Trump decide “atestar” reserva estratégica petrolífera dos EUA para travar queda da cotação do petróleo

Atestar os tanques da reserva estratégica de petróleo dos EUA implica comprar 77 milhões de barris de petróleo, o que custará cerca de 2,6 mil milhões de dólares (cerca de 2,33 mil milhões de euros). Eis a fatura que Trump quer pagar para travar a queda das cotações do petróleo que afetam a viabilidade das unidades de shale oil nos EUA.

Carlos Barria/REUTERS

Donald Trump deu indicações de compra de grandes quantidades de petróleo para “atestar” os tanques da rede nacional da reserva estratégica de petróleo de emergência, segundo informações prestadas ao Jornal Económico por fontes do sector petrolífero. Esta decisão surge na sequência dos pedidos feitos por empresários do sector, ligados à produção petrolífera em unidades de shale oil, que pretenderam travar a descida das cotações internacionais do petróleo. De acordo com as mesmas fontes, para “atestar” a reserva estratégica de petróleo dos EUA serão necessários cerca de 77 milhões de barris de petróleo, retirando assim do mercado de consumo – das refinarias – essa quantidade de petróleo, o que aumenta artificialmente a procura e trava a queda de cotações.

De acordo com as mesmas fontes, “o assunto é muito importante, com consequências que vão muito além dos interesses dos EUA, refletindo-se na travagem da queda das cotações internacionais decorrentes do abrandamento do consumo nos principais mercados ocorrido durante a crise do Covid-19”.

Esta estratégia dos EUA – já relatada pela agência Bloomberg – tem como ‘contra-peso’ a decisão saudita de produzir petróleo ao nível máximo do débito dos poços árabes, acompanhada por intenções semelhantes executadas pelos produtores petrolíferos russos. “Não se prevê que as compras ‘extraordinárias’ de petróleo que vão ser feitas pelos EUA para ‘atestarem’ os gigantescos depósitos das suas reservas estratégicas consigam absorver o efeito do excesso de produção petrolífera saudita e russa que vem sendo colocada nos mercados internacionais, o que é confirmado pelo facto de que a cotação do petróleo não tem registado subidas notórias”, comentou ao JE uma fonte do sector.

Na realidade, na manhã de esta terça-feira, 17 de março, os futuros do petróleo Brent (que serve de referência para as negociações nas praças europeias, sobretudo em Londres e Roterdão) estavam a ser cotados a 30,31 dólares por barril, enquanto o WTI era negociado a 29,20 dólares. Habitualmente há uma maior separação de preços entre o Brent e o WTI – a atual aproximação pode estar relacionada com um travão na descida de cotações do WTI que agora apresentará resistência a uma maior amplitude de descidas.

Segundo informações da agência Bloomberg, a reserva petrolífera estratégica dos EUA tem uma capacidade total de armazenamento de 713,5 milhões de barris de petróleo. A Bloomberg refere que se o Governo dos EUA decidir encher totalmente a tancagem da reserva estratégica de petróleo, às cotações atuais do petróleo, essa compra “custaria cerca de 2,6 mil milhões de dólares” (cerca de 2,33 mil milhões de euros) e seria feita à razão de 430 mil barris diários de petróleo – o que representa cerca de 130 mil barris diários acima da capacidade máxima de refinação petrolífera de um país como Portugal –, durante um período de seis meses.

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