancária, 27,3% cartão de pagamento e 18,7% usam apps financeiras. No ano anterior, 59,6% pagaram com cartão, 76% fizeram compras online e 55,1% usaram aplicações móveis.

A pontuação média é semelhante à de outros países da UE, mas Portugal tem menos alunos com desempenho de topo (6,6%) e uma distribuição mais concentrada. Cerca de 15,5% não atingem competências básicas – proporção idêntica à europeia –, mas 74% destes acreditam saber gerir o dinheiro, o que aumenta o risco de decisões erradas.

As disparidades são fortes já que alunos de famílias imigrantes ou de contextos socioeconómicos desfavorecidos (poucos livros em casa ou pais sem secundário) têm maior probabilidade de ficar abaixo do nível básico e menor de atingir o topo.

Banco de Portugal defende urgência na educação financeira para combater desigualdades

O Banco de Portugal alerta que estas lacunas – especialmente nos grupos mais vulneráveis – podem perpetuar desigualdades económicas e limitar a inclusão financeira. “A literacia financeira incentiva a poupança, promove comportamentos prudentes e previne o endividamento excessivo”, lembra o relatório.

Portugal já tem estratégias nacionais de literacia financeira em curso, mas o estudo sublinha a necessidade de avaliação contínua, adaptação regional e integração mais forte nos currículos escolares obrigatórios. “Reforçar as competências desde a juventude é essencial para uma economia mais participada e produtiva”, conclui o documento.

Esta segunda-feira o Conselho Nacional de Supervisores Financeiros (CNSF) terá uma sessão solene da Semana da Formação Financeira 2025, na sede da CMVM, em que serão anunciados os vencedores da 14.ª edição do Concurso Todos Contam, conta com a presença do Ministro da Educação, Ciência e Inovação, Fernando Alexandre, inclui intervenções do Presidente do CNSF e Governador do Banco de Portugal, Álvaro Santos Pereira, dos membros do CNSF, Luís Laginha de Sousa, presidente da CMVM, Gabriel Bernardino, Presidente da ASF, e de Nuno Crato, Presidente do Concurso Todos Contam e ex-Ministro da Educação.

 


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