Estávamos em 2020. O mundo encarava uma nova e desconhecida doença: a Covid-19. Devido a esta, Portugal entrou em confinamento em março desse mesmo ano. E o mundo empresarial reinventou-se. O trabalho remoto foi descoberto por vários trabalhadores e ganhou uma nova dimensão. A cultura empresarial viu-se obrigada a modificar-se, assim como a forma de reter talento.
Foram anos de mudanças que ainda hoje são sentidas. E mais mudanças virão na próxima década, com a inteligência artificial (IA) como colega de trabalho.
O trabalho remoto
Mais flexibilidade e autonomia para decidir de onde se quer trabalhar. Estas são vantagens que se destacam do trabalho remoto, que ganhou terreno depois da epidemia da Covid-19. Apesar de o teletrabalho ser um conceito já existente, foi depois da pandemia que ganhou terreno. Em 2024, em Portugal, esta forma de trabalho superou a marca de um milhão de trabalhadores, entre regime integral e híbrido (em que os colaboradores vão ao escritório apenas alguns dias por semana). Mas nem todas as empresas viram de bom grado este regime de trabalho, em parte, devido ao impacto a nível organizacional que provoca, bem como pelas interações entre colaboradores que se esmorecem. Ainda assim, o trabalho remoto continuou a ganhar expressão, ao ponto de a lei laboral portuguesa acabar por sofrer algumas alterações, nomeadamente no que a custos inerentes a esta forma de trabalho diz respeito e ao horário de trabalho. Além disso, o teletrabalho passou a ser um direito alargado de pais com filhos até aos 8 anos de idade e de pais com filhos com deficiência, doença crónica ou oncológica (independentemente da idade), desde que a função que desempenham seja compatível com este regime.
A retenção do talento
De acordo com o estudo Workmonitor 2025, da Randstad, pela primeira vez, o equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional supera o salário como o principal fator de motivação no seio profissional. É este equilíbrio que muitas vezes é encontrado na flexibilização que o trabalho remoto oferece, tornando-o um ativo importante no que à retenção de talento das empresas diz respeito. Tal ficou evidente entre 2022 e 2023: se por um lado, os empregadores exigiam uma presença física no local de trabalho, o talento não queria abdicar do que tinha alcançado com o trabalho remoto. Foi, então, que começou a aparecer um novo fenómeno: o Quiet Quitting. Também denominado como “despedimento silencioso”, caracteriza-se pelo afastamento gradual dos profissionais do trabalho ou das responsabilidades sem se demitirem ou expressarem a sua insatisfação. Mas o Quiet Quitting é também um diferenciador geracional entre as Gerações Z e Millennials em comparação com os Baby Boomers e Geração X, tendo em conta a forma como encaram o trabalho: as primeiras valorizam o equilíbrio entre vida profissional e pessoal, priorizando, ao contrário das segundas, o crescimento pessoal em detrimento da dedicação cega a uma única empresa.
As empresas portuguesas que não se souberam/sabem adaptar às novas “exigências” dos novos profissionais tiveram/estão a ter mais dificuldade na retenção do talento que contratam, esquecendo-se, por vezes, que além da flexibilidade pedida, existe um outro fator que o trabalho remoto oferece: poder trabalhar para empresas noutros países, cujos salários médios são superiores aos que por cá se pagam.
A cultura empresarial numa nova era de trabalho
Com um regime de trabalho híbrido ou 100% remoto, a cultura empresarial sofre algumas consequências. De acordo com o inquérito da Gallup de 2022, os maiores desafios destes regimes passavam pela redução da ligação entre trabalhadores e a cultura da organização ou relações interpessoais entre colegas. No regime híbrido, há ainda a condicionante de se saber coordenar eficazmente recursos, que estão tanto em casa, como no escritório. A flexibilidade de horário de trabalho, sem a divisão do espaço físico, levanta ainda outra questão: a da comunicação, que passa a ser, muitas vezes, assíncrona, o que pode tornar mais difícil para os trabalhadores trocarem informações mais complexas, convergirem no significado das informações e estabelecerem relações. Contudo, o estudo da Gallup revelou algo surpreendente: os trabalhadores em regime híbrido sentem-se mais ligados à cultura da organização do que os trabalhadores que estão 100% em regime presencial, desafiando, assim, a visão comum de que estar no escritório preserva a cultura da empresa.
Visão para 2036
Nos dias de hoje, a inteligência artificial começa a ter lugar nas secretárias de trabalho. Mas… e daqui a 10 anos, qual será o papel da IA? Provavelmente, a fronteira entre o talento humano e a inteligência artificial ter-se-á dissipado, dando lugar a uma simbiose, em que a IA será vista como mais uma colega de trabalho. Como tal, também a liderança de equipas terá de se adaptar a uma nova realidade. Além de híbrida — em que mais do que gerir “onde” os trabalhadores estão, exige uma mudança de mentalidade e de competências por parte dos gestores com foco no resultado, tendo em conta uma comunicação assíncrona e dando confiança e autonomia ao trabalhador —, o papel de gestor passa também por saber encontrar o equilíbrio entre a máquina e o humano. E se o trabalho presencial pode deixar de ser o foco, então, consequentemente, as métricas de produtividade também serão outras: mais focadas na produtividade e nos resultados do que na presença física do empregado.
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