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“Escândalos no Chega enfraquecem o partido, mas não a imagem de Ventura”

André Ventura candidata-se pela segunda vez à Presidência da República e, desta vez, pode ter a possibilidade de passar a uma segunda volta, um cenário que, embora a distância das eleições recomende cautela nas análises, se começa a desenhar. Mesmo que o partido saia enfraquecido dos escândalos, Ventura parte para a corrida a Belém “com a sua imagem intocada”, defende Riccardo Marchi.
28 Fevereiro 2025, 13h39

Estava prevista para esta sexta-feira, no Mosteiro dos Jerónimos, a cerimónia oficial de lançamento da candidatura de André Ventura à Presidência da República, mas, afinal, será apenas divulgado um vídeo e o evento oficial será só em maio. Para Riccardo Marchi, historiador e especialista em movimentos de extrema-direita, o líder do Chega adia a cerimónia para não “gastar esse cartucho” numa altura em que o partido se vê a braços com vários escândalos, e aproveitar ao máximo a oportunidade que as presidenciais de 2026 lhe podem dar: a possibilidade de passar à segunda volta. Ainda assim, no entender do politólogo, as polémicas que atingem deputados e dirigentes enfraquecem o partido, mas a imagem de Ventura continua “intocada”, tal como acontece noutros partidos congéneres na Europa.

Como olha para a segunda candidatura de André Ventura à Presidência da República?

Diria que era quase obrigatório o André Ventura candidatar-se novamente à Presidência da República. Porque, desde a última candidatura, o Chega não conseguiu ancorar-se, não conseguiu ainda que crescesse dentro do partido uma figura com capital político tão alto como o de André Ventura. Não há ninguém que o possa substituir com sucesso numa eleição importante como esta. Fora do partido, o Chega está com grandes dificuldades em ter capacidade de cooptar pessoas de nível que aceitem eventualmente uma candidatura apoiada pelo partido. Era já difícil antes dos escândalos a envolver Miguel Arruda (no caso das malas) e do responsável da distrital de Lisboa (no caso de prostituição de menores). Depois desses escândalos, ainda é mais difícil. Não há ninguém, neste momento, que se queira aproximar do Chega.

Aliás, penso que se deve a isso o facto de André Ventura ter adiado o lançamento oficial da candidatura que estava previsto que fosse esta sexta-feira nos Jerónimos. Vai ser só a divulgação de um vídeo criado pelo partido e depois só em maio é que irão fazer o lançamento. Este adiamento do lançamento oficial será para deixar acalmar as polémicas à volta do Chega e encontrar um momento mais oportuno. Mas Ventura não podia não apresentar-se às presidenciais. Os outros candidatos não são minimamente interessantes para o Chega, nem o Gouveia e Melo, nem os outros candidatos, principalmente Marques Mendes.

E o próprio Gouveia e Melo foi dando sinais de que não queria ser apoiado por André Ventura.  

Exatamente. Não queria. Mais, a única declaração política que temos até agora de Gouveia e Melo é o seu posicionamento naquela área cinzenta entre PS e PSD, ou seja, aquele centrismo que é exatamente o oposto da lógica do Chega. O Chega, apesar de tudo, quer assumir uma identidade de direita, e não [quer] um candidato ao centro catch all, tentando apanhar tudo e mais alguma coisa. E os outros candidatos, inclusive o Marques Mendes, tudo fizeram para rebaixar o Chega, numa estratégia legítima de anti-populismo. Marques Mendes é daquelas figuras muito identificadas com o regime que alegadamente o Chega combate. Não fazia sentido apoiar um candidato deste tipo. Encontraram-se na necessidade de apresentar Ventura como candidato. Repito, é o único que tem alguma hipótese.

Hipótese inclusive de passar à segunda volta?

Estamos ainda a muito tempo e, portanto, não podemos fazer grandes previsões. Mas acho que André Ventura pensa legitimamente num cenário interessante que seria aquilo passar a uma segunda volta das presidenciais. Nas últimas, ficou em terceiro lugar, depois da Ana Gomes. Naquela altura, a personagem André Ventura ainda não estava construída a 360 graus. Neste momento, está quase 100% do seu potencial. Perante os candidatos que conhecemos até agora, André Ventura pode pensar numa segunda volta, o que teria um bocado o efeito que teve Jean-Marie Le Pen, ainda no princípio do século, quando teve aquele golpe de sorte de conseguir passar à segunda volta [contra Jacques Chirac]. Em termos de imagem a nível internacional e de impacto na política francesa foi muito forte. E o mesmo pode acontecer em Portugal. Há hipótese neste momento de conseguir passar à segunda volta. Depois, seria fuzilado com uma rejeição de 80 e tal por cento de votos. O próprio sabe disso. Não há hipótese nenhuma de ser um candidato viável para a Presidência da República. Mas uma segunda volta, apesar de ser rejeitado por 85% depois dos eleitores, vai ser uma um sucesso importante.

Pode dar-lhe um slogan para traçar caminho até às próximas legislativas?

