A provocação de Catarina

Catarina Martins faz bem em continuar a provocar. Que provoque à vontade, sobretudo se isso servir para sermos mais conscientes da nossa realidade e da nossa História (…) Mas que não pareça sempre querer apenas diminuir Portugal, as suas portuguesas e os portugueses de sempre.

“Virá o dia em que os discursos oficiais serão capazes de reconhecer a enorme violência da expansão portuguesa, a nossa história esclavagista, a responsabilidade no tráfico transatlântico de escravos. Até podia ser num 10 de Junho. Mas ainda não foi hoje”.

As palavras acima citadas foram proferidas por Catarina Martins, coordenadora do Bloco de Esquerda, num “post” publicado no Twitter (não sei se o escreveu ou disse em mais sítios mas foi aí que eu li), no passado domingo, Dia de Portugal.

A afirmação tem um caráter obviamente provocatório, no sentido de motivar a discussão, repto, aliás, logo aceite nas redes sociais com muitos comentários a apoiar e/ou a discordar e, também, como é típico, a insultar a autora.

Catarina Martins, é claro, não disse nenhuma mentira. A participação portuguesa nessa chaga histórica da humanidade é por demais conhecida. Tem números monstruosos ratificados por investigações várias. O mesmo se poderia dizer quanto à guerra colonial que Portugal manteve em África de 1961 a 1974. Da violência que, antes, exportámos com os chamados “Descobrimentos”. Da nossa participação, enquanto País católico, no processo da Santa Inquisição, que não atingiu apenas os Judeus. Das cruzadas, e não só daquela em que perdemos o rei D. Sebastião. Enfim, dos crimes que os nossos antepassados cometeram em vários momentos da história da humanidade utilizando a bandeira de Portugal.

Primeira nota: este “post” de Catarina Martins, vindo do nada e publicado num dia em que é suposto os portugueses mostrarem algum orgulho pela Nação que criaram, faz parte da forma de fazer política do Bloco de Esquerda. Por esse lado, não se deve estranhar.

Segunda nota: independentemente de estar em desacordo com a maioria das propostas políticas do BE, sobretudo quanto ao papel do Estado e também na construção europeia, tenho respeito por todos os portugueses que não pensem da mesma forma que eu – e acredito, genuinamente, que todos eles, com as suas diferenças de pensar e agir, consubstanciadas nas soluções que apoiam, querem o melhor para o País.

É isso que me leva a ser bastante crítico do que disse Catarina Martins, não pela substância, que infelizmente para nós enquanto comunidade é verdadeira, mas pelo modo permanente, que também já era de Francisco Louçã, de lançar os temas a debate.

A escravidão não foi inventada pelos portugueses, nem sequer pelos europeus que moldaram as atuais sociedades americanas, do Norte, do Centro e do Sul à custa do sofrimento africano. Não! A escravidão já existia na Antiguidade, no Império Romano e outros, na China, na Índia, na Idade Média, sobretudo como destino dado a prisioneiros de guerra, mas não só. Foi uma triste  realidade durante milhares de anos. Nem sempre se fez em função da cor da pele. E quando se fez, nem sempre foi na direção dominante preto-branco. Houve muitas realidades, como a da mulher-homem. E Portugal, que lucrou com esse abominável comércio durante sobretudo dois séculos, foi também dos primeiros a acabar a participação no crime, em 1773, com uma lei do Marquês de Pombal. Isso compara com idênticas decisões na Arábia Saudita apenas em 1963! Ou da Mauritânia, ultimo país a fazê-lo, em 1981!

Catarina Martins faz bem em continuar a provocar. Que provoque à vontade, sobretudo se isso servir para sermos mais conscientes da nossa realidade e da nossa História. Mas quando o fizer, principalmente em matérias tão sensíveis, que nos remetem para a evolução da Humanidade e para o nosso papel coletivo nela, que o faça também com algum enquadramento prévio, até para percebermos o que pensa de forma mais profunda. Pode até escolher dias fatais para os golpes na nossa auto-estima. Mas que não pareça sempre querer apenas diminuir Portugal, as suas  portuguesas e os portugueses de sempre.

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