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Desinformação associada às presidenciais atinge níveis elevados

A desinformação associada às presidenciais somou, na primeira volta, mais de 8,3 milhões visualizações nas redes sociais segundo o LabCom — Laboratório de Comunicação da UBI.
Eleitores votam para a Câmara Municipal de Lisboa nas eleições autárquicas 2025, numa escola de Benfica, em Lisboa, 12 de outubro de 2025. Decorrem este domingo as eleições autárquicas em Portugal onde mais de 9,3 milhões de eleitores podem votar. Os eleitores vão escolher os órgãos dirigentes das 308 Câmaras Municipais, 308 Assembleias Municipais e 3.221 Assembleias de Freguesia, pelo que há três boletins de voto. ANTÓNIO COTRIM/LUSA
20 Janeiro 2026, 07h00

A desinformação associada às presidenciais somou, na primeira volta, mais de 8,3 milhões visualizações nas redes sociais e André Ventura concentrou 82,4% dos casos, segundo o LabCom — Laboratório de Comunicação da Universidade da Beira Interior (UBI). O estudo do LabCom, realizado no âmbito do ODEPOL — Observatório de Desinformação Política, e citado pela agência Lusa, monitorizou a desinformação relacionada com a presença digital dos pré-candidatos e candidatos nas redes com maior expressão em Portugal (Facebook, Instagram, X, TikTok, Threads e Youtube) e começou a ser elaborado em 17 de novembro de 2025, dia do primeiro frente a frente na televisão entre André Ventura e António José Seguro.

Os conteúdos desinformativos atingiram, no total, segundo os investigadores, 8.392.713 visualizações nas redes sociais (todas as vezes que o conteúdo aparece aos utilizadores, incluindo repetições), e geraram 347.228 reações, 64.151 comentários e 27.178 partilhas.

Na pré-campanha e campanha da primeira volta das presidenciais foram identificados 17 casos de desinformação e André Ventura, segundo candidato mais votado, foi responsável por 82,4% dos casos identificados, enquanto os restantes foram de pré-candidatos que não foram aceites pelo Tribunal Constitucional (TC) e André Pestana (5,9%). O vídeo foi o formato preferencial para a desinformação, tendo sido utilizado em 70,6% dos casos, comparando com as fotografias, com 29,4%.

Por tipo de desinformação, divide-se entre a descredibilização dos media e dos jornalistas (41,2%), seguida de conteúdo manipulado (23,5%), sondagem de empresa não registada na ERC e sem metodologia tornada pública (17,6%), conteúdo enganoso (5,9%), falsificação de informação (5,9%) e uso de contexto falso (5,9%).

A maioria dos casos foi identificada nas redes sociais da Meta, tendo a partilha de desinformação ocorrido de forma simultânea em 100% dos casos no Facebook e 94,1% no Instagram. O X concentrou 82,4% das ocorrências, enquanto o Threads registou 29,4% e o TikTok, 17,6%.

Dos 17 casos detetados, quatro (23,5%) envolveram a utilização de Inteligência Artificial (IA), nomeadamente sobre a divulgação de intenções de voto, por André Ventura, geradas por empresas de análise política com recurso a algoritmos de previsão eleitoral.

O único caso de utilização direta envolveu André Pestana, que recorreu à IA para criar imagens hiper-realistas que simulavam André Ventura com expressões de raiva e a fazer uma saudação nazi.

O líder do Chega é o autor de todos os casos de desinformação com maior impacto, tendo a publicação mais visualizada 2.083.040 de visualizações. Realizada no dia 26 de novembro de 2025, a publicação remetia para um caso documentado em 2018 pela organização PETA (sigla em inglês de People for the Ethical Treatment of Animals), relativa a maus-tratos a animais utilizados no transporte de turistas no Egito. No vídeo partilhado por André Ventura, o candidato responsabiliza a comunidade cigana pelos maus-tratos, acrescentando uma legenda que questiona se os partidos portugueses à esquerda ficarão “em silêncio por ser esta comunidade”.

António José Seguro e André Ventura vão disputar a segunda volta das eleições presidenciais, em 08 de fevereiro, depois de, no domingo, o candidato apoiado pelo PS ter conquistado 31% dos votos e Ventura, líder do Chega, obtido 23%.

