Não há volta a dar. À geometria, sim, aos bons malandros não. “Linhas paralelas que não tardaram a encontrar-se porque a vida não é assim tão geométrica”, escreveu Mário Zambujal no livro que ainda hoje se lhe cola à pele e e persiste na memória de muitos, “A Crónica dos Bons Malandros”. Ele, que mandou a geometria às urtigas e escreveu como, e sobre, o que lhe deu na real gana.
Foi jornalista d’A Bola, subdiretor do Record e chefe de redação d’O Século e do Diário e Notícias. E ainda diretor interino do Tal & Qual. Escreveu programas de rádio, editou e apresentou programas de televisão. Jornalista completo? Será. Mas foi a sua carreira literária que mais marcas sulcou nos amantes da leitura. Autor de alguns dos mais populares romances publicados em Portugal, como o já invocado – adaptado ao cinema por Fernando Lopes e, mais tarde, fonte de inspiração de uma série televisiva –, “À Noite Logo Se Vê” ou “Já Não Se Escrevem Cartas de Amor”, sempre assumiu um estilo muito próprio, livre e avesso à ‘geometria’. Prova disso são as obras “Histórias do Fim da Rua”, “Uma Noite Não São Dias”, “Longe É um Bom Lugar”, “Cafuné” ou “Talismã”, para não fastidiar com a sua prolífica escrita na área da ficção.
Nasceu em Moura a 5 de março de 1936, viveu a juventude no Algarve e foi lá que, aos 16 anos, se aventurou a escrever as primeiras linhas num jornal. Um conto satírico intitulado “Os Ridículos”. Em dezembro de 2025 publicou “O Último a Sair”, um romance policial que também inclui a história “Conto Final. Parágrafo.” Desconfiamos que as gerações mais jovens possam ter perdido a boleia deste ‘bom malandro’. A sua extensa obra está aí para ser devorada e (re)descoberta. E o humor ‘zambujaliano’ também. Morreu esta quinta-feira aos 90 anos. Sem parágrafo.
Tagus Park – Edifício Tecnologia 4.1
Avenida Professor Doutor Cavaco Silva, nº 71 a 74
2740-122 – Porto Salvo, Portugal
online@medianove.com