A “bênção do triunvirato” do assalto ao BCP e o homem que “enfeitiçou” Berardo

O antigo administrador do BCP, Filipe Pinhal, sinalizou ontem no Parlamento “triunvirato” que deu “bênção” para o assalto ao BCP: José Sócrates, Finanças Teixeira dos Santos e o ex-governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio. E fala numa “teia urdida que teve um diretório claro” e vários operacionais como Berardo que obteve créditos da CGD para reforçar a sua posição acionista no banco privado. Sócrates desmentiu Pinhal numa nota à Lusa.

“Esta é a minha firme convicção. Houve uma teia urdida que teve um diretório claro constituído por José Sócrates, Teixeira dos Santos e Vítor Constâncio, e depois vários operacionais, cada um a fazer o seu papel”, defendeu ontem o antigo administrador do BCP, Filipe Pinhal, na II Comissão Parlamentar de Inquérito à Recapitalização da Caixa Geral de Depósitos (CGD) e à Gestão do Banco. Pinhal falava aos deputados sobre a guerra de poder no BCP, em 2007, que levou à sua saída do banco privado e à entrada de entrada de Carlos Santos Ferreira e Armando Vara,  vindos do banco público, para a presidência e administrador do banco, respetivamente.

Sobre os alegados operacionais, Filipe Pinhal sinalizou que o empresário José Berardo – que pediu um reforço de empréstimo junto da CGD até 350 milhões para comprar acções do BCP – terá sido um deles. O ex-gestor até terá sugerido a Berardo para “deixar o BCP em paz” e vender a  sua posição (de cerca de 4%), antes de reforçá-la,  com a qual podia “evitar guerras” e fazer uma mais-valia com a alienação da ordem dos 100 milhões de euros. Em resposta, assegurou Pinhal, José Berardo, que preparava o reforço da sua posição no BCP para 7% com um empréstimo da CGD para investir cerca de 400 milhões em ações, terá confidenciado: “Ainda estou para saber como é que aquele homem me enfeitiçou e deu-me a volta… Eu que toda a vida que fui objetivo como é que me meti nesta de ir comprar financiado desta maneira?”.

O desabafo de Berardo levou o ex-administrador do BCP a explicar aos deputados da comissão parlamentar de inquérito à gestão da Caixa que é sua interpretação que o homem referido por Berardo como o tendo enfeitiçado só podia ser uma de duas pessoas: o antigo presidente do BCP, Paulo Teixeira Pinto, ou o então primeiro-ministro, José Sócrates.

“Paulo Teixeira Pinto procurava obter votos para a sua causa. Enquanto como José Sócrates, Berardo procurava nessa altura um espaço para expor as suas obras. Acho que Paulo Teixeira Pinto tinha pouco peso. Já as palavras de José Sócrates teriam mais peso, por conta do espaço que procurava para as suas obras por conta da despesa do estado [espaço CCB]”, detalhou Pinhal  na comissão parlamentar de inquérito à gestão da Caixa.

O ex-primeiro ministro José Sócrates já reagiu, entretanto, a estas afirmações de Berardo. “Nunca discuti, conversei ou orientei o senhor José Berardo em qualquer investimento. Nunca tive sequer conhecimento, fosse por quem fosse, da sua intenção de reforçar a sua posição acionista no Banco Comercial Português”, escreveu José Sócrates numa nota enviada à agência Lusa.

A audição desta terça-feira teve lugar depois de José Berardo ter dito aos deputados que foi Filipe Pinhal que lhe sugeriu fazer um crédito na CGD. Pinhal assegurou que está fora de questão que um administrador que José Berardo quis afastar da administração do BCP o fosse ajudar a aumentar o seu poder de voto.

Teixeira dos Santos, Sócrates e Constâncio deram “bênção” a assalto ao BCP

Para o antigo administrador do BCP foi um “triunvirato” constituído pelos então chefe do Governo, José Sócrates, o ministro das Finanças Teixeira dos Santos e o  governador do Banco de Portugal, Vitor Constâncio, que deu “a bênção” a uma tomada de controlo accionista do BCP que se verificou em 2007.

“Os três constituem o triunvirato — não diria que desenhou a operação — mas que deu a bênção sobre toda a operação“, afirmou o antigo administrador do BCP na comissão de inquérito à gestão da Caixa.

Filipe Pinhal recordou ainda aos deputados que quando Miguel Cadilhe formou uma lista para concorrer contra Carlos Santos Ferreira à liderança do banco, Berardo assegurou publicamente que “chegou tarde”, pois “nós estamos a tratar disso”.

Pinhal frisa que, em declarações feitas na altura num jornal, Berardo “não informou quem era o nós”, mas avança com a sua leitura: “Para mim eram a Sonangol, a EDP, a CGD, o grupo dos sete (o próprio Berardo, Manuel Fino da Soares da Costa, Bernardo Moniz da Maia, João Pereira Coutinho, Filipe Botton da Logoplaste, Diogo Vaz Guedes do Compromisso Portugal e Vasco Pessanha da Inapa)”. E sistematizou:

“Este conjunto de pessoas, na minha interpretação, estava alinhado com o então presidente do banco, Paulo Teixeira Pinto; Vitor Constâncio, então governador, o ministro das Finanças Teixeira dos Santos e o então primeiro ministro, José Sócrates”.

Para Pinhal “estavam alinhados na alteração da composição da administração do BCP” e “operaram uma insólita transferência de administradores da CGD para o maior banco privado português”.

