Alberto Manguel doa os seus livros a Lisboa: deixou de os amar ou quer ser livre outra vez?

Nasceu na Argentina, é cidadão canadiano e doa este sábado a sua extensa biblioteca à cidade de Lisboa. Terá Manguel desistido deste seu amor pelos seus livros? Como toda a gente sabe, o amor é uma coisa exclusiva e alguém mexer nos nossos livros é espicaçar perigosamente o ciúme. Talvez Manguel se queira despedir deles: porque deixou de os amar, ou simplesmente porque quer ser livre outra vez.

Israel, Argentina, França, Inglaterra, Itália, Taiti, Canadá e finalmente, até ver, Lisboa, é o roteiro breve do escritor Alberto Manguel, cuja pátria mais óbvia é a sua própria biblioteca, aquela que – (é impossível deixar de dizer isto) como se fosse uma despedida precoce – vai este sábado doar à cidade de Lisboa.

Neste caso, Lisboa não é Lisboa: podia ser outro sítio qualquer – o mais estranho é que não seja o Canadá, o país que Manguel adotou como seu – porque aparentemente o autor de ‘Notícias de um país estrangeiro’, o seu primeiro romance’ (1991), está pouco preocupado com a paisagem da geografia que rodeia os seus livros.

Chega a Lisboa vindo de um lugar qualquer que por acaso se chama Mondion, perto da cidade de Châtellerault, em França, para onde foi por causa dos livros que não cabiam nos apartamentos que o seu dinheiro podia comprar nas cidades canadianas. É tão simples – e tão pouco ‘literário’ – quanto isso. Ou então é tremendamente literário: talvez seja Alberto Manguel que pertence aos 40 mil livros que vai hoje doar e não o contrário, e por isso reste ao homem que nasceu em março de 1948 em Buenos Aires, Argentina, seguir o rasto da sua própria criação, para onde quer que ela vá.

“Há uma cidade chamada Lisboa que tem um espaço decente para acomodar os 40 mil livros e está interessada nisso? Muito bem, porque não?” A citação é apócrifa mas será mais próxima da realidade que a discursata encomiástica e fraudulenta que costuma acompanhar a viagem de gente famosa até Lisboa.

Manguel começou a reunir os seus livros em Israel, onde viveu os primeiros anos – na companhia de uma inesquecível ama de origem checa – na (falta de) companhia do pai, embaixador em Telavive, e da mãe – e onde inaugurou o seu alheamento: é de origem judia mas não tem nenhum sobressalto religioso e só muitas décadas depois teve um ou outro sobressalto político.

O sobressalto foi sempre mais literário: quando regressou à Argentina, teve o privilégio raro de conhecer Jorge Luís Borges – ou Borges, como preferem dizer os iniciados na coisa da cultura, os mesmos que também dizem Sophia quando querem dizer Sophia de Mello Breyner Anderson, como se não houvesse outras Sofias e outros Borges.

Jorge Luís Borges descobriu com os seus olhos cegos que Alberto Manguel seria um dos seus leitores preferidos e essa descoberta permitiu ao jovem (na altura com pouco mais de 20 anos) reforçar a sua devoção pelos livros. Já nessa altura os colecionava mas estaria ainda a alguns anos de ouvir a pergunta mais estúpida que se pode fazer a um bibliófilo: “mas tu já leste isto tudo?”, cuja formulação devia ser suficiente para levar o perguntador para os calabouços.

Desde esses dias únicos, Alberto Manguel dedicou-se a acomodar livros na sua biblioteca, a casar com Pauline Ann Brewer e a ter três filhos com ela – Alice Emily, Rachel Claire e Rupert Tobias – a divorciar-se e a mudar os azimutes para Craig Stephenson, seu companheiro de há anos. Pelo meio teve tempo de exercer o seu amor sobre os seus três escritores preferidos (o próprio Jorge Luís Borges, Robert Louis Stevenson e Lewis Carroll, que por acaso se chamam todos Luís menos o último, que se chamava Charles Lutwidge Dodgson). E, em mais larga escala, espalhar pelo mundo, na forma tentada da palestra, do curso dedicado, do colóquio e do ensaio, o amor pelos livros.

Vinícios, outro escritor do lado de lá do Atlântico, escreveu que “o amor é eterno enquanto dura”, como toda a gente sabe. Terá Manguel desistido deste seu amor pelos seus livros? Como toda a gente sabe, o amor é uma coisa exclusiva e alguém mexer nos nossos livros é espicaçar perigosamente o ciúme. Talvez Manguel se queira despedir deles: porque deixou de os amar, ou simplesmente porque quer ser livre outra vez.

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