Títulos de dívida verde poderão tornar-se a “referência em termos de risco mínimo”

Com a emissão de títulos soberanos alemães de dívida verde, será dado mais um passo importante para a afirmação das ‘green bonds’ e para a recuperação económica sustentável, acredita o economista.

A emissão de dívida verde, ou as chamadas green bonds, por parte da Alemanha é mais um sinal claro da importância acrescida deste tipo de títulos, como havia já defendido Filipe Garcia, economista e presidente da IMF – Informação de Mercados Financeiros. O especialista havia já previsto uma aceleração deste género de emissão de dívida face à pandemia de Covid-19 e à necessidade de recuperar a economia, mantendo o alinhamento com as prioridades ambientais definidas pela Comissão Europeia, e a emissão alemã poderá contribuir, na sua opinião, para colocar os títulos verdes como a “referência em termos de risco mínimo”. No entanto, Filipe Garcia alerta também para a importância de uma adequada monitorização de um mercado que, por ser muito recente, terá ainda de “normalizar”.

 

Qual a importância das emissões da dívida verde que a Alemanha vai realizar?
Inserem-se dentro de uma estratégia europeia que decalca os objectivos de desenvolvimento sustentável, ou Sustainable Development Goals (SDG), da ONU. A Europa decidiu há alguns anos que o futuro se fará por este caminho e as green bonds são um dos braços desta estratégia. Há também interesse investidor neste tipo de títulos e o facto da Alemanha as emitir é relevante porque as green bonds poderão tornar-se os títulos de referência para o cálculo da taxa de juro “sem risco” em euros.

 

Parece-lhe expectável que países como Portugal avancem para este tipo de dívida? Se sim, quando e em que moldes?
É bem provável que Portugal emita green bonds e que o faça em resposta quer à procura de mercado quer para financiar projetos associados à estratégia de recuperação económica pós-Covid-19.

 

Quais os sectores da economia portuguesa que mais beneficiariam com este tipo de dívida?
As green bonds são títulos de dívida em que o emitente levanta dinheiro que será utilizado para financiar projetos que ajudem a proteger o ambiente. Portanto, se é verdade que pensarmos em energia e transportes parecem ser os setores óbvios, há fileiras industriais que também poderão beneficiar de financiamento deste tipo.

 

Uma das críticas apontadas às bonds verdes é a frequente utilização das mesmas para refinanciamento da dívida, o que foge ao seu propósito ecológico. Como garantir a transparência destes títulos, uma das vantagens mais aclamadas na comparação com a dívida soberana “normal”?
Com uma monitorização apropriada e “apertada” dos projetos associados às green bonds, mas também com auditoria ao respeito dos princípios ESG (environmental, social and governance, ou seja, ambientais, sociais e de governação) por parte dos emitentes. A transparência e o reporting serão cruciais.

 

Dada a elevada procura por este tipo de ativos, parece-lhe existir o risco de uma sobreavaliação dos mesmos, ou acredita que, especialmente no contexto europeu do New Green Deal, o mercado rapidamente aumentará a oferta existente para corresponder a tal desequilíbrio?
Tem havido uma crítica às green bonds ao dizer que os retornos superiores derivam apenas da maior procura e não por os projetos aumentarem a sustentabilidade e competitividade de longo prazo dos emitentes (no fim do dia, se o risco do emitente diminuir, o preço da obrigação sobe). O que me parece é que as green bonds podem vir a ser as referência em termos de risco mínimo, mas sim, o mercado tem ainda de “normalizar”.

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