Após a declaração do ex-administrador do BCP, o deputado do PCP, Paulo Sá, questionou Pinhal se já teria uma ideia do que se estaria a passar, naquela altura marcada por uma guerra de poder no BCP e se tinha indícios nesse sentido. Em resposta, Filipe Pinhal assegurou que o único indício que teve foi a divulgação em finais de Abril de 2007 da proposta que ia a assembleia geral de 28 de maio e que previa que o conselho de administração do BCP fosse designado pelos acionistas e não pelo conselho geral de supervisão.

Sobre o objectivo do alegado assalto ao BCP, o antigo administrador do banco dá a sua leitura: “Se o Governo pudesse ter uma influência decisiva no BCP controlava 60% do crédito”. A afirmação surge depois de Pinhal ter dado conta aos deputados que “o Governo tinha uma grande influência na CGD, que tinha uma quota de mercado de cerca de 24% e no BES, com quota de 17 a 18%, tendo o BCP uma quota ligeiramente inferior à Caixa (22 a 23%).

O antigo administrador do BCP desmente também o empresário José Berardo, que na sua audição de 10 de maio afirmou que terá sido o próprio Filipe Pinhal  a sugerir-lhe contrair um crédito na Caixa Geral de Depósitos para comprar acções do BCP.

“Desminto Joe Berardo, O grande aumento da posição de Joe Berardo teve lugar no verão 2007. Por essa altura, [Berardo] estava a assinar uma proposta para levar à Assembleia Geral de 6 de agosto para destituir cinco administradores do BCP, entre os quais eu. Por isso, seria altamente improvável que ajudasse Joe Berardo a ter mais votos para me destituir”, disse Filipe Pinhal nesta terça-feira, 11 de junho, na comissão parlamentar de inquérito à gestão da Caixa  que ouviu o antigo administrador do BCP na sequência ao pedido do PSD face às declarações públicas de Berardo a 10 de maio no Parlamento quando falou sobre os créditos de alto risco que lhe foram concedidos em 2007 e que estão sinalizados na auditoria da EY à gestão do banco estatal entre 2000 e 2015 que concluiu por perdas de 1.647 milhões de euros em 186 operações de crédito que acabaram por se revelar ruinosas.

Constâncio ‘travou’ Pinhal na corrida à liderança do BCP

O ex-governador do BdP, Vítor Constâncio, terá, “inibido” cinco antigos gestores do BCP, incluindo Filipe Pinhal,  de se candidatarem à gestão na assembleia geral agendada para 15 de Janeiro de 2018. Pinhal fala numa reunião que Constâncio deu o “conselho para sair da lista sem o poder explicitar”, ao alertar paras “as consequências  negativas” para o BCP de eventual inibição dos ex-gestores na sequência de denúncias que estavam a sera analisadas pelo supervisor.

O afastamento acabou por ser concretizado no final de 2007 pela mão der Constâncio, com o então presidente e o vice-presidente do BCP, Filipe Pinhal e Christopher de Beck, a desistirem de se candidatar a um novo mandato à gestão da instituição na sequência das indicações que o ex-governador do BdP terá dado, a 20 de dezembro daquele ano, ao líder máximo do BCP, de estarem em curso  investigações das autoridade às irregularidades cometidas com recurso a sociedades “off-shore”, que não permitiam fazer condenações mas também não aconselhavam  aos então gestores do BCP voltar a candidatar-se.

Após a mensagem transmitida aos ex-gestores do BCP, no dia seguinte, a 21 de dezembro de 2007, Constâncio marcou uma reunião no BdP com um grupo de oito accionistas(dos quais dois concorrentes diretos do banco, a CGD e o BPI) que detinham mais de 2% do banco. O encontro visou procurar criar o ambiente propício à saída dos administradores do BCP com o supervisor a desaconselhar que aqueles accionistas apoiassem elementos que integraram a gestão do banco nos últimos sete anos, já que os indícios de irregularidades remontam a 2000 e 2001. E culminou com nova reunião promovida pelo presidente da EDP, António Mexia, a 22 de dezembro, onde o chamado grupo dos sete decidiu apoiar a candidatura de Carlos Santos Ferreira, que estava na liderança da CGD, à presidência do maior banco privado português.

Berardo participou na luta pelo controlo do BCP

Os financiamentos concedidos pelo banco público permitiram a Berardo reforçar a sua posição accionista no BCP que , em 2007, chegou a deter perto de 7% do banco privado, participando na luta de poder pelo controlo da instituição fundada por Jardim Gonçalves no âmbito do designado grupo dos sete.

Na altura dos factos, os responsáveis pela concessão do crédito não terão avaliado com o devido rigor o risco de incumprimento nem terão pedido garantias adequadas ao pagamento do mesmo. Ou seja, a CGD ficou apenas com as ações do BCP como garantia do crédito.

Os financiamentos foram concedidos pela administração de Carlos Santos Ferreira que era presidente da Caixa (e posteriormente transitou para a presidência do BCP) e Maldonado Gonelha vice-presidente.  As garantias adicionais só viriam a ser pedidas depois na presidência de Faria de Oliveira, entre 2008 e 2011, quando Joe Berardo deu como penhor (garantia adicional) os títulos da Associação Coleção Berardo (ACB) que detém a sua coleção de arte moderna em exposição no CCB.

A CGD juntamente com o BCP e o Novo Banco colocaram uma ação de execução contra Berardo e três suas empresas (Metalgest, Moagens Associadas e Fundação José Berardo) para tentarem recuperar 962 milhões de euros.

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