O Grupo dos países BRICS tem desempenhado um papel determinante, no evoluir do Mundo, desde a sua constituição, quer pelo trabalho conjunto, que vem desenvolvendo, ao longo das diferentes Presidências, contra o domínio do Ocidente, quer pelo desempenho individual de cada um dos países. Na conjugação dos resultados nestas duas frentes, os BRICS ganharam preponderância, com aceitação crescente no Mundo não Ocidental. E, mesmo no Mundo Ocidental, há um despertar para esta nova realidade, com alguns movimentos de aproximação aos BRICS, de que o Fórum BRICS-Europa é um bom exemplo, designadamente, no presente contexto de maior sensibilidade à crise transatlântica.

Um dos desígnios que move os BRICS, enquanto grupo, é o imperativo da instituição de novas regras de Governação, a nível do Mundo, mais justas, de acordo com as mudanças do sistema internacional, onde o Ocidente entrou em perda de influência. Esta, a desadequação que o grupo BRICS pretende corrigir, a bem de uma maior estabilidade mundial.

Recuando na História, havia, à partida, duas vias de fixar as novas regras de Governação. Uma, procedendo/negociando a redistribuição de poder no seio das Instituições, saídas de Bretton Woods, sem grandes “mexidas” das regras de jogo, dando aos BRICS voz numa Governação mundial mais equilibrada e menos unilateral por parte do Ocidente. Outra, questionando as normas e valores ocidentais que enformam as Instituições e fazer valer o seu próprio conjunto de valores.

É esta segunda via que imperou, porque o Ocidente não deu qualquer abertura de negociação. O Ocidente não sabe, não quer, não “aprendeu” a palavra partilha. Só conhece a força, mais rude ou menos rude. Mas a força também se perde, quando o terreno entra em deslize, por culpa própria e mérito dos adversários.

O Ocidente anda a esquecer as mudanças na correlação de forças mundiais, levando os BRICS a endurecer posições e a organizar-se para introduzir outros modelos de Governação, em defesa dos seus interesses e dos da grande maioria de Países que os apoiam. O cerco ao Ocidente começou e avança a passos rápidos.

Os BRICS e a desdolarização

Os BRICS não avançaram nessa disputa de poder com instrumentos tradicionais. Concertaram entre si, sair, a prazo, da órbita do Dólar norte-americano, uma ferramenta do sistema financeiro, utlizada como arma de ataque, para destruir as economias dos países adversários, como se referiu no artigo anterior. Os novos instrumentos têm vindo a ser estudados nas várias Presidências por especialistas, grupos de trabalho e bancos centrais dos BRICS. Também não estão a avançar no sentido de uma moeda comum tradicional, tipo Euro, porque concluíram que esta coloca obstáculos de natureza técnica e política, designadamente pelas significativas diferenças existentes entre as suas economias, os alinhamentos diplomáticos diferenciados dos países membros, e, ainda mais e não menos importante, pelo respeito para com as prioridades nacionais de cada país-membro.

Duas vias estão a ser seguidas. O foco imediato é promover o comércio e o investimento entre os países membros, utilizando as próprias moedas (rublo, rupia, real, yuan, etc.). O segundo, a introdução de sistemas de pagamento alternativos. Os BRICS estão, assim, a desenvolver plataformas para facilitar transacções transfronteiriças, directas e eficientes.

O projecto mais conhecido é o BRICS Pay, um sistema de mensagens e pagamentos descentralizados. Este sistema, que utiliza tecnologia Blockchain, permite pagamentos seguros, de baixo custo e visa romper com o sistema SWIFT ocidental, mais caro e obsoleto em termos de rapidez. A aposta em novos sistemas conjugados, respeitando a soberania de cada país, constituirá o centro nevrálgico em que assentarão as transformações de fundo do xadrez (financeiro) futuro dos BRICS.

Esta estratégia, para além de dispensar o dólar como moeda padrão, cria uma alternativa viável que reforça a autonomia financeira dos países, mitiga o risco de sanções ocidentais e contribui para a emergência de uma Ordem Global Multipolar.

A Presidência 2026 dos BRICS pela Índia

Durante o ano de 2026, a Índia sucede ao Brasil na Presidência dos BRICS. Os sistemas de pagamentos transfronteiriços são tema central da agenda financeira da presidência indiana, que apresentou uma proposta do Banco da Reserva da Índia (RBI) para criar um sistema de pagamentos, baseado na interligação das Moedas Digitais de Bancos Centrais (CBDC) dos membros do grupo.

Aqui deixamos alguns dos pontos foco, alvo de profunda reflexão, durante 2026, no sentido de, na base de decisão ponderada, encontrar as saídas funcionais e seguras e início de operacionalidade.

Quatro são esses pontos:

  • Interconectividade das moedas digitais: A Índia defende que os países devem vincular as suas moedas digitais oficiais a aplicar nas transações de comércio e turismo.
  • Alternativa ao SWIFT: O objetivo é o corte da dependência do sistema financeiro ocidental e dólar americano, permitindo transações diretas e mais baratas entre as moedas nacionais.
  • Pagamentos com países terceiros: A infraestrutura proposta visa ser expansível, permitindo que países fora dos BRICS (como parceiros comerciais estratégicos) possam integrar-se no sistema para facilitação do comércio.
  • Resistência a Sanções: De acordo com especialistas, este sistema oferece uma larga e eficaz defesa contra as sanções económicas por parte dos governos ocidentais que, sobretudo no caso dos EUA, “tem sempre feito prova de uma notável propensão à violência”, como referem vários analistas.

A Índia reconhece ainda desafios técnicos significativos e que nem todos os países-membros se encontram ao mesmo nível de preparação para usar as novas técnicas de pagamento.

Existe, contudo, um entusiasmo dos BRICS+ por esta proposta e um grande empenhamento no seu aprofundamento e implementação, para que a nova arquitectura financeira promova o desligamento cabal do sistema ocidental. A aplicação das medidas decididas na 16ª Cimeira de Kazan/ Rússia terá consequências extremamente importantes, tanto imediatas como de longo prazo, para o sistema monetário e económico internacional no seu conjunto.

Se Jeffrey Sachs estiver certo na data de referência da queda da Hegemonia do Ocidente, o próximo Presidente dos EUA e a Europa já estarão, a passos largos, a entrar em becos bem apertados. Não é fácil “visualizar” esta realidade nos antípodas da que hoje existe. Parece mais um filme da guerra das estrelas. Mas é uma realidade. A era pós-americana está em marcha com os BRICS a balizar um contributo decisivo na mudança de paradigma da governação mundial.

Ainda é cedo para perceber se este novo paradigma apontará para um design futuro das relações de troca em dois blocos antagónicos, voltando ao tempo da Guerra Fria, agora em posição invertida, ou para um entendimento sobre as instituições da nova ordem financeira internacional.

A concluir, seria do interesse global que a inteligência estratégica, sobretudo por parte do G7, viesse ao de cima e, passos em frente fossem dados para uma saída equilibrada do sistema vigente. Que todos se inserissem nas novas Instituições Económicas, numa base de igualdade, reduzindo, deste modo, as causas dos conflitos latentes entre países. Bases de cooperação sérias e justas precisam-se.