Vai ser importante, em primeiro lugar, porque fortalece imenso a nível internacional a figura de André Ventura. E André Ventura é muito sensível a isso. A sua projeção pessoal como líder como um dos protagonistas desta onda de direita radical no Ocidente todo seria fortalecida. Ao nível das eleições legislativas, tenho mais de dúvidas porque, mesmo que passe à segunda volta, vai ser muito difícil segurar aquele milhão e 300 mil eleitores das últimas legislativas. Os 18% que conquistaram é já um nível muito alto.  E com os casos que se vão sucedendo no partido, muitos daqueles eleitores podem ficar de pé atrás nas próximas legislativas. O eleitorado fica mais desconfortável com estes casos e casinhos que estão a vir a público.

Vê alguns riscos nesta candidatura de Ventura a Belém?

Tenho a perceção que o Chega continua ainda bastante vulnerável em termos de escândalos. Ou seja, deve haver mais pessoas, inclusive dentro do grupo parlamentar, que podem ser objeto de escândalos por terem telhados de vidro Não creio que o André Ventura os tenha. Seria um kamikaze ter telhados de vidro e ir à frente com uma candidatura como está a fazer. Candidatando-se a Presidente da República tem tudo a ganhar. Francamente. Mesmo que não consiga passar à segunda volta, vai a ter um resultado interessante. Em 2021 teve cerca de 495 mil votos. Um resultado abaixo disso seria uma derrota chata, mas duvido que aconteça. Apesar de tudo, nas legislativas tiveram 1.300.000 e a imagem pessoal de Ventura cresceu. Não estou a ver pontos negativos de uma candidatura para ele pessoalmente.

E para o partido?

Para o partido revela um ponto de fragilidade. Se agora, em 2025, tivesse a possibilidade de candidatar uma outra pessoa com capital político igual a André Ventura ou uma pessoa externa ao partido com capital político e social importante, demonstrava que tinha amadurecido. O partido demonstra ainda não ter uma estrutura tão forte e tão madura para poder apresentar alternativas a André Ventura.

Ainda está a enfrentar as dores de crescimento?

Francamente, acho que já não. Isto é mesmo resultado de uma gestão do partido escolhida como foi escolhida, ainda muito controlada, muito centralista, muito centralizada à volta do núcleo de fiéis do André Ventura, isso tem uma consequência: dificulta a cooptação de outras pessoas independentes e o crescimento de independentes dentro do partido. A agravar a situação todos os escândalos que surgiram. Torna-se de facto complicado. Já não é do crescimento natural de um partido, é consequência de escolhas de gestão do mesmo.

E André Ventura agora vai avançar para esta candidatura atirando para trás os escândalos, esperando que não surjam outros.

André Ventura tem as capacidades e características ótimas para concorrer a eleições presidenciais. Porque dos candidatos que surgiram até agora, mais uma vez, André Ventura é o único com perfil anti-sistema. Podem surgir outros, mas até agora todos os candidatos pertencem ao chamado sistema: António Vitorino ou Marques Mendes, mesmo a hipótese Paulo Portas. O próprio Almirante Gouveia e Melo não tem uma candidatura de rutura com o sistema, muito pelo contrário. Portanto, André Ventura tem todas as características para capitalizar ao máximo essa ideia e dizer que é a única voz contra a podridão, que é o único que está contra o status quo. Tem as capacidades que lhe conhecemos de ir à luta com uma dialéctica nos debates muito boa. É uma vantagem para ele.

Quanto ao adiamento da cerimónia de lançamento da candidatura, o JE soube que André Ventura não tinha reservado o espaço como seria necessário fazer.

Pareceu-me estranho. Se fosse o momento alto para lançar uma candidatura, havendo um problema em fazer nos Jerónimos, escolheria outro sítio. Fiquei um bocado surpreendido quando soube que queriam fazer o lançamento agora. Primeiro, estamos muito longe ainda dessa das presidenciais. Segundo, estamos ainda numa fase complicada devido aos escândalos. Terceiro, a estratégia da moção de censura e de pedido de uma comissão de inquérito contra o Montenegro para tentar recuperar pontos perante a opinião pública, não deu aí grande resultado, a opinião pública não se mobilizou. Não fazia muito sentido gastar um cartucho importante como o lançamento de uma candidatura numa fase como esta. Percebo perfeitamente que adiem para maio para ver se a situação acalma. O lançamento da candidatura é um cartucho importante para alguém que pode aparecer, mais uma vez, como o único desafiador do sistema, replicando aquilo que foi a campanha de 2021.

A imagem de Ventura não sai desgastada das polémicas?

Os vários escândalos podem ter efeito na imagem do partido, mas não têm efeito na imagem do líder. Isto acontece também em outros partidos congéneres na Europa fora, quando o líder não é afetado diretamente pelo escândalo.

E André Ventura tenta virar as polémicas a seu favor, pela forma como reage a elas.

Pelo menos conseguiu não ficar abananado. Reagiu bem. Os escândalos podem ter enfraquecido o partido, mas não enfraqueceram a imagem do André Ventura. Vai às Presidenciais com a sua imagem, creio eu, intocada. Continua forte como era antes.

 

 

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