Under the Cover: tantos mundos a descobrir para lá das capas

Neste espaço acolhedor tem encontro marcado com algumas das melhores publicações independentes sobre as mais diversas áreas. Um convite aos sentidos e à vertigem de ler devagar.

Under the Cover, Foto cedida

Nasceu no final de 2015 e só podia ter um nome assim, Under the Cover. Se o jogo de palavras se presta a inúmeras alusões envolvendo a expressão capa, no caso desta pequena loja especializada, o conceito tem subjacente um convite: “venha ver e mexer”. Mergulhe nas revistas. Há tantos mundos a descobrir para lá das capas.

Neste recanto acolhedor não vai encontrar livros nem lixo “cor de rosa”, mas sim algumas das melhores publicações independentes sobre áreas tão diversas que vão desde a arte, arquitetura, moda, fotografia e design, às viagens, cultura e sociedade, passando pela literatura, música, gastronomia e, porque não, assuntos europeus. “Somos atraídos pela liberdade de expressão e pelo pensamento provocador”, lê-se no site da Under the Cover. E na visita que fizemos, pudemos confirmar que esse continua a ser o mote e o estímulo dos seus fundadores.

Luís Cunha, o anfitrião que nos recebe com um sorriso nos olhos, ou não estivesse boa parte do rosto oculto por esse acessório incontornável dos últimos e próximos tempos, realça que o espaço foi pensado para dar destaque à irreverência das publicações, “para que as pessoas queiram ver e mexer” nas revistas.

Um cliente que folheava avidamente uma publicação não resistiu a participar na conversa. “Já venho cá há bastante tempo e só posso dizer que o Luís é fantástico! Sabe imenso sobre isto e eu aprendo imenso! E não é só por prazer, também tenho descoberto coisas muito úteis para o meu negócio”. Luís agradeceu o entusiasmo de Rui, um habitué de longa data que não prescinde da sua dose de ‘literatura’ mais ou menos especializada, mas garantidamente estimulante.

O espaço é harmonioso mas revela tudo de uma só vez, inundando os sentidos. Não há lombadas nem sofremos em busca da capa. Está tudo à vista. No meio, uma mesa permite-nos prolongar a visita um pouco mais. Torneá-la, ver o que nela está criteriosamente alinhado e, claro, mexer, folhear, descobrir. Um pouco como os dois fundadores da Under the Cover, Luís Cunha e Arturas Slidziauskas, fizeram quando se descobriram como dupla em ebulição.

A pergunta inevitável: a ideia ganhou forma ou já a acalentavam há algum tempo?

A loja esteve a ser planeada durante um ano e surgiu de uma forma muito orgânica. Sempre gostámos muito de revistas e quando decidimos abrir um negócio próprio queríamos que fosse uma coisa de que gostássemos, mas não necessariamente algo que dominássemos. Quando viajávamos, tínhamos o hábito de visitar lojas de revistas, era uma paixão nossa [sorriso]. Em Lisboa, apesar de haver quiosques com alguma oferta, faltava uma curadoria das revistas e como começámos, na altura [em 2015], a assistir a um boom de novas publicações independentes, achámos que fazia todo o sentido.

Como surgiu o nome?

Surgiu por acaso. Queríamos que refletisse o que estávamos a fazer e o conceito da loja. E as capas são algo que podemos pôr em destaque, as prateleiras foram desenhadas nesse sentido, aliás. Não queríamos coisas sobrepostas, a ideia é seduzir para ver as capas e ver o que está por detrás delas. É como que um convite para ver e deixar-se levar pelas capas chamativas. E também funciona um bocadinho como um trocadilho com a expressão do “não julgar um livro pela capa”. Se olharmos à volta, vemos que as paredes todas estão cobertas de revistas. É uma experiência incrível e imersiva, e um convite a descobrir coisas novas.

Qual é a primeira reação de quem descobre a loja e entra?

Quem nos descobre por acaso, a andar na rua, normalmente fica muito surpreendido. Entram para fazer perguntas e perceber o conceito. Perguntam se podem tocar – não tem a ver com a pandemia, já antes era assim [sorriso]. E também é uma oportunidade de explicar o conceito, de apresentar uma ou outra publicação que eu ache interessante e que a pessoa não saiba que está à procura. No fundo, fazer um pequeno resumo da história da publicação, porque essa é uma das nossas vantagens: conhecemos quem está por trás, quem está a produzir, sabemos qual é o esforço que está por trás. Fazemos uma ponte entre a publicação e o cliente.

