Ursula von der Leyen foi eleita pela margem mais estreita em 25 anos

É preciso recuar até ao momento em que Jacques Santer sucedeu ao “eterno” Jacques Delors para encontrar uma votação para a presidência da Comissão Europeia tão renhida. A até agora ministra da Defesa da Alemanha esteve longe de conseguir fazer o pleno entre as três maiores famílias políticas do Parlamento Europeu.

A democrata-cristã alemã Ursula von der Leyen conseguiu nesta terça-feira o feito histórico de tornar-se a primeira mulher a presidir à Comissão Europeia, mas as dificuldades e impasses no processo de sucessão do luxemburguês Jean-Claude Juncker ficaram bem patentes na votação que obteve no Parlamento Europeu, obtendo apenas 383 boletins favoráveis, contra 327 votos contrários, 22 abstenções e um voto em branco, pelo que teve a confirmação por margem mais estreita desde 1994, quando o também democrata-cristão luxemburguês Jacques Santer teve apenas mais 18 eurodeputados a favor do que contra.

Os 383 votos que permitiram a confirmação da até agora ministra da Defesa da Alemanha só superam os 382 que Durão Barroso somou em 2010, quando foi reconduzido para um segundo mandato, e os 262 eurodeputados que Santer teve a seu favor no Parlamento Europeu quando chegou a hora de suceder ao socialista francês Jacques Delors, considerado o “senhor Europa” que liderou a integração de Portugal e de Espanha e lançou as sementes para novos alargamentos da União Europeia (criada em 1994 a partir da Comunidade Económica Europeia) e para a adoção do euro.

E isto apesar de Ursula von der Leyen ser a candidata do Partido Popular Europeu, que tem a maior bancada, com 182 deputados, e de as lideranças da Aliança Progressista de Socialistas e Democratas (S&D) e do Renovar Europa terem apelado à sua aprovação. Tendo em conta que o pleno das três maiores famílias políticas de Estrasburgo implicaria um total de 443 deputados, e que apesar de o voto ser secreto várias outras forças políticas anunciaram publicamente apoio à alemã, mais de 60 eleitos socialistas e centristas recusaram-se a seguir o entendimento saído do Conselho Europeu extraordinário em que vários chefes de Governo chumbaram o acordo entre a chanceler alemã Angela Merkel e o presidente francês Emmanuel Macron para que o socialista holandês Frans Timmermans assumisse a presidência da Comissão Europeia.

Particularmente impressionante é o número daqueles que rejeitaram a candidata, visto que os 327 votos contrários ficam muito acima dos 250 que Juncker recebeu em 2014, dos 215 e 219 que o português Durão Barroso obteve em 2004 e 2010, dos apenas 72 que recusaram o nome do italiano Romano Prodi em 1999 e até dos 244 que ficaram perto de chumbar Santer em 1994. Só que há 25 anos, ainda sem o alargamento à Europa de Leste e a alguns países do Mediterrâneo, o hemiciclo de Estrasburgo estava menos composto, tendo votado na confirmação do presidente da Comissão Europeia apenas 530 eurodeputados.

Para a elevada rejeição de Ursula von der Leyen contribuiu o aumento do peso das famílias políticas que se encontram fora do centro político da União Europeia. Desde logo ficou clara a posição dos Verdes – Aliança Livre Europeia (74 eurodeputados) e da Esquerda Unitária Europeia-Esquerda Nórdica Verde (41), mas os compromissos assumidos pela política alemã com a S&D e o Renovar Europa no que toca a ambiente e imigração também não fizeram maravilhas pela sua popularidade nos grupos Identidade e Democracia (do italiano Matteo Salvini e da francesa Marine Le Pen) e dos Conservadores e Reformistas Europeus.

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