As ações norte-americanas continuam a ter maior rentabilidade face aos restantes mercados, em termos históricos, apesar do tempo recente mostrar que são os mercados internacionais a gerar um maior retorno para os investidores, avançou esta terça-feira o professor da London Business School, Paul Marsh, na apresentação do Global Investment Returns Yearbook 2026 do UBS.
Entre 1900 e 2024 o mercado bolsista norte-americano conseguiu gerar um retorno anualizado de 6,6% ficando à frente da Europa (4,1%), Japão (4,2%) e do índice mundial (5,2%), assinalou Paul Marsh.
Estes resultados surgem numa altura em que as bolsas norte-americanas não estão tão atrativas face a outros mercados mundiais, em termos de retorno.
Paul Marsh salientou que entre o início de 2025 e fevereiro de 2026 o mercado norte-americano gerou um retorno de 15% enquanto que em termos mundiais a rentabilidade atingiu os 42%. A bolsa chinesa no mesmo período temporal atingiu um retorno de 33% enquanto que o índice japonês e o britânico retornaram para os investidores 42%. Um dos motivos para este diferencial de performance esteve ligado à queda do dólar, salientou o professor da London Business School.
Entre 1900 e 2025 é possível verificar também que as ações conseguiram bater, em termos de performance, a inflação, as obrigações, e também as bills (títulos do tesouro), com as ações a conseguirem atingir um premium de 4,8% anualizado, revelou Paul Marsh.
Mesmo nas várias gerações as ações e os portfolios constituídos por 60% de ações e por 40% de obrigações têm conseguido melhores retornos anualizados reais face às obrigações. Nos baby boomers os retornos foram de 7% e de 5,7% para as ações e os portfolios 60/40, na geração X os retornos para os mesmos instrumentos foram de 5,7% e 5,3%, nos millennials os retornos foram de 5,2%, e na geração Z os retornos foram de 7,1% e de 4,6%. Enquanto que nas obrigações para as gerações dos baby boomers, geração X, millennials, e geração Z os retornos anualizados reais foram de 2,9%, 3,8%, 3,9% e de 0,5%. E a projeção da AQR na geração Alpha aponta para que as ações e o portfolio 60/40 tenham retornos anualizados reais de 4,2% e de 3,4% enquanto que as obrigações se ficam por um retorno de 2%.
O mercado norte-americano continua a manter a sua dominância face aos restantes mercados. Os mercados dos Estados Unidos têm um peso de 62% em termos globais e um peso de 70% entre os mercados desenvolvidos.
Paul Marsh assinalou também o peso que as ameaças de guerra ou de ação militar, ou os conflitos, possuem nos mercados. Se por um lado acabam por deprimir os retornos no curto prazo por outro lado também dão a possibilidade de se gerar retornos maiores no futuro, disse o professor da London Business School.
Durante a apresentação Global Investment Returns Yearbook 2026 do UBS foi dado como exemplos os extremos do mercado de ações, ilustrando o impacto da instabilidade nas bolsas. Nas duas grandes guerras o retorno total foi negativo em 31% e 12%. Nos países mais afetados a Alemanha na primeira guerra teve um retorno negativo de 66% enquanto que o Japão teve um retorno negativo de 96% na segunda guerra.
O mesmo aconteceu em outros momentos da história como o crash de Wall Street (1929), no choque petrolífero (década de 1970), na bolha das dotcom (2000), e na crise financeira de 2008, onde os retornos foram de – 65%, -47%, -44%, e de -59%. Para estes mesmos eventos históricos os países mais afetados foram os Estados Unidos (-79%), a Grã-Bretanha (-73%), a Alemanha (-65%), e a Irlanda com (-81%).
Paul Marsh assinalou também que o risco geopolítico não está ligado [somente] a conflitos como as guerras mas também abrange as tensões comerciais. A mais recente esteve ligada à crise tarifária. O anunciado dia da libertação, de Trump, que ocorreu em abril de 2025, levou a que a bolsa norte-americana perde-se 19% enquanto que o índice mundial teve 16% (tem grande peso dos Estados Unidos). Os restantes mercados caíram mas com uma menor intensidade. O índice mundial, sem os Estados Unidos, desceu 10%. Enquanto que as bolsas europeias, da Grã-Bretanha, do Japão e da China tiveram perdas de -7%, -7%, -19%, e -12%.
