Chegar a Varanasi no dia do Holi, o festival das cores, é um baptismo de intensidades. Na euforia, o táxi não avança; resta caminhar até ao hotel e submetermo-nos aos “Happy Holi” de uma multidão que oferece banhos de pó colorido, queiramos ou não. Até as vacas sagradas se alvoroçam. O mito conta que Krishna invejava a brancura da sua amada e, por isso, coloriu o rosto dela e tudo em uma celebração das diferenças que deixavam de importar. Um elogio prático à tolerância.
Varanasi é das cidades mais antigas do mundo, tão antiga que nenhuma mudança a perturba. Os gath ao longo da margem do Ganges estendem-se por quilómetros, cada um no fim de uma escadaria de grandes e sólidos degraus. Sentar neles é participar, finalmente, do sentir de Apu, a personagem inesquecível da trilogia de Satyajit Ray. É difícil pô-lo em palavras com sentido. O Sol a nascer no Ganges parece tardar. Uma neblina insiste com os tons alaranjados, como se houvesse um poente dentro do nascer do Sol.
Da destruição cósmica, o deus Shiva salva apenas Varanasi, mantendo-a suspensa na ponta de seu tridente. A cidade retribui esse amor venerando-o na forma do Shiva Lingam: uma pedra negra polida, oval e sem arestas. A sua forma aproxima-se do que não tem forma, e lembra o apeiron de Anaximandro – que é ilimitado e sem contornos. No templo, a pedra não é adorada com a distância do que transcende, mas com a proximidade do carinho. Verte-se leite e lançam-se flores sobre o Lingam como quem cuida de alguém querido. A pedra exprime o ovo cósmico e a ligação amorosa com Yoni, a base em que se encaixa.
Os seguidores de Shiva contrastam com os de Vishnu como a fusão amorosa à ordem racional e os mesmos mitos podem ser contadas das duas perspectivas, o que os torna ainda mais belos. Mas em Varanasi, Shiva prevalece de formas inesperadas. A espiritualidade não está na beleza intocada, mas descobre-se no meio da sujidade, como a flor de lótus que emerge da lama. As coisas aqui não conhecem muitas compartimentações, o sagrado e o profano estão muito próximos, pele um do outro.
No Ghat Manikarnika, onde se diz que Shiva perdeu o brinco do seu amor, testemunhamos as cremações. Não é possível apenas assistir; é preciso testemunhar em silêncio, sem fotografias, deixando-se gravar pelo fogo e pela crença. Sai-se dali esvaziado até aos ossos. E, logo ao lado, a vida transborda: pessoas banham-se com prazer, crianças jogam cricket e lançam papagaios, entre cães, cabras e vacas. E sentados nos degraus, sob toldos, monges Aghori nus observam o sol pôr-se sobre a cidade, enquanto o Ganges espera, com a praia na outra margem, pelo próximo amanhecer.
Este é o terceiro artigo da série “Caderno de Viagem“.
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