As mudanças na Educação que gostaria de ver com o próximo Governo da Região Autónoma da Madeira

Gostaríamos de ver repensado o modelo da escola a tempo inteiro; reorganizar os tempos letivos e não letivos, os espaços e os recursos, em prol das aprendizagens e do desenvolvimento integral dos alunos. Fomentar, cada vez mais, a atividade física, apostando numa redução do tempo em que os alunos ficam imóveis, no sentido de diminuir o sedentarismo e a obesidade infantil.

Enquanto educador, tenho sonhos legítimos de como gostaria de ver a Educação na nova legislatura, na Região Autónoma da Madeira.

Defendemos que a Educação é o motor de desenvolvimento de uma sociedade e que deve ser a grande prioridade de todos os governos. Só assim podemos ter uma Região evoluída nas bases e nas suas estruturas e caminharmos para um desenvolvimento transversal e sustentado.

O novo Governo Regional da Madeira tem uma grande oportunidade de estruturar a Educação na Região, de forma a ir ao encontro das novas correntes educativas para o século XXI, dado que goza de uma autonomia que lhe permite criar projetos experimentais proporcionando aos nossos jovens um percurso diferente e de qualidade. Há quem defenda que a Educação está melhor, quando muitas aulas são uma amalgama de jovens desinteressados, forçados, pouco motivados e com professores cada vez mais desprestigiados, cansados e pouco estimulados. Também é usual ouvir um apelo para adequarmos o sistema educativo à necessidade das crianças deste século, quando, na realidade, está adequado aos horários laborais dos pais.

Quando se inicia uma nova legislatura fala-se sempre em alterações do sistema educativo. Geralmente, isso não passa de alterações meramente impostas em nome da Educação, para encontrar uma fórmula mágica com três ou quatro medidas de impacto mediático. Aparecem sempre os “salvadores da Educação” e, sem duvidarmos das boas intenções, cremos que a Educação, como a ciência, não necessita de salvadores. Precisa, sim, de um projeto estrutural consistente e baseado em informação e conhecimento objetivo. Os dados indicam que os resultados na Educação necessitam de ser revistos e é mesmo importante uma boa dose de humildade para haver uma profunda reflexão sobre o papel que queremos que a Educação tenha nas nossas vidas e nas nossas organizações. Temos que tomar consciência que a Educação não pode depender de uma legislatura, que deve ser soberana e ter a sua própria escala temporal, independente da política de turno. A Educação necessita de inovação e de reformas consentâneas, negociadas e baseadas num verdadeiro debate com todos os seus agentes. Está claro que necessitamos de nos basear em alguns modelos de sucesso, de refletir em fóruns para analisar como realizar uma alteração e em que sentido aplicar novas metodologias e novos sistemas de inovação educativa. E, nesse processo, devemos implicar todos os intervenientes, desde professores, encarregados de educação, pais e empresários. Só partindo de um verdadeiro debate, com dados objetivos e partilhados, podemos avançar com um projeto sustentado, equilibrado e mensurável. O vai e vem contínuo que está a sofrer a nossa Educação serve para criar uma perplexidade compreensível nos seus principais atores, gerando ondas de instabilidade tumultuosas e que estão a deixar um legado difícil de reverter.

Seguimos falando em ensinar e não em aprender, com o foco no professor e não no aluno. Continuamos obcecados com exames e trabalhos cheios de conteúdos informativos sem nenhuma participação em outros âmbitos, como o desenvolvimento intelectual e emocional e o espírito empreendedor e criativo. Realizamos programas de mentoring educativo para centenas de alunos, rompendo com a essência do próprio mentoring por falta de recursos humanos que realizem o processo com qualidade. Temos programas de inovação educativa e confrontamo-nos com ferramentas tecnológicas muito básicas, sem que haja uma inovação profunda e de qualidade.

Assim, a nosso sonho passa por ver uma proposta assente em pontos fundamentais de uma reorganização escolar, onde se comece por refletir em todos os âmbitos: a escola pública, a escola privada, o ensino profissional, as universidades, as empresas e os departamentos de recursos humanos, para podermos gerar um debate comum e podermos estar todos alinhados. Um plano de reestruturação pedagógica e organizacional que garanta uma adequada articulação entre os ciclos do ensino básico em prol da qualidade das aprendizagens e do sucesso dos alunos, baseada numa escola inclusiva, em que todos cabem dentro das suas especificidades, fundamentada num plano de inovação regional, de práticas pedagógicas e onde exista uma aposta concreta em novas metodologias de ensino. Tudo isto, privilegiando espaços escolares diferenciados e estruturas curriculares adequadas às necessidades e interesses dos alunos, onde estão presentes o desenvolvimento intelectual, as competências sociais e emocionais, a criatividade, o empreendedorismo e o aproveitamento do talento de cada um.

Gostaríamos de ver repensado o modelo da escola a tempo inteiro; reorganizar os tempos letivos e não letivos, os espaços e os recursos, em prol das aprendizagens e do desenvolvimento integral dos alunos. Fomentar, cada vez mais, a atividade física, apostando numa redução do tempo em que os alunos ficam imóveis, no sentido de diminuir o sedentarismo e a obesidade infantil.

Defendemos a construção de um projeto piloto, intitulado “Escola na Natureza”, no qual os alunos, no pré-escolar, são privilegiados com o ensino experiencial como método e a natureza como sala aula.

Defendemos a criação de um novo certificado de habilitações formal onde conste toda a atividade dos alunos, registada e comprovada, em projetos de complemento curricular, cargos exercidos em diversos âmbitos do seu percurso escolar, participação ativa em associações de estudantes e outras, voluntariado, intercâmbios e outras iniciativas de reconhecida relevância e competências sociais e emocionais adquiridas ao longo do seu percurso académico.

Gostaríamos de ver a carreira docente a ser valorizada como merece, imperando a estabilidade profissional e concedendo mais tempo aos professores para ensinar. Uma carreira que privilegie a relação professor-aluno e que permita aos professores serem vistos e tratados com a importância social que têm num País desenvolvido.

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