Tecnologia e PRR serão motores do crescimento da consultoria

A transição energética e digital que Bruxelas está a promover na economia europeia será um dos principais motores da procura por serviços de consultoria nos próximos tempos.

O mundo que temos pela frente será diferente daquele em que vivíamos no início de 2019, quando foi decretada a pandemia de Covid-19, devido a estes quase 20 anos de tempo de exceção. Para a consultoria, isto representa uma oportunidade de negócio, que será centrada nas linhas de rumo definidas, especialmente, na Europa, pela Comissão Europeia.

Em linha com as orientações da Comissão Europeia para uma economia crescentemente sustentável, digital e mais resistente a eventuais choques externos, as principais opções do sector passarão por ferramentas digitais inovadoras, automação e segurança.

Uma crise da magnitude da criada pela pandemia é igualmente uma oportunidade para alterações profundas na sociedade, algo que se vai verificando no contexto da Covid-19. Assim, é natural que as empresas, muitas retomando a atividade após vários meses de fortes impedimentos e restrições à sua operação, tenham realinhado algumas prioridades ao mesmo tempo que projetam um futuro cada vez mais digitalizado.
“O tema da digitalização a par das questões de eficiências são claramente os aspetos que estão no topo das tendências”, destaca Miguel Afonso, Partner e Head of Markets da KPMG, lembrando a passagem rápida que muitas empresas de serviços tiveram de fazer para um modelo não-presencial, tipicamente assente em soluções de cloud que, pela sua natureza, representam também desafios ao nível da cibersegurança e gestão de acessos.

“A procura de soluções de outsourcing de funções, áreas de atividade – tipicamente nos temas de backoffice – e a procura de centros de serviços partilhados para a realização de algumas tarefas mais rotineiras são também tendências mais recentes que resultaram igualmente da conjuntura vivida”, continua.

Tendências globais aprofundadas
Gabriela Teixeira, consulting lead partner da PwC, acrescenta que “as expetativas para os próximos anos são de aceleração de muitas das tendências globais de crescimento em múltiplos setores”. Como exemplo, e além da transição digital, “temas relacionados com o futuro do trabalho deverão ser dos mais relevantes”, bem como o foco em iniciativas com métricas ESG (acrónimo em inglês para ambiental, social e de governança) bem definidas e no upskilling, ou aprimoramento de capacidades profissionais, com aquisição e novas competências.
“É importante lembrar que, no que respeita à digitalização, não se trata apenas de tecnologia per si, envolve também muita capacidade criativa e uma forte componente humana nas competências de consultoria, fatores relacionados com soft skills que são muito diferenciadoras e valorizadas pelos nossos clientes”, prossegue.
A PwC, de resto, tratou já de implementar um programa dedicado ao upskilling, refere Gabriela Teixeira, antecipando já a necessidade por este tipo de iniciativas nos próximos tempos.
“O ‘Digital Upskilling’, lançado no ano financeiro de 2021 [que se iniciou a julho de 2020], é um programa estratégico e transversal a toda a PwC, e que tem como propósito aumentar o nível de consciencialização para a transformação digital e garantir a qualificação tecnológica de todos os profissionais, criando espaços para o desenvolvimento do conhecimento, partilha de experiências e de inovação”, detalha.

 

Tecnologia é oportunidade dominante
No capítulo tecnológico, contudo, há muitas inovações que se poderão esperar num futuro próximo, que podem ter um impacto significativo em diferentes sectores, à medida que os processos de digitalização são aprofundados.
A consulting lead partner da PwC opta por realçar, nesta área, os “modelos de informação preditivos, que promovam a tomada de decisão em tempo real ou a adoção alargada de tecnologias para automação de processos, de novos modelos de governo e estruturas organizacionais e processos que proporcionem maior confiança, rastreabilidade e segurança dos dados”.
Ainda assim, uma das tendências mais antecipáveis em termos de consultoria prende-se com o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), cuja aplicação impulsionará certamente a procura por este tipo de serviços. Neste âmbito, o papel dos consultores torna-se ainda mais importante, dada a relevância dos fundos que chegarão a Portugal nos próximos anos, tanto em termos de magnitude, como dos objetivos que a Comissão Europeia pretende ver cumpridos.
“Constata-se que, pelo facto de a mudança ser inevitável, está a ser pensada pelas organizações de forma séria e prática”, argumenta Bruno Padinha.
“Em virtude da disponibilização de fundos europeus pode-se também observar duas linhas orientadoras destas transformações, a transição climática e a transição digital, que obriga a um redesenhar completo da forma como as organizações atuam e olham ao mercado”, acrescenta.
Outra área na qual será expectável a manutenção da dinâmica recente é a de fusões e aquisições (M&A). Ao contrário do que inicialmente se chegou a temer, esta área apresentou uma vitalidade assinalável, tendo permanecido bastante ativa em Portugal, detalha Cristina Sousa Dias, Partner da BDO.
“A área de compra e venda de empresas (M&A) e transaction services, contrariamente ao expectável, continuou muito ativa em Portugal”, refere, acrescentando que a consultora espera “crescimentos em diversas áreas, como sejam a assessoria estratégica, Risk & CyberSecurity, Compliance e Sistemas de Informação de Gestão”.

“Enquanto as taxas de juros permanecerem baixas, as áreas de M&A e Transactions Services deverão permanecer ativas, existindo assim muitas oportunidades para compra e venda de empresas. O PRR e o PT2030 vão ser determinantes no financiamento e investimento, matérias em que o envolvimento de especialistas é decisivo”, conclui.

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