A imagem ficou eternizada no cinema: o despertador de Rocky Balboa toca às quatro da manhã, ele liga o rádio e engole cinco ovos crus, um a um, como ritual de força e disciplina — proteína pura, sem marketing. Hoje, a ideia mantém-se, mas com outra estética: batidos prontos, suplementos coloridos e embalagens apelativas. Em qualquer grande cadeia de supermercados, a oferta é extensa. São mais de 200 produtos identificados com este nutriente e, de repente, muitos alimentos tradicionais surgem com uma versão reforçada. Há barras energéticas, gelatinas e iogurtes; mais à frente, pudins, mousses, papas e até gelados. No frio, leites proteicos; na padaria, pães, nos pequenos-almoços, cereais, e, claro, queijos e saladas — prateleira após prateleira, num retrato claro da expansão desta tendência no retalho alimentar.
A presença de proteína tornou-se um fator de valorização comercial dos alimentos. De acordo com a consultora Mordor Intelligence, o mercado em Portugal está em forte expansão, avaliado em 600 milhões de euros e irá registar um crescimento anual de 7 a 8% até 2030. A nível mundial, deverá valer 24 mil milhões de euros, impulsionado pelo forte crescimento na Ásia, América e Médio Oriente. As bebidas e as barras proteicas prontas para consumo são os formatos de crescimento mais rápido na Península Ibérica. “Há 20 anos, quando comecei neste negócio, as pessoas tinham medo de comprar e até perguntavam se fazia mal. Hoje em dia, tenho clientes que atravessam todas as faixas etárias, desde jovens desportistas a idosos que procuram um suplemento alimentar”, diz David Henriques, fundador da marca Nutripro ao Jornal Económico. Nesta loja, existem centenas de embalagens de proteína Whey (do soro do leite) arrumadas por cores e tamanhos, barras e batidos. Por exemplo, por 67 euros é possível fazer 86 batidos. “Acaba por ser mais económico e deixa de ser necessário fazer ovos mexidos todas as manhãs”, acrescenta.
O mercado português mistura grandes marcas internacionais que são populares para proteína em pó e suplementos (como Optimum Nutrition e Biotech) com empresas com tradição local ou forte presença online (Prozis, Gold Nutrition ou Zumub), e uma ampla gama de produtos adicionais de marcas variadas que abastecem as lojas e os supermercados em todo o país. Com cerca de 1.500 trabalhadores, a Prozis construiu um império na nutrição desportiva. A empresa nacional tem vindo a diversificar o negócio para outras áreas, nomeadamente na produção de roupa desportiva de homem e mulher, cosmética e eletrónica.
O setor do retalho aproveitou a onda. O Continente e a cadeia de ginásios Solinca aliaram-se no desenvolvimento de uma nova marca de suplementação e nutrição desportiva: a Way Up. Proteína Whey, L-Carnitina, barras proteicas, bolas energéticas e manteiga de amendoim em pó são alguns dos produtos pertencentes a esta gama de produtos. Uma marca que “pretende facilitar o acesso a produtos de suplementação e nutrição desportiva em Portugal, através da oferta de produtos de qualidade, certificados e com fórmulas patenteadas e testadas pelo consumidor final, com uma distribuição alargada em mais de 300 pontos de venda e aos preços mais competitivos do mercado”.
Com uma vasta gama de produtos disponíveis, também a Go Active (nome da marca própria do Pingo Doce) promove estilos de vida saudáveis, nos quais se incluem uma alimentação equilibrada e a prática de atividade física, e disponibiliza, no site e nas redes sociais do Pingo Doce dicas, receitas e sugestões de exercício físico para fazer em casa. Os produtos desta gama apresentam no rótulo o “proteinómetro”, através do qual é possível identificar, de forma imediata, a quantidade de proteína presente numa porção do produto. “Com esta ferramenta, pretende-se contribuir para uma melhor gestão diária do consumo de proteína”, informa a marca.
