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“Viena é a minha cidade, Portugal o meu país”

Se fosse dado a cartões de visita, teria gravado “compositor”. Tudo o mais vem em segundo lugar. Sendo que esse “tudo o mais” não é nada despiciendo. Maestro, pianista, escritor, ator, realizador, professor. António Victorino D’Almeida é tudo isso e uma mão-cheia de boa disposição. Mente criativa e fervilhante, também deixou a sua marca na televisão e na rádio. Recebeu o JE na sua casa e reservou-nos uma surpresa muito especial.
10 Janeiro 2026, 14h48

Escrever sobre alguém que dispensa apresentações é um desafio tremendo. O riso é franco e contagia. O sentido de humor, desconcertante e propenso a metáforas, marcou presença, claro. Como nesta tirada, algures quando a conversa já rolava porta dentro até ao segundo piano. “Foi violado pelo KGB”! Suspense. Uma gargalhada. E já estamos de novo no universo onírico de António Victorino D’Almeida. Ser extraordinário e talento precoce – aos cinco anos compôs a sua primeira obra e aos sete deu o primeiro recital, interpretando obras de Mozart e Beethoven. Além de duas peças da sua autoria.

Concluiu o Curso Superior de Piano no Conservatório Nacional de Lisboa com 19 valores e se, na sua imaginação, se via a viver em Paris e a prosseguir a sua formação na capital francesa, o maestro Silva Pereira entendeu ser outro o seu destino. Essa “imposição”, por assim dizer, revelou-lhe uma geografia que se tornou a sua “casa”. Viena de Áustria, onde estudou composição na Academia de Música, com uma bolsa de estudo do Instituto de Alta Cultura. Aí viveu duas décadas que o marcaram para todo o sempre. Foi condecorado por dois presidentes austríacos pela sua obra. Terminou a Academia com a mais alta distinção que a mesma alguma vez concedeu. Foi adido cultural da Embaixada portuguesa em Viena durante sete anos. E devorou música, escutou as melhores orquestras, mergulhou na géstica dos grandes maestros, desbravou a ópera.

É sabido que respira música e a coloca sempre em primeiro lugar, como paixão e vocação. Só depois se decompõe nas suas diversas facetas. Como compositor, maestro, pianista, escritor, produtor, realizador, ator, professor (na sua saudosa Viena de Áustria e também por cá) e até desenhador.

Filho único, o ambiente familiar desde cedo lhe propor- cionou achas para a fogueira da criatividade. O avô paterno, Achilles d’Almeida, era músico amador, poeta, autor e encenador de peças de teatro. A mãe, Maria Amélia Goulart de Medeiros – nascida no seio de uma família da alta burguesia, com raízes na aristocracia açoriana – recebeu formação como cantora lírica. O pai, o advogado Victorino d’Almeida – “que não era desprovido de musicalidade”, diz – sempre o incentivou a desenvolver o seu gosto pela música.

O que podemos então dizer que não tenha ainda sido dito sobre este ser criativo? Que teve a generosidade de nos receber em sua casa com a bonomia que lhe é caraterística. Rodeado de estantes com CD, pautas de música em viagem para outras caixas (esse labor hercúleo que é arquivar sem deixar morrer), o piano onde aprendeu a tocar e que partilhava em pequeno com a sua mãe e que agora está morto. “Sim, não sei se sabe, mas os pianos também morrem! Quando a madeira por baixo do teclado racha, não volta à vida”. Há outro piano morto em casa pequena gaveta de memórias, qual contador indo-português. Não há compartimentos secretos, mas ramificações mil. Batuta e Sakk, a boxer e o beagle que partilham o seu espaço e afetos, fazem-se ouvir. Querem estar presentes. “Ele é o general”, graceja Victorino D’Almeida. “Mas é melhor ficarem lá dentro”. Iam disputar as atenções.

Os arrebatamentos e as palmas

Falamos sobre a sua relação com a música. Racional ou emocional? “Também é emocional. Vamos lá ver… Eu emociono-me sempre, por exemplo, com o Bolero de Ravel.” Recentemente, houve alguma interpretação que o arrebatasse em particular?

Ficou pensativo e, após um breve instante, respondeu. “Ouvi uma grande interpre- tação, quase gigantesca, de uma sinfonia dos Alpes do Richard Strauss, com uma orquestra gigantesca, tudo a dobrar. Em vez de 8 trompas tinha 16. Era tudo a dobrar! Muito bom. E tinha razão de ser, porque a Sinfonia dos Alpes é sobre os Alpes, e os Alpes já em si são… gigantescos!” Risos. Confessa que desde que a mulher morreu passou a ouvir música no Mezzo, à noite, quando se vai deitar. Subitamente, diz que foi “uma maldade boa, uma maldade incrível”.

