Autárquicas: como foi o primeiro dia ‘oficial’ dos candidatos

Habitação, mobilidade e educação estiveram em destaque nos discursos dos candidatos às Câmaras Municipais de Lisboa e Porto.

A campanha para as eleições autárquicas, marcadas para 1 de outubro, arrancou oficialmente esta terça-feira. Nas duas maiores cidades do país, Lisboa e Porto, habitação, mobilidade e educação estiveram em destaque nos discursos da maioria dos candidatos.

Em Lisboa, o atual autarca e candidato pelo PS, Fernando Medina, propôs que a Câmara assuma “as responsabilidades pelas escolas do segundo e terceiro ciclo e pelas escolas secundárias”, durante uma visita a uma escola básica, em Campolide. O objectivo é que a autarquia chame a si, “precisamente as [escolas] que têm mais dificuldades de infraestruturas, que estão mais degradadas e nas quais o Estado central não investiu o que devia para as recuperar”, salientou Medina.

“Está estimada uma intervenção nas principais escolas da cidade [perto de 30] de cerca de 30 milhões de euros que o município irá assumir em moldes semelhantes àquele que assumimos com o Ministério da Saúde, em que a Câmara avança com os recursos” e depois o Estado paga uma renda ao município, defendeu, citado pela Lusa.

PSD e CDU chamam políticas de habitação ao primeiro dia

Já a candidata do PSD, Teresa Leal Coelho, que apresentou na segunda-feira o programa eleitoral, traçou uma outra rota. A social-democrata visitou a Vila Janeira, na Penha de França, onde aproveitou para falar sobre habitação. A candidata exemplificou com o local onde vivem cerca de 20 famílias em casas degradadas e muitas delas sem casa de banho, a necessidade de alterar as políticas de habitação: “não são condições de vida no século XXI numa capital europeia”, disse. “Diz-se que não há barracas, mas há barracas de betão. Isto são barracas. O conceito é o mesmo, mas com betão”, defendeu.

O candidato da CDU, João Ferreira, também se centrou na questão da habitação e reivindicou mais investimento para os bairros municipais. Criticou a gestão de Medina, defendendo que o problema da habitação social “não está resolvido”: “Não faz sentido que, havendo tanta gente à procura de casa, existam tantos fogos vazios em Lisboa”, disse à Lusa.

João Ferreira defendeu que “nos bairros municipais vive hoje quase 1/5 da população da cidade, são 68 bairros espalhados pela cidade aos quais a Câmara dedicou uma fatia muito pequena do seu orçamento ao longo dos últimos anos”. E argumentou: “Em despesas de investimento foram gastos nos bairros municipais menos do que aquilo que a Câmara arrecadou com a taxa turística”.

Integração de imigrantes em destaque na campanha do BE. Assunção critica Medina

O Bloco de Esquerda preferiu chamar para a campanha a integração dos imigrantes na cidade de Lisboa. Ricardo Robles disse aos imigrantes presentes na Associação Solidariedade Imigrante, na baixa da cidade: “A cidade tem que olhar para vocês como lisboetas”.

“A cidade tem que tratá-los como trata todos os lisboetas”, defendeu. E relembrou que Lisboa é “uma cidade tradicionalmente de braços abertos, que gosta de receber”, quer para turistas como “quem precisa de refúgio, quem foge da guerra e da perseguição política”.

A líder do CDS, Assunção Cristas, não poupou críticas a Medina e quis afirmar-se como uma séria alternativa, defendendo a importância do crescimento eleitoral do partido: “Apresentamo-nos a estas eleições para crescer eleitoralmente a nível nacional”, realçou a líder centrista à RTP.

No Porto, falou-se de mobilidade e de promessas cumpridas

No primeiro dia de campanha oficial para as autárquicas, o candidato socialista à câmara do Porto, Manuel Pizarro, optou por andar de bicicleta. Não uma qualquer bicicleta, mas uma bicicleta elétrica. Não uma qualquer bicicleta elétrica, mas uma bicicleta elétrica do CEEIA, Centro para a Excelência e Inovação na Indústria Automóvel, uma das entidades estatais mais avançadas em termos de inovação na área da mobilidade, entre outras.

Mobilidade foi, aliás, o primeiro tema da campanha: Manuel Pizarro afirmou que “a situação é caótica” no que diz respeito ao trânsito da cidade e que o atual presidente “não fez nada” para melhorar a situação. Moreia definiu há poucos meses que as motos e as bicicletas (elétricas ou não) podiam passar a percorrer a cidade dentro das faixas dedicadas aos transportes públicos, mas isso não teve qualquer influência no trânsito – já todos esses veículos por lá andavam antes; o único benefício foi fazer passar os transgressores para o lado certo da lei, por muito incómodo que isso possa ser para os cofres da polícia local.

Já o visado, Rui Moreira, depois de passar a manhã noutros afazeres, reservou a tarde para apresentar, na sua sede de campanha, um resumo da matéria dada nos últimos quatro anos, onde destacou aquilo que considera ser o melhor da sua obra – não se tendo esquecido de deixar claro que, estando muito ainda em fase de execução, o melhor é que os portuenses que deem outra vitória.

Em termos de obras, a campanha no Porto resume-se a números: Moreira afirma que já cumpriu ou está a cumprir uns 70% do prometido há quatro anos – e que parte do que não está não se deve a si mas aos avatares da lei, enquanto que o candidato do PSD, Álvaro Almeida, fala em menos de 1% de cumprido, fora as que estão em andamento.

Corre-se o risco de nenhum deles estar certo, mas essa não é para já a maior preocupação de Almeida: no arranque oficial da campanha, o candidato viu-se obrigado a percorrer praticamente sozinho as sinuosidades urbanas da freguesia de Paranhos – não por acaso, a única que os social-democratas ganharam há quatro anos. Da aguerrida juventude que costumava fazer a festa por trás de Luís Filipe Meneses em 2013 nem rasto, não vá a canseira ser mais uma vez tempo perdido.

Com as baterias apontadas para Rui Moreira, Álvaro Almeida marcou um precioso ponto em termos de sound bites: depois de ouvir alguém dizer que Rui Moreira é muita vaidade, o candidato do PSD, que não se tem destacado pelo bom humor, afirmou que “foi por isso que Rui Rio deixou de o apoiar”. Verdade ou não, fica a ideia de que uma das ideias fortes da campanha que ontem começou será, no Porto, uma espécie de “eu sou mais herdeiro do que tu” de Rui Rio.

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