Académicos minimizam papel da economia na decisão sobre fecho das escolas

“Eu preferia não dar ‘munições’ económicas para esse debate”, disse o professor da Universidade Católica de Lisboa João Borges de Assunção à Lusa, considerando que “o problema do encerramento das escolas é o problema na consequência da educação das crianças e dos jovens”.

Os economistas João Borges de Assunção e Francisca Guedes de Oliveira reconhecem o impacto económico de um possível fecho das escolas devido à pandemia de covid-19, mas minimizam o seu papel no atual momento.

“Eu preferia não dar ‘munições’ económicas para esse debate”, disse o professor da Universidade Católica de Lisboa João Borges de Assunção à Lusa, considerando que “o problema do encerramento das escolas é o problema na consequência da educação das crianças e dos jovens”.

Ao “medirmos o custo económico em termos da quebra do produto naquele período em que isso acontece, podemos estar a induzir as pessoas” de que há uma opinião “sobre o encerramento ou não das escolas que depende das consequências do PIB”, refere o economista.

“No meu caso não depende”, vincou o professor universitário à Lusa, considerando que as eventuais consequências económicas “não são a bitola certa” para avaliar o problema, apesar de reconhecer que “fará alguma diferença” e terá uma “consequência adicional” em termos económicos.

Também Francisca Guedes de Oliveira, professora da Universidade Católica do Porto, disse à Lusa crer que “a decisão de abrir ou fechar é provavelmente das decisões que tem menos a ver com economia”.

“Não acho que, neste momento, a decisão de fechar as escolas seja uma decisão que tenha a ver com défice e aumento de despesa”, completou, quando questionada acerca dos gastos orçamentais de algumas medidas de apoio social relativas a junho do ano passado.

No entanto, reconheceu que se está “a falar de muito dinheiro num orçamento do Estado que já é curto, e que já não chega para tudo” aquilo que se acha que era necessário fazer.

A economista também considerou que o fecho das escolas “é provavelmente daquelas medidas que tem um impacto relativamente reduzido” em termos económicos, considerando que “essa medida é daquelas que pode ajudar a um bom controlo da pandemia e dos contágios sem efetivamente ter um peso económico substancial”.

“Se se fechar as escolas, nós vamos estar a caminhar para algo muito semelhante do que aconteceu em março e abril”, considerou a economista, algo que poderá significar “as pessoas começarem a controlar-se mais e a ficarem efetivamente em casa”.

João Borges de Assunção reconhece que “sempre que houver um confinamento severo prolongado, como aconteceu no segundo trimestre do ano passado, é possível que a economia desça a um nível que não é muito diferente do que aconteceu no segundo trimestre do ano passado”, frisando que se refere ao “nível, não variação” face a períodos anteriores.

Desde o início da pandemia, recorda o economista, “na prática já tivemos três situações em trimestres consecutivos”, um de “confinamento severo”, outro de “recuperação muito rápida” e ainda outro “confinamento suave”, com a “economia a descer bastante” e a ficar num “nível intermédio”.

Questionada se a situação atual se assemelha a esse nível intermédio, Francisca Guedes de Oliveira concordou: “Apesar de haver um conjunto de medidas mais gravosas, do ponto de vista económico, do que aquelas que houve em novembro”, atualmente, “do ponto de vista daquilo que é a mobilidade e a interação social estamos claramente numa distensão muito maior do que estávamos em março e abril”.

João Borges de Assunção antevê que os apoios necessários face a uma situação de possível encerramento das escolas terão de ter uma dimensão maior que as do ano passado, quando confrontado com os números da despesa em junho.

“Há toda a parte, que é muitíssimo maior do que isso, que tem a ver com as perdas de receitas fiscais, e que o Governo não explicitou diretamente, porque não explicitou isso devidamente no relatório do Orçamento do Estado de 2021”, referiu, acrescentando também que há despesa que virá “via crédito” concedido às empresas, que está “condicionado às empresas que tenham bastante emprego”.

Borges de Assunção defendeu que o Governo, “sempre que toma uma medida gravosa de confinamento”, devia “acompanhar com uma medida financeira equivalente aos prejuízos que esse confinamento dá a todo o tecido afetado”.

“E isso é um valor financeiro extraordinariamente elevado. E se é um período curto, de 15 dias, é um valor relativamente pequeno e que o Estado poderá acomodar, mas se é um período grande o Estado não tem condições de acomodar isso”, concluiu.

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