‘Diálogo sobre Governança Global e Prosperidade Partilhada na Ásia-Pacífico’. Não é o mote do encontro do grupo Cooperação Económica Ásia-Pacífico (APEC), mas é a agenda que a China quer impor aos seus parceiros como forma de combater a incerteza e a imprevisibilidade. Num contexto em que o encontro previsto entre os presidentes das duas maiores economias do mundo, Donald Trump e Xi Jinping, marca a cimeira deste ano, a China fez o ‘trabalho de casa’ e chega à Coreia do Sul com um figurino bem estudado.
Ren Hongbin, presidente do Conselho Chinês para a Promoção do Comércio Internacional, disse dias antes do início da cimeira que os interesses dos países estão cada vez mais interligados, exigindo uma governação partilhada mais forte, com a cooperação e o benefício mútuo como pontos essenciais. E observou que a Iniciativa de Governança Global (GGI) da China oferece soluções para um sistema global mais justo.
Do seu lado, Tengku Zafrul Aziz, ministro do Investimento, Comércio e Indústria da Malásia, enfatizou que as regras, a confiança e a inclusão sustentam o crescimento de todas as nações. Ruben Oyarzo, membro da Câmara dos Deputados do Chile, afirmou o compromisso do seu país com o desenvolvimento da Ásia-Pacífico e a criação da confiança mútua. Yoon Dong-sup, presidente da Yonsei University, acrescentou que a abordagem de mudanças climáticas, a inovação, o envelhecimento das populações e a incerteza económica depende do diálogo, da cooperação e do planeamento coletivo para um futuro sustentável. Todas estas declarações foram deixadas num encontro organizado para servir de ‘rampa de lançamento’ da reunião do APEC.
Todos os participantes concordaram que, no quadro da frágil economia global atual, a cooperação, a confiança, a transparência e a inovação são fundamentais para sustentar o crescimento da Ásia-Pacífico. David Perez Des Rosiers, do Conselho Empresarial Canadá China, considerou a APEC uma plataforma vital para oportunidades regionais. Gaston Chee, da Câmara de Comércio da Malásia na China, enfatizou a transparência do combate às crescentes barreiras comerciais, enquanto Chung Suh-Yong, da Academia de Direito Internacional de Seul, insistiu que a criar parcerias abertas e inclusivas que estabilizem os interesses e as diferenças comuns é o caminho certo.
Donald Trump reuniu-se com o presidente da Coreia do Sul, Lee Jae-myung, esta quarta-feira, naquela que é a última etapa da sua digressão pela Ásia, numa altura em que procura chegar a um acordo comercial com Seul que parece difícil de alcançar. Trump sugeriu uma abordagem mais conciliatória que a sua habitual postura de confronto: “os melhores acordos são aqueles que funcionam para todos”, afirmou, para elogiar a “relação muito especial” entre os dois países. Mas a exigência de Trump de que a Coreia do Sul invista 350 mil milhões de dólares nos Estados continua a ser o principal obstáculo a um acordo.
O presidente dos Estados Unidos irá agora para Gyeongju, a cidade histórica que acolhe a cimeira anual da APEC. Criada em 1989 como um fórum de 12 Estados-membros para promover o comércio livre e a cooperação económica, a APEC tem agora 21 membros: Austrália, Brunei, Canadá, Estados Unidos, Indonésia, Japão, Coreia do Sul, Malásia, Nova Zelândia, Filipinas, Singapura, Tailândia, Taiwan, Hong Kong, China, México, Papua Nova-Guiné, Chile, Peru, Rússia e Vietname. Os membros têm um peso coletivo significativo, representando 37% da população mundial e mais de metade do comércio mundial de mercadorias em 2024, de acordo com dados do governo sul-coreano.
Um encontro para a história
Enquanto Seul tenta chegar a um acordo com os Estados Unidos, Trump deverá realizar uma reunião esta quinta-feira com o líder chinês Xi Jinping, que será objeto de grande atenção. Nos últimos meses, Trump e Xi têm estado envolvidos numa escalada da guerra comercial, com Washington a impor tarifas elevadas e controlos tecnológicos mais rigorosos e a China a retaliar com restrições às exportações de terras raras.
Nos últimos dias, um encontro de alto nível – mas não ainda de presidentes – entre os dois países resultou na existência de uma espécie de pré-acordo que, segundo os analistas, deve agora ser fechado e anunciado pelos dois líderes. Mas, enquanto o lado norte-americano falou abundantemente sobre o que deverá constar do acordo, o lado chinês foi muito contido.
Segundo os analistas, o acordo suspenderá tarifas norte-americanas mais rígidas – que a administração Trump disse que poderiam chegar aos 100% – e fará uma gestão mais ‘amigável’ do controlo das exportações de terras raras chinesas. O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, disse recentemente que as negociações eliminaram a ameaça de imposição de tarifas de 100% por parte dos Estados Unidos e convenceram a China a adiar a implementação do regime de licenciamento de terras raras.
“Acredito que temos uma estrutura muito bem-sucedida para os líderes discutirem”, disse Bessent depois de, juntamente com o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, se encontrar com o vice-primeiro-ministro chinês, He Lifeng, e o principal negociador comercial, Li Chenggang. Bessent disse que prevê que a trégua tarifária com a China será estendida e que a China retomará compras substanciais de soja dos Estados Unidos.
Li Chenggang disse que os dois lados chegaram a um “consenso preliminar” e que em seguida passarão pelos respetivos processos internos de aprovação. “A posição dos Estados Unidos tem sido dura”, disse. “Temos tido consultas muito intensas, mas construtivas na exploração de soluções para abordar as preocupações” comuns.
Ambos os lados concordaram que, sob a orientação estratégica dos dois chefes de Estado, farão uso total do mecanismo de consulta económica e comercial China-EUA, manterão comunicação próxima sobre as respectivas preocupações nos campos económico e comercial e promoverão o desenvolvimento saudável, estável e sustentável das relações económicas e comerciais para beneficiar os dois povos e contribuir para a prosperidade global, refere uma nota publicada pela agência chinesa Xinhua.
Segundo a mesma fonte, a China está disposta a manter comunicação e coordenação estreitas com Singapura dentro de mecanismos multilaterais, trabalhar em conjunto para defender o multilateralismo e o livre comércio “e promover um mundo multipolar igualitário e ordenado, bem como uma globalização económica universalmente benéfica e inclusiva”, disse Li Qiang, o primeiro-ministro chinês. Observando que o mundo entrou num novo período de turbulência e transformação, Li Qiang afirmou que a China e Singapura, como vizinhos e parceiros, devem fortalecer a unidade e a cooperação. Mais empresas de Singapura são bem-vindas para explorarem o vasto mercado chinês e as oportunidades de desenvolvimento desse intercâmbio, disse Li Qiang, acrescentando que ambos os lados devem aumentar a troca de experiências de desenvolvimento e aprofundar a cooperação.
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