José Maria, fundador da Move Hiit, já trabalhou como consultor, mas mudou de vida. A empresa, que nasceu há nove anos, tinha como foco inicial apenas os treinos (primeiro outdoor, depois online a partir da pandemia), mas no último ano cresceu exponencialmente noutra área: a da alimentação saudável. “Sempre tive uma paixão enorme pela nutrição”, diz José Maria, de 33 anos, licenciado em Gestão e especialista em cross training.
Com o apoio da mulher, Mafalda Castelo Branco, começou a fazer várias receitas, como um complemento para ver se as pessoas gostavam. Nos últimos meses, a conta ganhou milhares de seguidores, estando quase a chegar aos 100 mil. O objetivo do projeto foi ajudar a eliminar os alimentos ultraprocessados e trocar tudo por “ingredientes realmente interessantes e que sejam fáceis de fazer”. “Sou muito apologista de apresentar refeições proteicas, porque é através da proteína que conseguimos construir massa muscular. Fazemos uma seleção das receitas que já vimos noutros sítios e receitas que elaboramos cá em casa e fazemos vários testes”, diz José Maria ao Jornal Económico.
Ainda assim, o fundador da Move Hiit deixa um aviso: nem tudo o que parece saudável o é. “Há também muito marketing e é muito importante as pessoas terem a capacidade de analisar a declaração nutricional”, explica. De acordo com a Agência Europeia de Segurança Alimentar (EFSA), o consumo de referência para adultos foi estimado em 0,8 gramas de proteína por quilo de peso corporal. No campo da ciência, o Algarve está a posicionar-se na linha da frente com a utilização de microalgas para produzir proteínas animais.
Starbucks, Pepsi e Coca-Cola
Ao mesmo tempo, cadeias internacionais como a Starbucks e Dunkin estão a oferecer reforços de proteína nas suas bebidas. O Chipotle Mexican Grill — que já vende burritos carregados de proteína — lançou um “menu rico em proteína”, incluindo copos de carne que fornecem entre 15 e 81 gramas do nutriente.
Nos EUA, as novas diretrizes alimentares divulgadas pela administração Trump sugeriram dobrar a ingestão de proteína, afirmando que a recomendação do anterior do governo “demonizou a proteína em favor dos carboidratos”. As empresas de alimentos começaram a apostar na proteína para evitar a estagnação das vendas. Segundo uma análise do Barclays, a procura global por proteína pode aumentar 37% nos próximos cinco anos, à medida que mais consumidores começarem a tomar medicamentos para a perda de peso e tendências de alimentação saudável. A PepsiCo, empresa de bebidas e snacks, pretende lançar este ano o Doritos Protein, assim como uma água engarrafada chamada Propel Clear Protein, que contém proteína, eletrólitos e fibras, disse a empresa. “A proteína continua a desfrutar de um halo de saúde quase mítico — que persiste apesar do consumo excessivo generalizado de nutrientes — e os consumidores mostram poucos sinais de abandonar isso”, diz Karine Dussimon, responsável de saúde e bem-estar da consultora Euromonitor International.
A Coca-Cola, por sua vez, está a construir uma fábrica de 650 mil milhões euros no estado de Nova Iorque para aumentar a capacidade de produção da Fairlife, subsidiária que produz leite com proteína extra. “Ainda há um longo caminho a percorrer, porque há cada vez mais pessoas a aderir”, afirmou James Quincey, CEO da Coca-Cola, ao “Financial Times”. A Fairlife, juntamente com a linha de laticínios Oikos da Danone e a produtora de iogurtes Chobani, sediada nos EUA, estiveram entre as cinco grandes marcas de crescimento mais rápido de 2025, segundo a consultora Numerator. No entanto, as proteínas vegetais parecem ainda não ter conquistado os consumidores. Espera-se que as vendas da Beyond Meat, fabricante norte-americana de hambúrgueres vegetais tenha caído abaixo dos 300 milhões de euros em 2025, antes do pico de quase 500 milhões em 2021. Hoje, a proteína já não se esconde nos rótulos — anuncia-se em letras grandes, ocupa corredores inteiros de supermercados e dita estratégias de crescimento de algumas das maiores empresas alimentares do mundo.
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