Recorda a interpretação de “Claire de Lune”, de Debussy, por Maria João Pires. Logo a seguir à majestosidade da Sinfonia dos Alpes. “Fiquei indignadíssimo”, dispara. “Parece impossível. Isto não se faz! Depois de uma orquestra de 200 e tal músicos vem a Maria João, toda contida… Isto não se faz. Quer dizer, foi uma maldade incrível, porque ampliou a sensibilidade dela de uma tal forma… Que pianista!” E confessa. “A safada… dois minutos depois, eu estava a chorar.” Os olhos risonhos e o sorriso rasgado acompanham a nova tirada. “E agora faço uma coisa. Quando gosto especialmente da interpretação… bato palmas”.

A improvisação é uma aventura

O entusiasmo pelo que gosta invade-o. Daí a provocação: o Maestro leva a improvisação a sério? Resposta pronta. “Eu gosto muito de improvisar. A improvi- sação é uma aventura. Mas gosto especialmente de fazer isso em público”. Falamos de cúmplices nesse gosto, caso de Mário Laginha. Apesar de encararem essa ‘aventura’ de forma distinta, Victorino D’Almeida gosta muito de o ter como partenaire. A última vez que isso aconteceu foi no Coliseu do Porto. “E o Coliseu cheio é uma grande responsabili- dade. Sinceramente, se desse para o torto, era chato. Por outro lado, era aliciante… poder pisar esse risco.” A possibilidade de transgressão alimenta-lhe a alma. “O Mário telefonou-me uns dois dias antes para combinar encontrarmo-nos na véspera, para decidirmos alguma coisa.

Então, marcámos no estúdio de um afinador de pianos, porque a coisa ia ser a dois pianos. Ele olhou para o piano e não lhe saía nada. E eu disse-lhe: «Há uma coisa que eu tenho a certeza absoluta. Se ensaiarmos aqui, no dia do concerto, acabado o concerto, vamos dizer: «no estúdio foi melhor».” A dúvida aqui nem por sombras se coloca. “A improvisação é o contrário da peça estudada. A peça estudada, quanto mais estudada, melhor. A improvisação, se sair bem, não se consegue repetir. É impossível.”

Um desses momentos, desta vez a solo, na Casa da Música, está registado em CD. Uma hora e três minutos de improvisação. Assim, de rajada, sem intervalo. Nos dias anteriores, estudou Beethoven, Chopin e Schumann para “ter bons dedos”. Ou seja, para voarem sobre as teclas do piano.

A sua vasta obra como compositor advém precisamente desses dedos e feérica criatividade. Da ópera à música sinfónica e de câmara, para além de música para cinema e teatro, só para piano já são mais de uma centena de peças. A mais recente é uma canção. Terminou-a três dias antes desta conversa com o JE e diz que só pode revelar isto: “É uma encomenda para uma canção de homenagem à minha querida irmã Natália Correia”. O silêncio caiu abrupto. O Maestro manteve uma expressão divertida perante o espanto da escriba. Sendo filho único, quem sabe foi ‘adotado’ por Natália Correia… [risos] “A Natália inventou-me três irmãs. A mais velha era ela. A do meio era a Maria do Céu Guerra e a mais nova a Olga Prats”. Está explicado. Mas não podia ficar por aí.

É sabido que o Maestro está sempre envolvido em algum projeto, pelo que falemos do que está para vir. “Todos os compositores portugueses, todos, velhos, novos, potenciais, temos música para estrear. Eu tenho o terceiro concerto, um concerto de piano e orquestra. Tenho três sinfonias que nunca foram estreadas. Mas foram encomendadas e pagas.” Seja como for, nem tudo está em ‘suspenso’. Em setembro, estreou no Porto a ópera «O Auto dos Zarolhos – Ópera Buffa com um só olho» que, mais do que uma ópera buffa onde se reúnem cantores e marionetas, é uma celebração satírica e poética dos 500 anos do nascimento de Luís Vaz de Camões.

Se sempre foi cáustico sobre a capital portuguesa em matéria de música – opinião que mantém com toda a firmeza, sintetizada na sua frase lapidar “Viena é a minha cidade, Portugal o meu país” –, o mesmo não acontece em relação aos músicos portugueses. “Em Portugal está-se a passar um fenómeno ótimo. Temos excelentes músicos! Não sei quem é que os ensina. Só sei que eles são bons e que se batem.” É verdade que estão todos fora do país, reconhece. Mas não lhes nega os merecidos encómios. “São fantásticos! E até vêm cá. Se os convidarem. Tocam, cantam… sempre que os chamarem. E lhes pagarem, claro.” [sorriso] E prossegue.

“Em Hamburgo, do naipe de trombones, três são portugueses. A harpista que tocou nessa ópera que eu estreei é a primeira harpista da Orquestra Sinfónica de Viena. Outra harpista que está no São Carlos, novíssima, é a harpista principal da Orquestra de Veneza.” E recorda o panorama de há 40 anos. Nessa altura, “ para falar em harpa dizia-se ‘Carmen’, porque havia só uma harpista que era a Carmen.” [risos] “Então, quem vai tocar? Temos uma flauta, duas melodias e a Carmen. Em quarenta e poucos anos, explodimos a esse nível”, exclama.

