Ataques em Moçambique. Analista afirmam que intervenção multilateral estrangeira é “crucial” para acabar com a violência

Num artigo com o título ‘Terrorismo em Moçambique precisa de soluções africanas’, os analistas lamentam que os presidentes da África do Sul, Botsuana, Zimbabué e o vice-presidente da Tanzânia, convocados por Moçambique para debater a insegurança, “não tenham acordado num papel específico para a SADC e tenham apenas agendado uma cimeira extraordinária para janeiro”.

António Silva/Lusa

Os analistas do Instituto de Estudos de Segurança da África do Sul consideram que a violência no norte Moçambique será impossível de resolver sem uma intervenção multilateral estrangeira, o que coloca a região num dilema.

“A Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC, na sigla inglesa) está num dilema; por um lado tem de responder à catástrofe humanitária em Moçambique, que condena como terrorismo, mas por outro procura proteger a soberania de Moçambique e não intervirá a não ser que isso seja pedido pelo Governo”, escreve a equipa de analistas da África Austral numa análise conjunta publicada no site do instituto.

Num artigo com o título ‘Terrorismo em Moçambique precisa de soluções africanas’, os analistas lamentam que os presidentes da África do Sul, Botsuana, Zimbabué e o vice-presidente da Tanzânia, convocados por Moçambique para debater a insegurança, “não tenham acordado num papel específico para a SADC e tenham apenas agendado uma cimeira extraordinária para janeiro”.

A falta de um plano concreto, acrescentam, “é sintomática da resistência moçambicana a qualquer tipo de apoio externo que possa levar a uma intervenção estrangeira multilateral no país”.

Esta, defendem, “não é uma crise que um país consiga resolver sozinho”, por isso “a SADC tem de liderar uma resposta regional”.

A crise de segurança e humanitária no norte do país não pode receber os mesmos remédios que estão a ser aplicados nas regiões do Sahel, onde o terrorismo ameaça diariamente a vida das pessoas: “Alguns dos maiores problemas do Mali e da Nigéria incluem a falta de uma estratégia abrangente nacional e regional, recursos limitados e um foco na ação militar à custa dos direitos humanos e de soluções de desenvolvimento”, argumentam.

“Moçambique e a SADC parecem estar a ir pelo mesmo caminho”, alertam, lembrando que num primeiro momento o Governo moçambicano classificou os ataques como simples crimes e contratou mercenários russos e sul-africanos em vez de negociar apoio coletivo dos países vizinhos.

Para os analistas do ISS, “a maneira como a SADC e Moçambique lidarem com a crise vai determinar o futuro do terrorismo na região, já que uma resposta pouco decidida pode consolidar o califado do Estado Islâmico na África Austral, tornando uma intervenção externa essencial”.

Com Moçambique a admitir o envolvimento da SADC na crise, esta organização “tem de calibrar cuidadosamente a sua resposta, já que a segurança a longo prazo na região depende do sucesso da ação coletiva”, concluem os analistas.

A violência armada em Cabo Delgado, onde se desenvolve o maior investimento multinacional privado de África, para a exploração de gás natural, começou há três anos e está a provocar uma crise humanitária com mais de duas mil mortes e 560 mil deslocados, sem habitação, nem alimentos, concentrando-se sobretudo na capital provincial, Pemba.

Algumas das incursões passaram a ser reivindicadas pelo grupo ‘jihadista’ Estado Islâmico desde 2019.

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