Portugal vai encerrar centrais a carvão, mas vai continuar a consumir eletricidade poluente vinda de Marrocos

Um estudo avisa que Portugal vai continuar a consumir eletricidade poluente após encerrar as suas centrais a carvão. Importação de eletricidade poluente vai aumentar com a construção de cabo submarino para Marrocos.

A guerra ao carvão na União Europeia está a levar cada vez mais países a encerrarem as suas centrais a carvão. Portugal encontra-se entre os países cujo encerramento das centrais a carvão já está previsto. Até 2023, as duas centrais a carvão do país deverão encerrar, conforme já sinalizou o Governo.

Mas os países da União Europeia estão a importar cada vez mais eletricidade: entre 2017 e 2017, as importações dispararam 600% para 21 terawatts hora (TWh). “Todas as importações são de países que têm zero ou quase zero taxa de carbono”, segundo a Sandbag. Este think tank aponta que só as importações foram responsáveis pela emissão de 26 milhões de toneladas de CO2, “mais do que a emissão anual das centrais a carvão italianas”.A importação de eletricidade de países exteriores à UE terá um custo de 1,6 mil milhões de euros, mas se estivesse sujeita ao preço do carbono da União Europeia teria gerado uma receita de 630 milhões de euros.

Espanha, e por consequência Portugal, estão entre os 13 países da UE mais expostos à eletricidade a carvão de fora da UE. Sobre o país vizinho, a Sandbag alerta que em Espanha “a produção de carvão doméstica está a colapsar, mas as importações de eletricidade a carvão de Marrocos estão a aumentar, onde mais interligações estão planeadas”.

Portugal está entre os seis países (Grécia, Hungria, Itália, Eslováquia e Finlândia) da UE que já se comprometeram a encerrar as suas centrais a carvão até 2030, “mas vão continuar expostos às importações de eletricidade gerada a carvão depois desta data sem não houver uma alteração nas políticas”, segundo a Sandbag.

“O progresso de descarbonização nos países da UE arrisca-se a ser prejudicado se as importações de eletricidade a carvão continuar a ter uma vantagem competitiva. As metas ambientais não serão cumpridas se as emissões são exportadas em detrimento de realmente reduzidas”, analisou a instituição britânica.

As importações líquidas de Marrocos para Espanha aumentaram em 4,2 terawatts hora entre 2018 e 2019. Simultaneamente, Portugal registou um saldo importador positivo com Espanha em 2019: 3.399 GWh, mais 6.056 GWh face a período homólogo. Portanto, Espanha aumentou a sua importação de eletricidade de Marrocos em 2019, ao mesmo tempo que Portugal aumentou as suas compras de eletricidade a Espanha.

Portugal realiza estudo sobre cabo submarino com Marrocos

Neste momento, está a ser realizado um estudo para estudar a viabilidade de um cabo submarino entre Portugal e Marrocos. O cabo terá um custo estimado de 700 milhões de euros, a suportar pelos dois países. Mas perante o risco de Portugal vir a importar diretamente eletricidade poluente de Marrocos, o Governo já avisou que o projeto não avança se não forem resolvidas várias questões, como mecanismos tarifários de ajustamento.

“Não haverá uma interligação com Marrocos se estas questões não forem resolvidas, pela simples razão de que não se podem fechar centrais a carvão, e por em causa empregos, para depois fazer outsourcing para os mesmos empregos e a mesma tecnologia umas dezenas de quilómetros mais abaixo”, disse João Galamba, secretário de Estado da Energia, em setembro de 2019.

O estudo está a realizado pela REN e pela sua congénere marroquina. A sua conclusão estava prevista até ao final de 2019, mas ainda não foi concluído.

Comissão Europeia defende taxa de carbono nas fronteiras da UE

A presidente da Comissão Europeia disse já estar atenta a este fenómeno e avisou que pretende criar uma taxa de carbono sobre as importações de eletricidade. “Não faz sentido em reduzir as emissões dos gases de efeito estufa em casa se aumentarmos as importações de dióxido de carbono do exterior. É uma questão de justiça perante as nossas empresas e os nossos trabalhadores. Vamos protegê-los de concorrência injusta”, afirmou Ursula von der Leyen a 22 de janeiro durante a conferência de Davos, Suíça, citada pela Deutsche Welle.

A Sandbag deixa vários alertas para o futuro. Primeiro, os países europeus estão a planear aumentar em 31% a sua capacidade de interligação com países de fora da UE. Depois, estão planeadas novas centrais a carvão nas fronteiras dos países da UE, numa potência total de 57 gigawatts: Turquia (34 gigawatts), Egipto (11 GW), Bósnia e Herzegovina (4 GW) e Sérbia (2GW). Por último, até 2025 cinco novos países de fora do bloco comunitário poderão já ter interligações para a UE: Egipto, Tunísia, Líbia, Israel e Moldávia; nenhum destes países tem preço de carbono.

Galamba avisa que não vai haver cabo submarino se centrais a carvão de Marrocos não forem penalizadas

Relacionadas

Galamba avisa que não vai haver cabo submarino se centrais a carvão de Marrocos não forem penalizadas

O estudo sobre a interligação entre Portugal e Marrocos está atrasado, não havendo nenhuma data prevista para a sua conclusão, segundo o Governo. O cabo submarino tem um custo estimado de 700 milhões de euros, com a sua viabilidade a ter de ser ainda estudada. Mas se nada mudar em relação à eletricidade marroquina de origem poluente, a interligação não avança, de acordo com o secretário de Estado da Energia.

Cabo submarino para Marrocos: Estudo vai ser divulgado ainda este ano

O estudo devia ter sido apresentado no início deste ano. O cabo submarino tem um custo estimado de 700 milhões de euros. Governo português já avisou que não constrói cabo se Marrocos continuar a exportar eletricidade poluente para a Europa sem ser penalizado.
Recomendadas

PremiumEugénio Rosa: “A substituição da administração do Banco Montepio é necessária”

“Sou totalmente contra uma administração que caia de paraquedas no Banco Montepio”, defende Eugénio Rosa, líder da lista C, candidata às eleição dos órgãos associativos do Montepio Geral.

PremiumPedro Corte-Real: “Há garantias do primeiro-ministro que o Montepio ia ser apoiado”

Pedro Corte-Real, que lidera a lista B para a presidência da Associação Mutualista Montepio Geral, defende que o Estado deve ajudar o Banco Montepio e diz que “esse apoio ainda não foi dado por falta de credibilidade das direções”.

Goldman Sachs quer aumentar diversidade étnica e de género nas cotadas do S&P 500 e do FTSE 100

A Goldman Sachs Asset Management diz que quer estar na vanguarda para impulsionar uma maior diversidade e inclusão nos conselhos de administração em todo o mundo.
Comentários