Em terceiro lugar ficou Cotrim Figueiredo, apoiado pela Iniciativa Liberal, com 16,%, à frente de Gouveia e Melo, com 12%, e de Marques Mendes, apoiado pelo PSD e CDS, com 11%.

À esquerda, Catarina Martins (BE) teve 2%, António Filipe (PCP) teve, 1,6% e Jorge Pinto (Livre) 0,6%, que ficou abaixo do cantor Manuel João Vieira que conseguiu 1%. O sindicalista André Pestana recolheu 0,2% e Humberto Correia 0,08%.

 

Península Ibérica atacada

Portugal, a par de Espanha, tem vindo a registar um aumento significativo da desinformação eleitoral. Sobretudo nas eleições legislativas, sendo os partidos de extrema-direita, como o Chega, são as principais fontes. A desinformação visa sobretudo candidatos políticos, sistemas eleitorais e propostas políticas específicas, com táticas comuns que incluem imagens falsas, vídeos manipulados e sondagens enganosas. A conclusão é de um relatório da SmartVote, uma plataforma online que estuda e combate o fenómeno.

“Tanto Espanha como Portugal assistiram a um aumento da desinformação eleitoral, particularmente durante as eleições legislativas, com as redes sociais a desempenharem um papel central na disseminação de conteúdos falsos”, refere a SmartVote, que também estuda a desinformação na União Europeia (UE).

Assim, são identificados como temas-chave da desinformação a fraude eleitoral, corrupção e imigração. Sendo que os partidos de extrema-direita em ambos os países, particularmente o Chega em Portugal e o Vox em Espanha, são as principais fontes. Os alvos são sobretudo os candidatos políticos, os sistemas eleitorais e propostas políticas específicas, usando-se táticas como imagens falsas, vídeos manipulados e sondagens enganosas.

O trabalho indica que “enquanto Espanha enfrenta uma maior polarização política e uma reposta institucional mais forte à desinformação, Portugal continua a ser menos polarizado, mas cada vez mais exposto à instabilidade política e à desinformação digital, com abordagens regulatórias mais suaves”.

 

O caso extremo da Roménia

O Tribunal Constitucional da Roménia anulou o resultado da primeira volta das eleições presidenciais que tiveram lugar em novembro de 2014. A anulação surgiu poucos dias antes da realização da segunda volta e fez o processo regressar à estaca zero. A primeira volta tinha sido ganha por Calin Georgescu, candidato de direita radical quase desconhecido, cético em relação à NATO e que elogiava o presidente russo, Vladimir Putin. A decisão do tribunal foi tomada depois da divulgação de documentos de inteligência sugerindo que Georgescu beneficiou de uma operação de influência em massa conduzida a partir do exterior para interferir no resultado da eleição.

O governo de então, liderado por Marcel Ciolacu, disse que a decisão do tribunal de anular as eleições era “a única solução correta após a retirada do sigilo dos documentos que mostram que o resultado da votação dos romenos foi descaradamente distorcido como resultado da intervenção da Rússia”. Mesmo assim, o governo não se livrou de severas críticas – vindas algumas delas do exterior do país – segundo as quais a Roménia abriu um precedente perigoso: a anulação, com a necessária ‘desculpa’ da Rússia, passa a ser aceitável nos países democráticos.

 

Outros casos na Europa

As eleições norte-americanas em que Donald Trump derrotou a democrata Hillary Clinton terão sido as primeiras onde a Rússia foi acusada de interferência por via cibernética. De então para cá, não há nenhuma eleição que, a acreditar nos técnicos, não seja alvo de, de forma mais ou menos severa, desinformação.

Para além do caso extremo da Roménia, a presidente da Moldávia, Maia Sandu denunciou uma “interferência sem precedentes” por parte da Rússia, incluindo redes de compra de votos e campanhas de desinformação baseadas em IA para tentar travar a adesão do país à União Europeia – adesão essa que iria ser alvo de um referendo.

Também na Alemanha, nas eleições gerais de 2025, o governo acusou a Rússia de operar campanhas de propaganda (ligadas ao grupo Storm 1516) através da disseminação de vídeos falsos nas redes sociais, incluindo manipulação de cédulas de votação do partido de extrema-direita AfD (Alternativa para a Alemanha).

Na Eslováquia e na Polónia, as campanhas eleitorais de 2023 foram afetadas pela disseminação de gravações falsas geradas por inteligência artificial.


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