Alterações climáticas ou aquecimento global: afinal, por que ardeu a Califórnia?

Trump, que sempre foi contra a ideia de aquecimento global, admitiu na Fox que as alterações climáticas “podem contribuir um pouco” para o desastre, mas o “grande problema é a má gestão florestal”

Os bombeiros anunciaram na noite de quarta-feira, 21 de novembro, que o “Woolsey Fire”, como é conhecido este incêndio que estava a lavrar no sul do estado da Califórnia, está 100% contido, mesmo a tempo do Dia de Ação de Graças nos EUA.

O incêndio começou a 8 de novembro e espalhou destruição total de Thousand Oaks até Malibu, no oeste de Los Angeles. Os ventos diminuíram, e as chamas foram domadas, mas os moradores enfrentam outra ameaça. Os meteorologistas dizem que uma tempestade poderá chegar este fim de semana, o que pode trazer o risco de deslizamentos de terra e de pedras nas colinas e montanhas desprotegidas de vegetação.

O papel do aquecimento global

Sem precisar ser um grande entendedor da matéria, pode-se concluir que a situação atual dos incêndios florestais são resultantes do aquecimento global. Trump, que sempre foi contra a ideia deste fenómeno, admitiu na Fox que as alterações climáticas “podem contribuir um pouco” para o desastre, mas o “grande problema é a má gestão florestal”.

O departamento de Florestas e Proteção contra Incêndios da Califórnia tomou todas as medidas necessárias para combater as chamas no ‘’paraíso californiano’’, que acabaram por consumir grande parte do território. Apesar de não ser de conhecimento geral, segundo a ”National Geographic”, os incêndios neste estado norte-americano fazem parte do seu ecossistema, já que a quantidade de pinheiros nas florestas norte-americanas tem vindo a crescer nas ultimas décadas.

Segundo o gráfico do departamento californiano, os fogos de grande dimensão já datam desde 1980, e  nos últimos 20 anos têm sido os mais quentes e mais secos de sempre.

Os dados da Agência de Proteção de Ambiente (EPA, em inglês) revelam que, só no último século, a Califórnia aqueceu cerca de três graus Fahrenheit. Esse ar extra-aquecido consome a água das plantas e dos solos, e deixa as árvores, os arbustos e as pastagens da Califórnia secas e propicias para queimar. Esse efeito da seca da vegetação agrava-se a cada grau de aquecimento, explica Daniel Swain, cientista do clima da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, o que significa que as plantas perdem a água mais rapidamente hoje do que antes da mudança climática na Califórnia.

Um recente relatório do governo dos EUA preparado pelos principais especialistas em clima e florestas explora as interações entre a mudança climática e as florestas. As principais observações finais enfatizam como a mudança climática está aumentar a vulnerabilidade de muitas florestas dos EUA através de incêndios, infestações de insetos, secas e surtos de doenças. As florestas são conhecidas por desempenhar um papel importante na absorção e armazenamento de dióxido de carbono, mas a taxa de absorção é projetada para diminuir. Isso, por sua vez, permitirá que mais dióxido de carbono se acumule na atmosfera e nos oceanos, levando a um clima ainda mais quente.

Devido a este efeito na mudança climática, os incêndios florestais têm vindo a aumentar, tanto na Califórnia quanto no oeste dos Estados Unidos. Isto tem originado uma tendência clara: quantos mais incêndios ocorrerem na Califórnia, mais destrutivos serão.

No seu mais recente tweet sobre esta questão, o Chefe de estado norte-americano voltou a pôr em causa as alterações climáticas. “Uma longa e prolongada vaga de frio pode rebentar com todos os registos – o que aconteceu com o aquecimento global?” questionou-se.

O presidente dos EUA referia-se às possíveis baixas temperaturas recordes previstas para o nordeste dos EUA, este fim de semana. A comunicação norte-americana foi rápida a realçar a confusão entre o conceito de ‘alterações climáticas’ e ‘aquecimento global’ do presidente, e muitos aconselharam que este visitasse a página da NASA, dedicada a tornar clara a distinção entre os dois.

“A diferença entre alterações climáticas e aquecimento global tem a ver com o tempo”, diz. “As alterações climáticas sentem-se na atmosfera durante um curto período de tempo, e o aquecimento global é como a atmosfera “se comporta “durante períodos relativamente longos de tempo.”

Em resposta, Trump regressou à rede social de eleição e ‘tweetou’: “Já não pode ganhar contra as Fake News Media”, escreveu. “A grande história de hoje é porque eu tenho pressionado tanto que consegui que os preços da gasolina ficassem tão baixos; mais pessoas estão a conduzir, e eu causei engarrafamentos em todo o país. Desculpem, pessoal!”.

Concentração de gases de estufa atinge nível recorde

“Os dados científicos não enganam. Se não reduzirmos rapidamente as emissões de gases com efeito de estufa, especialmente dióxido de carbono, as alterações climáticas terão consequências irreversíveis e cada vez mais destruidoras para a vida na Terra”, sintetizou o secretário-geral da Organização Meteorológica Mundial (OMM), numa agência das Nações Unidas noticiada esta quinta feira.

As concentrações de dióxido de carbono, metano e óxido nitroso aumentaram para “novos recordes”, sendo o primeiro aquele que mais contribui para o efeito de estufa, tendo atingido, em 2017, 405,5 partículas por milhão na atmosfera. Uma situação

“A última vez que a Terra teve uma concentração de dióxido de carbono semelhante foi há três milhões de anos”, indicou o secretário-geral da OMM, Petteri Taalas.

Na Cimeira do Clima COP 24, que se realiza em dezembro na cidade polaca de Katowice, a comunidade internacional deverá concluir o Acordo de Paris para limitar o aquecimento global a menos de dois graus centígrados em relação aos valores pré-industriais.

Ar poluído

A determinado momento, no dia 16 de novembro, a Califórnia teve mesmo o ar mais poluído do mundo. Nessa sexta-feira, o índice de qualidade ar em Sacramento era 316, o que é considerado bastante perigoso. Respirar este ar durante um dia é o equivalente a fumar 14 cigarros. Neste momento, o índice de qualidade do ar na região é 179, o que é equivalente a oito cigarros.

Apesar dos fogos terem sido dominados, o número de vitimas mortais mostra tendências para aumentar: atualmente verificam-se 83 mortos e cerca de mil desaparecidos. Os incêdios queimaram mais de 60 mil hectares e destruíram por completo a cidade de Paradise, de 27 mil habitantes. As chamas destruíram 13.500 mil habitações, 500 lojas de comércio e continua a ameaçar mais de cinco mil estruturas.

 

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