“Em três meses os Estados Unidos recuperaram das perdas [do dia da libertação]”, referiu Paul Marsh. “Existiram acordos, negociações. As coisas não foram tão más quanto se pensava. E existiu a excitação por causa da inteligência artificial e depois os receios com a inteligência artificial”, adiantou o professor da London Business School.
Durante a apresentação do Global Investment Returns Yearbook 2026 do UBS foi ainda analisado o desempenho do ouro, matéria-prima que nos últimos 12 meses gerou um retorno positivo de 76%. Paul Marsh salientou que desde 1900 a matéria-prima teve um retorno de 1,3% por ano ficando abaixo do retorno de 1,7% gerado pelas obrigações.
Paul Marsh salientou que o disparo no ouro em 2025 se deveu a vários fatores. “A produção de ouro é praticamente fixa. O ouro fica dependente da procura”, adiantou Paul Marsh. Um dos motivos que levou ao disparo no preço do ouro foi a procura por parte dos bancos centrais e dos restantes investidores. O professor da London Business School assinalou que os bancos centrais compraram ouro devido às preocupações que possuíam de que as sanções ocidentais “tivessem o potencial para congelar, e desvalorizar as suas reservas de moeda” algo que torna o ouro “mais atrativo”. A instabilidade geopolítica foi outro fator, identificado por Paul Marsh, que incentivou os bancos centrais a compraram mais ouro. “Os indivíduos [investidores do retalho] têm comprado ouro por razões de precaução. Se viverem numa zona de conflito o ouro é altamente deslocável se quiser fugir. [Existe também] a parte da especulação e do momentum. E por acharem que o ouro é um hedge (cobertura ou proteção na tradução portuguesa) contra a inflação, e um ativo de refúgio”, acrescentou o professor da London Business School.
É o ouro um hedge contra a inflação? Os dados apresentados por Paul Marsh mostraram as correlações existentes entre a inflação e os vários ativos. No caso das obrigações existe uma correlação negativa de 0,59, as bills (títulos do tesouro na tradução portuguesa) têm uma correlação de -0,81, as ações têm uma correlação de -0,24, as obrigações que visam proteger contra inflação têm uma correlação de -0,38, e a habitação tem uma correlação de -0,36. Com correlação positiva aparece as comodities, ou matérias-primas, com uma correlação de 0,10, o ouro tem uma correlação de 0,30, e os futuros possui uma correlação de 0,27.
“Enquanto o ouro tem mantido o ritmo com inflação em períodos curtos o ouro não é um hedge contra a inflação”, salientou o professor da London Business School.
É o ouro um ativo de refúgio? A resposta é sim. Os dados apresentados por Paul Marsh referiram que em oito de 11 bear markets (queda na bolsa de 20%, ou mais, face a um máximo) o ouro teve um retorno positivo, e em todos esses bear markets bateu a rentabilidade das ações. Em cinco períodos de recessão o ouro em três desses períodos teve um melhor desempenho quando comparado com as ações. “O ouro tem dado melhor proteção face às obrigações e portanto é um ativo de refúgio”, reforçou Paul Marsh.
Durante a apresentação do anuário foi dada conta também da alteração que se tem verificado na composição da bolsa norte-americana. Em 1900 o setor dominante era o ferroviário. Chegado a 2026 é o setor tecnológico o que possui mais peso na bolsa norte-americana. Também em 2026 verifica-se uma maior diversificação de setores.
“80% do mercado em 1900 era indústrias que agora são mais pequenas ou que estão extintas”, disse Paul Marsh. Em 2026 sucede o inverso, acrescentou o professor da London Business School.
Paul Marsh disse ainda que as novas tecnologias transformaram o mundo. “Elas são tipicamente disruptivas, daí o FOBO (medo de se tornar obsoleto na tradução portuguesa) devido à inteligência artificial. Algumas tecnologias têm sido bons investimentos a longo prazo, outras não. Algumas novas tecnologias levaram a bolhas, mas não todas”, referiu o professor da London Business School
“A história pode informar sobre estratégia futura”, disse o professor da London Business School.
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