Transformação urbana mostra-se mais inevitável

Pandemia acelerou a digitalização de processos, mas o importante é que serviu de aprendizagem e de alerta para o que é necessário fazer.

O processo de transformação urbana é inevitável, porque é nas cidades que estão e, cada vez mais, estarão as pessoas e a atividade económica. Por isso mesmo, as áreas urbanas são também fundamentais para o desenvolvimento de estratégias e políticas de sustentabilidade e para a comunidade enfrentar o desafio das alterações climáticas, em todas as vertentes. Em Portugal, os processos de digitalização foram acelerados pela pandemia, mas a evolução é desigual. Os especialistas notam que quem tinha já tinha investimentos concretizados na inteligência urbana foi capaz de dar uma melhor resposta do que quem não tinha e que, mais do que qualquer coisa, este período de exceção é uma oportunidade de aprendizagem.

Miguel Eiras Antunes, partner da Deloitte, defende que as cidades são os epicentros do desenvolvimento social e económico. “As cidades, pela dimensão e população que alojam, vão ser centrais no mundo de amanhã e as políticas públicas devem ter em conta esta grande tendência de urbanização. Se as pessoas vão viver nas cidades, é lá que as coisas vão acontecer”, diz.

Considera, também, que as áreas urbanas são “aceleradores de sustentabilidade”, porque é o espaço onde todos os desafios se juntam (ambientais, económicos e sociais), pelo que é aqui que “devemos testar e implementar novas soluções”.

 

Acelerador de processos
A pandemia foi um acelerador de alguns processos, nomeadamente de digitalização. Eiras Antunes aponta que ficou patente uma maior necessidade de digitalização, porque esta crise é um teste a outras a que será necessário dar resposta. António Feijão, da Secção de Healthy and Sustainable Cities da Associação Portuguesa para o Desenvolvimento das Comunicações (APDC), também diz que é preciso fazer mais. “A digitalização das cidades não é uma escolha. É inevitável. Desde há algum tempo, as nossas cidades têm vindo a efetuar esta transformação, com projetos e inovações interessantes, embora de forma ainda desigual e pouco integrada, sendo necessário acelerar e dar escala a este processo”, diz ao Jornal Económico (JE).

“Tal como no tecido económico em geral, a pandemia evidenciou a relevância do digital na manutenção da produtividade e dos serviços prestados e a urgência na sua adoção como meio privilegiado de desenvolvimento e resiliência”, acrescenta.

Eiras Antunes considera que, com a pandemia, os sistemas foram testados e que, no caso da administração – Estado e autarquias – sofreram um ataque. “Tiveram de funcionar em equipa e não estavam preparados, tiveram e alterar serviços e passaram a ter um papel maior na resolução da crise”, diz. “Os municípios e os ministérios que estavam mais bem preparados, responderam melhor”, acrescenta.

Frederico Costa Rosa, presidente da Câmara Municipal do Barreiro, concorda. “Na parte tecnológica, um ano antes da pandemia demos um salto gigantesco ao nível da informática e digitalização. Todo este processo dá-nos a desmaterialização do papel, a eficiência eterna”, explicou ao JE, mas acrescentou que o valor não se esgota no período de exceção que atravessamos e é uma vantagem futura. “Também nos dá algo fundamental para quem queira investir nesta cidade que é uma diminuição brutal no tempo de resposta que a câmara dá aos investidores e sabemos que isso muitas vezes é um aspeto decisivo na hora de decidir”, diz.

António Feijão diz que “as cidades e regiões que liderarem a transformação digital estarão na vanguarda da recuperação económica. A sua concretização em valor para as cidades e regiões exigem uma visão clara e políticas de investimento sustentado a longo prazo”.

Por exemplo, “transformar a mobilidade urbana requer uma abordagem holística. Tudo, desde o trânsito e o estacionamento até aos transportes públicos e os percursos pedonais devem ser considerados. Melhorar a qualidade de vida significa benefícios tangíveis tanto para os cidadãos residentes quanto para os visitantes. Esses benefícios só podem resultar da capacidade da cidade de medir em tempo real as dinâmicas urbanas e ajustar em conformidade”, diz.

Exemplo é o que se faz em Matosinhos: Luísa Salgueiro, presidente da câmara, apresenta o seu living lab como um fator decisivo no processo de descarbonização que a autarquia quer concretizar. “É uma zona central [do município], onde estão a ser testadas várias soluções”, diz, apontando projetos com a iluminação pública, com a produção de energia (com recurso a um piso especial que reage ao movimento), ao carregamento rápido de veículos elétricos e à mobilidade suave, por exemplo.

Eiras Antunes considera que a digitalização “com propósito” é um fator crítico de sucesso e que o Estado e os municípios têm de ter recursos para o fazer.

 

Tendências pós-pandemia
Para onde estamos, então, a evoluir e como será o pós-pandemia? António Feijão aponta a necessidade de se estabelecer “uma visão comum sobre o papel da tecnologia” e um “planeamento estratégico consubstanciado numa implementação faseada que promova o desenvolvimento económico, social e ambiental do território”.
“O sentido de urgência e a cooperação com todos os atores locais e nacionais, promovendo iniciativas comuns e projetos conjuntos num espírito de parceria que constitui um elemento fundamental para cumprir com êxito os objetivos e criar um impacto tangível e duradouro na vida dos cidadãos e dos visitantes, na gestão das cidades e na economia do país”, acrescenta.

Miguel Eiras Antunes explicita três tendências de futuro para as cidades, estando a primeira a relacionada com a sustentabilidade. “Se trabalharmos na transformação urbana, conseguimos resolver 90 por cento das emissões de carbono”, afirma. Mas não só aqui se desenvolve esta ideia, porque são necessárias respostas para a mobilidade sustentável, o desenvolvimento do urbanismo dos espaços verdes, trabalhar a economia circular e tudo o que tem a ver com edifícios. “40 por cento do que há a fazer é na área do edificado”, diz, quando se refere à descarbonização da economia.

Filipe Duarte Santos, professor universitário na Universidade de Lisboa, afirma, também, que é no quadro da sustentabilidade que se encontram os desafios futuros, a começar pelo da eficiência energética. “A transição é possível, mas é capital intensiva”, considera, alertando que o objetivo, mais do que ser eficiente, é de redução. “Temos de fazer um esforço para consumir menos energia. Consumimos mais per capita que outros países desenvolvidos”, diz.

Acrescenta, também, como desafios a mobilidade e a gestão dos espaços verdes.

A segunda tendência apontada por Eiras Antunes é a das cidades serem um centro de inovação e de digitalização. “Tecnologia para gerir, com a participação dos cidadãos. Sistemas centrados no utilizador e não no prestador de serviço [por exemplo, público]”, refere.

A terceira tendência é a da cidade transitar de um quadro de sistema para uma ideia de ecossistema, participativo, em que as comunidades não ficam para trás. “É a cidade inclusiva”, resume.

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