Têm critérios específicos para selecionar “as eleitas”?

Sim, são muitos e muito complexos, mas sem ir ao detalhe, o mais importante é que o conteúdo esteja ligado ao design e que tenha uma visão fresca e pertinente, mesmo que seja sobre um tema que possa estar muito batido.

O vosso público é, seguramente, muito transversal. Mas quem vos procura mais, sem contarmos com as pessoas mais ligadas às artes, design e arquitetura?

O que eu acho interessante é que estas publicações apelam a públicos que não esperaríamos, quer em termos etários, quer em termos de formação. E a nossa ideia quando abrimos a loja nunca foi apostar em áreas técnicas. Toda a gente gosta de coisas bonitas e, portanto, o que nós queremos é mostrar que há publicações esteticamente apelativas que são bons produtos e dá-los a conhecer.

Durante a pandemia e os períodos de confinamento optaram por uma presença essencialmente digital?

Nós continuámos a funcionar, mesmo durante o período de confinamento com entrega à porta. As pessoas escolhiam e pagavam no site e depois vinham recolher à loja, e também fizemos entregas em casa. Funcionou muito bem. E fora dos períodos de confinamento, as pessoas usam o nosso site como “guia” para se manterem atualizadas. Tem essa dupla funcionalidade.

As vendas online cresceram ou a pandemia deixou marcas?

No ano passado, em 2020, notámos uma adesão maior. Mas não podemos esquecer que este ano o período de confinamento coincidiu com os meses de janeiro e fevereiro que, normalmente, não são meses de vendas fantásticos. Foram meses difíceis, tivemos perdas na ordem dos 40%. Mas desde o fim do confinamento, as coisas têm evoluído bem. As pessoas regressaram e nota-se quase uma “normalidade”.

No geral, as pessoas são recetivas a sugestões?

Vou tentando perceber o gosto… mas há aquelas pessoas que vêm sempre para uma dada publicação e um dia sai-lhes: “estou farto disto!”. E aí eu posso dar outras sugestões com base nesse conhecimento que são alternativas àquela. E o contacto com o cliente é tão próximo – em certos casos até já somos amigos e tratamo-nos pelo nome – e quase que sei, quando estamos a encomendar uma revista nova, que o cliente tal vai gostar. E depois pensamos os dois em quantos clientes poderão estar interessados daquela mesma revista. Até podemos estar errados, mas a parte boa destes pequenos negócios é conhecer bem as pessoas que nos visitam.

Há alguma estória com clientes particularmente divertida ou inesperada?

Por acaso, recentemente, aconteceu uma muito curiosa… Um cliente entrou e pegou num outro número desta revista – “Are We Europe” –, que é uma revista dedicada a temas europeus fraturantes e em que cada edição é dedicada a um tema particular. A edição que tínhamos na altura era dedicada ao tema “religião” e, de repente, do nada, começou a dizer: “Não acredito, não acredito”!

Era um cliente habitual?

Não, não o conhecia. Mas perguntei-lhe se estava tudo bem. Respondeu que acabara de descobrir que tinham publicado o artigo dele naquela revista e que estava muito admirado. Porquê? Porque passara todos os prazos, mas enviara o texto na mesma. E por essa razão não quis saber mais do assunto. Como estava cheio de vergonha, nunca mais os contactou. Por isso, ficou extremamente surpreendido ao ver o artigo publicado. As publicações independentes têm isto de bom. Os prazos não são tão rígidos, privilegiam a qualidade e a pertinência dos conteúdos.

Entretanto, um novo cliente entrou na loja e entregou-se à contemplação ou, quiçá, ao exercício de slow reading. É difícil não o fazer quando à irreverência dos conteúdos se soma a qualidade do papel, design e impressão. Isso e ser-se bem recebido. Daí a sugestão. Se passar à frente do número 88B da rua Marquês Sá da Bandeira, em Lisboa, hesite. Desacelere e pare. E se ainda não conhece a Under the Cover, atreva-se a entrar.

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