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A queda do império da carne de porco

Em década e meia, o gigante de transformação de carne de porco passou de uma faturação de quase 100 milhões de euros para a insolvência. Com a quebra nas exportações e a forte concorrência, como a Nobre e a Izidoro, que investiram na imagem e na diversificação dos produtos, as latas de enchidos da Sicasal desapareceram das prateleiras dos supermercados.
18 Janeiro 2026, 15h21

Com a fábrica ainda a arder, o fundador e administrador da empresa, Álvaro Santos Silva, reuniu os 650 trabalhadores da Sicasal, gigante da indústria de carnes em Portugal, para travar o pânico e definir um rumo: ninguém seria despedido, passariam todos a almoçar no refeitório e criou turnos para vigiar possíveis reacendimentos. “Este é o nosso plano de ação. E vocês vão continuar a ganhar dinheiro para isso”, disse Santos Silva, em novembro de 2011, enquanto uma coluna de fumo negro se erguia sobre as instalações da empresa, em Vila Franca do Rosário, Mafra.

Nos meses seguintes, a estratégia revelou-se eficaz. Apesar do incêndio que destruiu a área de desmanche e de embalamento de frescos, a Sicasal fechou esse ano com uma faturação de 95,5 milhões de euros e retomou o ritmo normal de produção, colocando todas as semanas no mercado 500 toneladas de carne processada e mil toneladas de carne fresca. Nos dois anos seguintes investiu 15 milhões, não só na recuperação da área ardida, como também na ampliação da empresa.

O esforço conjunto foi reconhecido pelos trabalhadores, que organizaram uma homenagem a Álvaro Santos Silva. Vestiram uma t-shirt onde se lia a mensagem “garantimos a nossa força”. E ofereceram outra ao patrão com a palavra “Renascer”, o nome do plano de recuperação.

Hoje, o cenário que a Sicasal enfrenta está muito distante deste momento de união e crescimento. Atravessa agora uma crise financeira profunda, marcada por atrasos no pagamento de salários, fornecedores a suspender entregas e maior restrição no acesso a linhas de crédito. Das seis centenas de colaboradores, já só restam 260.

Em outubro de 2025, a Sicasal pediu o Plano Especial de Revitalização (PER) para se reestruturar e apresentar um plano de recuperação que lhe permitisse renegociar as dívidas com os credores, manter a sua viabilidade económica e a liquidez necessárias para continuar a laborar e manter os postos de trabalho.

O pedido de PER acabou por ser indeferido em dezembro pelo Tribunal da Comarca Lisboa Oeste por o processo “não se encontrar instruído com os documentos exigíveis”, em falta pela empresa.

No início deste mês, o BCP, o maior credor, veio pedir a insolvência da Sicasal, tendo o tribunal nomeado Jorge Calvete como administrador de insolvência e marcado para 4 de março a assembleia de credores. Calvete disse ao Jornal Económico que a produção da Sicasal está parada, mas há a intenção de apresentar um plano de recuperação para a reativar e “há todo o interesse em não encerrar a unidade”. Confirmou ainda que existem salários em atraso, mas garante haver vários investidores interessados na empresa.

Descalabro financeiro
Depois de ter recuperado do incêndio, há década e meia, a Sicasal respirava saúde. A faturação crescia, contratavam-se novos trabalhadores e a empresa exportava 40% da sua produção anual para Angola, mas também para Moçambique, Cabo Verde, São Tomé, Luxemburgo, Canada, Rússia, França, Suíça e Inglaterra. Prosperava. Mas em 2016, as vendas para Luanda caíram para metade, face aos mais de 40 milhões de euros do ano anterior, levando a produtora de carnes e enchidos a preparar a mudança para a capital angolana de uma parte da transformação.

Na altura, investiu 10 milhões de dólares (cerca 8,6 milhões de euros, ao câmbio atual) de na aquisição de equipamento e de um espaço de 10 mil metros quadrados de área coberta em Viana, nos arredores de Luanda. No entanto, devido à crise financeira que este país atravessava e aos problemas de divisas [para fazer a importação por Angola] as vendas entraram em colapso. Este foi o primeiro sinal de fragilidade da operação naquele mercado e viria a condicionar a estratégia de internacionalização do grupo.

Em Portugal, a Sicasal tem enfrentado a forte concorrência de marcas rivais como a Nobre e a Izidoro, que foram ganhando quota de mercado, modernizaram a imagem e apostaram na diversificação de produtos. Hoje em dia, a presença da Sicasal nos supermercados é praticamente nula. Além disso, as marcas próprias do Continente e Pingo Doce entraram em quase todas as categorias de charcutaria e carnes transformadas.

Os custos da energia também aumentaram, principalmente num sector dependente do frio e da refrigeração, e o consumo mudou – nas prateleiras dos supermercados há cada vez mais enchidos de aves, soja ou tofu, bem como uma vasta gama de sabores.
Este conjunto de fatores teve um impacto significativo no desempenho operacional e financeiro da empresa, fragilizando a sua posição no mercado e reduzindo a capacidade de gerar receitas de forma sustentada.

O volume de negócios, que foi de 73,3 milhões de euros em 2022 tem vindo a baixar para 69,7 milhões de euros em 2023, e para 42,3 milhões de euros, em 2024. O passivo financeiro decorre sobretudo de “dívidas e responsabilidades financeiras a diversos bancos, designadamente operações de contratos de empréstimo, ‘factoring’, ‘confirming’ e operações de locação financeira”, explica a empresa.

Em junho de 2025, o passivo era de 39,3 milhões de euros, quando o património estava avaliado em 38,25 milhões, acrescido de mais 4,6 milhões de euros de ativo corrente. A dívida aos 250 credores constituídos ascendia a 37 milhões de euros, dos quais 22,4 milhões são a bancos – Banco Comercial Português (11,6 milhões), Caixa Geral de Depósitos (quatro milhões), Novobanco (3,6 milhões), Abanca (2,5 milhões ) e fornecedores (9,4 milhões). Os gastos com pessoal situaram-se em quase 7,2 milhões de euros em 2024.

Com a produção suspensa, o desfecho da Sicasal dependerá agora da capacidade de atrair investidores e de convencer os credores de que ainda é possível recuperar uma empresa que já demonstrou, no passado, saber renascer das cinzas.

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