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Microsoft perde um PIB português num único dia

Bons resultados foram insuficientes. Os investidores penalizaram a gigante tecnológica pelo arrefecimento do crescimento na IA, que continua a consumir cada vez mais investimento. E pode ser um alerta.
30 Janeiro 2026, 07h02

No quarto trimestre fiscal, encerrado no final de dezembro, a Microsoft registou receitas de 81,3 mil milhões de dólares (cerca de 74,8 mil milhões de euros), acima do consenso dos analistas, e um lucro por ação ajustado de 4,14 dólares. A área de Microsoft Cloud, a computação em nuvem, voltou a ser o principal motor, com mais de 50 mil milhões de dólares (41,7 mil milhões de euros) de faturação no trimestre, enquanto o Azure cresceu cerca de 39% em termos homólogos.
No conjunto do ano fiscal, a empresa reportou receitas de 281,7 mil milhões de dólares (235,4 mil milhões de euros) e um lucro superior a 100 mil milhões de dólares (83,5 mil milhões de euros), confirmando um crescimento a dois dígitos tanto no volume de negócios como nos resultados.
Do ponto de vista estritamente contabilístico, a Microsoft continua a apresentar um desempenho que muitas empresas apenas podem ambicionar. São números robustos, difíceis de contestar num contexto macroeconómico ainda marcado por taxas de juro elevadas e maior seletividade no investimento, que superaram as expectativas, mas insuficientes para satisfazer os investidores, que têm mostrado um nervosismo crescente com o que as grandes tecnológicas estão a investir em inteligência artificial.
O mercado reagiu de forma violenta. As ações da empresa liderada por Satya Nadella chegaram a cair 12% na sessão seguinte à divulgação dos resultados, na noite de quarta-feira, 28 de janeiro, e estabilizaram, ontem, com uma queda acima de 10%.
Numa única sessão bolsista evaporaram-se mais de 360 mil milhões de dólares (cerca de 300 mil milhões de euros) de capitalização, o que quase equivale ao produto interno bruto de Portugal.
É uma das maiores quedas da cotação da empresa desde 2020.

Muito investimento,
pouco retorno
O primeiro foco das críticas está no investimento. A Microsoft revelou gastos de capital próximos de 37,5 mil milhões de dólares (31,3 mil milhões de euros) no trimestre, um aumento de cerca de 66% face ao período homólogo, sobretudo direcionados para centros de dados e infraestrutura de inteligência artificial. Para muitos analistas, o problema não é o montante em si, mas a incerteza quanto ao calendário de retorno. A leitura dominante é que a empresa está a antecipar capacidade para um crescimento futuro que ainda não se traduz em margens.
O segundo ponto prende-se com a computação em nuvem, a cloud. O crescimento do Azure, embora elevado, ficou ligeiramente abaixo do ritmo do trimestre anterior. Num setor onde as avaliações incorporam a expectativa de aceleração contínua, qualquer sinal de estabilização é interpretado como um alerta. Os investidores não penalizaram uma desaceleração abrupta, mas sim a perceção de que o pico de crescimento pode estar mais próximo do que se assumia.
Há ainda a questão da concentração de risco. Uma parte significativa do backlog de contratos de cloud está associada à OpenAI, parceira central na estratégia de inteligência artificial da Microsoft. Os analistas sublinham que esta dependência aumenta a exposição a um número reduzido de grandes clientes e torna mais difícil antecipar fluxos de receita num horizonte mais longo.
No fundo, o que o mercado está a dizer é simples: a Microsoft continua a crescer, mas já não é suficiente crescer muito — é preciso crescer mais depressa do que o cenário mais otimista previamente incorporado nos preços. A correção bolsista reflete menos uma revisão dos fundamentos atuais e mais um ajustamento das expectativas futuras.
A reação do mercado é um lembrete para todo o setor tecnológico. Num ciclo em que a IA é tratada como promessa transformacional, os investidores começam a exigir provas concretas de monetização e disciplina no capital.


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