E a Cultura, com maiúscula? “Podia ajudar a melhorar as coisas, mas não ajuda.” E deixa a ressalva. “Não se deve confundir Portugal com Lisboa. Lisboa não presta para nada. Lisboa é o pior que há. Portugal não é assim. Em Portugal, em pequenas cidades, passam-se coisas que nem se sonha!”. Pedimos um singelo exemplo. “Fui dar um concerto no Festival de Bragança e, no balcão do hotel, estava o programa. Qual não é o meu espanto quando vejo a Orquestra de Paris… Em Paris há várias orquestras, mas era Orquestra Sinfónica! Depois comecei a ver quartetos… Coisas assim… Coisas boas… E a Orquestra de Veneza que ia tocar praticamente o Vivaldi todo!” Da cultura à política, o Maestro encerra a questão rapidamente. “Estão-se a passar coisas muito feias. A forma como se está a falar… Os ministros… Erros de gramática horrorosos…!”. Disse isto quando franqueava a entrada do espaço mais secreto e íntimo da sua casa. Jornalista e fotógrafa seguiram o Maestro. Antes de acesa a luz, nada antecipava a imensa plateia que ali encontrámos.

A luz acende-se e…

Sim, serão umas largas centenas… de peluches. De todos os tamanhos, cores e formas. As estantes que forram a divisão estão literalmente recheadas destes seres silenciosos, a maior parte dos quais – pelo menos os que ocupam a ‘primeira fila’ – voltados para o piano onde Victorino D’Almeida compõe as suas peças. Saber que o Maestro tem esta faceta de colecionador não atenuou a surpresa, mas permitiu perguntar pelo seu eleito, o João Francisco. O Maestro estendeu prontamente o braço e retirou de uma prateleira o referido peluche. Gesto certeiro e sem hesitações. Eis o primeiríssimo e querido companheiro de viagem. Com umas quantas mazelas, é certo. “Foi violado por um agente do KGB”, diz, inesperadamente. Quem sabe lendo o pensamento de quem observava a pobre criatura descosida, rematou: “Num comboio a caminho de Moscovo”.

Entre risos, refere que esta é “uma fotografia rara”. Ele em diálogo com esta inesperada plateia. A fotógrafa dispara, encantada com a oportunidade. Gesto generoso. Agradecemos. E deleitamo-nos com as ‘tropelias’ destes peluches, experimentando em discurso direto a criatividade deste homem que também adora escrever. Incentivado desde cedo pelos professores de Português e Literatura que o marcaram e não desistiram de o conquistar para ela. A escrita.

Falamos de Jorge Borges Macedo e António José Saraiva. No frenesi das novidades literárias, regressar a livros de outros tempos é tão empolgante como gratificante, dada a poderosa imaginação de António Victorino D’Almeida. Da ficção e ensaio à autobiografia. De “Coca-Cola Killer”, “Histórias de Lamento e Regozijo” ou “Tubarão 2000”, passando por “Portugal Definitivo”, “O Meu Livro de Música”, “Ao Princípio Era Eu”.

Sem esquecer “Os Devoradores de Livros”, escrito com refinada ironia e um sentido de humor único. Não resistimos, por isso, a deixar uma espécie de teaser para este último.

“Cena 1: Para o filósofo era apenas mais um serão de Inverno à volta da lareira.

Conheceu um poeta e ficaram amigos. Cresceu uma admiração mútua, os livros e as palavras uniam-nos, e quando todos julgavam que finalmente o rapaz louco que vivia momentos cor-de-rosa havia mudado, algo de muito estranho começa a acontecer na biblioteca da família…

Cena 2: Quando três homens entram e saem de várias salas, sobem e descem escadas, quem sabe do que estarão à procura. Ou, melhor ainda, o que poderão encontrar? A criança que nasceu com duas cabeças, um pardal ou uma borboleta azul?

Cena 3: Depois de um espectáculo de ilusionismo, aquela mulher que toda a vida adorara a arte de iludir decidiu nunca mais acreditar em números de magia.

Cena 4: Na Pensão Manjerico, o homem acordou determinado a surpreender a vida. Quando pensava que nada de diferente podia acontecer, a noite caiu, e percebeu então porque nesse dia tinha acordado tão decidido.”

Não tem nenhum livro planeado para os próximos tempos. Mas a escrita brota quando menos espera. Antes disso nascerá, muito provavel- mente, uma nova sinfonia. E, quiçá, um novo filme. Se não o convidarem entretanto para vestir a pele de ator. Certo é que, aos 85 anos, Victorino D’Almeida mantém um enorme prazer de viver e criar. E de musicar o mundo.


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