Vindimas 2020: nos Vinhos Verdes, equilíbrio entre o álcool e a acidez

Amanhã, será a vez de seguir mais para sul em direção aos produtores de vinhos da região da Bairrada, com destaque para as Caves do Solar de São Domingos e para a Quinta dos Abibes.

As vindimas deste ano foram atípicas, devido à intensificação das alterações climáticas, com chuvas e calores a despropósito, e consequente ataque de pragas, a que se somou a pandemia de Covid-19. Mas as expectativas apontam para uma produção de superior qualidade, mesmo que haja quebras de produção em algumas regiões.

Leia o balanço de dezenas de produtores de norte a sul do país, incluindo os Açores e a Madeira, e de sete presidentes de Comissões Vitivinícolas Regionais. E espreite o que se está a passar em Champagne, com a Moët et Chandon.

Para os mais apaixonados pelo tema, interessados nas questões de cariz técnico, o Jornal Económico disponibiliza ainda os relatórios de vindima deste ano de duas casas com séculos de tradição na produção de vinhos no Douro, em particular de vinhos do Porto, com os testemunhos pessoais de Charles Symington, diretor de produção e vice-CEO da Symington Family Estates, que comercializa as referências Graham’s, Dow’s, Warre’s, Cockburn’s, Quinta do Vesúvio, Quinta do Ataíde, Altano, P+S e Quinta da Fonte Souto; e de David Guimaraens, diretor de enologia da The Fladgate Partnership, que comercializa as marcas Taylor’s, Fonseca e Croft, entre outras.

Em conjunto, estas duas casas já representam mais de 500 anos de produção de vinhos de mesa e do Porto no Douro (a Fladgate já celebrou o 430º aniversário, enquanto a Symington tem mais de 130 anos de história) e os relatórios da vindima de 2020 demonstram que as alterações climáticas são cada vez mais uma realidade incontornável no setor vitivinícola nacional.

Hoje, prosseguiremos esta viagem pelas vindimas de 2020 com os testemunhos dos produtores dos Vinhos Verdes, no Minho. Casa de Vilacetinho, Quintas de Melgaço, Quinta do Ameal (da Herdade do Esporão) e Valados de Melgaço serão os protagonistas da região que lhe contam as peripécias desta campanha.

Amanhã, será a vez de seguir mais para sul em direção aos produtores de vinhos da região da Bairrada, com destaque para as Caves do Solar de São Domingos e para a Quinta dos Abibes.

A Herdade do Esporão também está presente nesta região dos Vinhos Verdes, com a Quinta do Ameal. José Luís Moreira da Silva, diretor de enologia desta casa de Ponte de Lima, diz ao Jornal Económico que “começámos a vindima no dia 7 de setembro”.

“O ano agrícola começou fresco e com muita chuva até junho, quando as nossas uvas iniciaram a sua maturação. julho, foi quente e seco, o que acelerou o desenvolvimento dos bagos. O início de agosto teve temperaturas mais amenas e a chuva a meio do mês foi fundamental para restituir o equilíbrio das plantas”, explica José Luís Moreira da Silva.


José Luís Moreira da Silva

O diretor de enologia da Quinta do Ameal refere que, “depois, voltou o calor, o que ajudou a atingir maturação mais cedo que o normal”.

“Prevemos terminar a vindima com um aumento de produção em relação ao ano passado, e com vinhos de muita qualidade, destacando o equilíbrio entre a acidez e teor alcoólico”, projeta José Luís Moreira da Silva.

Também Artur Meleiro, proprietário da Valados de Melgaço considera que “a colheita de 2020 poderá revelar-se como o único aspeto positivo deste ano pandémico”.

“Para tal, muito contribuiu o ‘regresso’ de condições climáticas normais, com inverno chuvoso e verão quente e a previsibilidade da evolução da maturação, permitindo a realização da vindima no ponto óptimo de equilíbrio das uvas, em maturação, teor alcoólico provável e acidez natural”, defende este produtor.

Para Artur Meleiro, “foi um ano difícil de combate às pragas, tendo exigido muito rigor na prevenção e acompanhamento do ciclo vegetativo das vinhas”, mas “ultrapassada essa dificuldade, conseguimos obter uvas sãs, de excelente qualidade, e em quantidade em média 10 a 15% acima da produção do ano anterior, para a casta principal – Alvarinho”.

“Neste momento, ainda decorrem as fermentações, mas os mostos estavam excelentes e achamos que os vinhos resultantes deverão ser de qualidade acima da média”, acredita Artur Meleiro.


Artur Maleiro

Sobre o impacto da Covid-19, o dono da Valados de Melgaço reconhece que “as vindimas são muito propícias a ‘ajuntamentos’, pelo que tivemos de fazer alguns ajustes na organização do trabalho nas vinhas, aumentando o espaçamento entre as equipas e disponibilizando máscaras e luvas”.

“Toda a gente estava já sensibilizada para os cuidados a ter, sendo pacífica a adesão aos novos comportamentos. Todos ficamos tristes pelo cancelamento da tradicional merenda de fim de dia, mas prometemos redobrar a confraternização já na próxima colheita!”, garante Artur Meleiro.

Na mesma subregião, fomos também ouvir Pedro Soares, administrador delegado da Quintas de Melgaço, um produtor com mais de 530 famílias melgacences acionistas e um dos grandes embaixadores de Alvarinho em Portugal.

“A vindima na Quintas de Melgaço arrancou com o mês de setembro. O ano vitícola foi bastante difícil, exigindo um controlo e acompanhamento da vinha mais árduo. Os nossos produtores de uva assumiram aqui um papel particularmente excecional, porque graças ao seu trabalho o nível de qualidade da uva mantém-se inalterado. Estas últimas chuvas ditaram alguma incerteza quanto ao início da vindima, mas foram muito boas para a vinha”, sintetiza Pedro Soares.

Por fim, na Casa de Vilacetinho, falámos com João Miguel Maia, ‘managing director’ deste produtor histórico da Região dos Vinhos Verdes na subregião de Amarante, situada em Alpendurada, sobre o Rio Douro.

“A vindima na Casa de Vilacetinho deverá começar dia 31 de agosto e tem como previsão três-quatro semanas de duração”, disse-nos este responsável na altura.

Para João Miguel Maia, “no que toca à produção, estimamos que as vinhas velhas se comportem de modo igual ou ligeiramente superior ao ano anterior, mas deverá verificar-se um aumento nas vinhas novas, pois começam a aumentar de produtividade com a idade”.

“Em termos gerais, a produção deve crescer entre 10 e 5%”, revelou o ‘managing diretor’ da Casa de Vilacetinho.


João Miguel Maia, Casa Vilacetinho

No entender de João Miguel Maia, “este ano agrícola caracterizou-se por um inverno seco e uma primavera fria e chuvosa na região, o que pode ter prejudicado um pouco o desenvolvimento da uva”.

“No entanto, o verão foi muito quente, mas o crescimento gradual de temperaturas fez-se sentir numa fase tardia e já com muita floração, pelo que não houve incidentes graves como escaldão, mas criando algum ‘stress’ hídrico. Cremos que esta colheita tem potencial para ser um excelente ano, com mostos equilibrados e com boa produção – estas chuvas de final de pré-vindima irão ajudar a encher ainda mais os cachos”, assinalou este responsável.

João Miguel Maia explicou ainda que a Casa de Vilacetinho contou com 30 pessoas para a vindima manual deste ano.

 

 

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