Banca: Macedo defende escala para enfrentar juros baixos. Ramalho aposta na redução de custos e Maya quer cobrar depósitos de institucionais

Os presidentes dos três maiores bancos convergiram na necessidade de aplicar juros negativos aos depósitos de institucionais e na necessidade de regras equiparáveis para bancos, Fintechs e Big Techs. Já concordaram menos no caminho para a rentabilidade num cenário de baixos juros.

Cristina Bernardo

Na conferência Banca do Futuro, organizada pelo “Jornal de Negócios”, em Lisboa, os três CEO dos maiores bancos nacionais debateram a banca do futuro. Foram mais as convergências que as divergências. Todos acompanharam Miguel Maya na defesa de refletir os juros negativos nos depósitos de grandes investidores institucionais.

O presidente do BCP defendeu que os bancos devem poder cobrar por depósitos de clientes institucionais, desde logo porque, devido à proibição de taxas em Portugal, há estrangeiros a mudarem o dinheiro para o país.

“Eu não percebo porque que é que, e obviamente não estou a falar dos particulares, eu posso ter depósitos de institucionais estrangeiros pelos quais não posso cobrar quando nos países deles reflectem as taxas negativas nos depósitos”, disse.

Miguel Maya disse que “não passa pela cabeça do Millennium BCP cobrar pelos depósitos de [clientes] particulares e pequenas empresas”, no entanto não faz sentido ter “centenas de milhões” de euros de depósitos de grandes clientes institucionais estrangeiros no banco, com quem o BCP não tem qualquer outra relação comercial, sem cobrar.

“Isso acontece, disse, porque nos seus países de origem essas entidades têm de pagar para pôr o dinheiro nos bancos e então transferem o dinheiro para bancos portugueses, onde a legislação nacional não permite cobrarem por depósitos de clientes”. Para Miguel Maya, isto é mais um exemplo de como os bancos portugueses não competem com as mesmas regras dos pares europeus.

O tema dos juros negativos nos depósitos tem sido alvo de reuniões entre a associação da banca (APB) e o Banco de Portugal.

Os CEO da Caixa Geral de Depósitos e Novo Banco, alinharam pelo mesmo diapasão.

Os bancos lidam mal com a política de juros baixos.

Paulo Macedo disse que as empresas e os particulares estão a viver com custos financeiros historicamente baixos. “O atual ambiente das taxas de juro nos últimos 40 anos nunca foi tão baixo”, referiu Paulo Macedo.

“A política monetária agressiva é útil mas os efeitos da transmissão dessa política acomodatícia à sociedade são impensáveis de ser realizados a partir de certa altura”, disse por seu turno António Ramalho, CEO do Novo Banco.

A certa altura as incertezas que gera nos investidores supera os benefícios das taxas de juros muito baixas, diz ainda.

“Existe um problema. A taxa de zero retira racionalidade ao depósito a prazo. Pelo que sistema está subsidiar a valorização da poupança”.

“O nome do jogo é os custos. Nos próximos dois, três anos, os bancos vão ter que ajustar custos para aquele que é o nível que nós podemos suportar”, avançou Ramalho.

Miguel Maya respondeu com o rácio de eficiência (cost-to-income) do BCP que é dos mais baixos do mercado, 47%.

Já Paulo Macedo escolheu falar da rentabilidade dos bancos que está projectada pelo BCE para 2020 e 2021 em 7,7% (agora está em 5,5%). “Ora o custo do capital continua em dois dígitos”, salienta.

“É fulcral sermos investment grade“, apelou Paulo Macedo.

“Não se consegue fazer face a este novo contexto de taxas de juros baixas sem escala. Porque as questões regulatórias, as questões de capital, as questões dos rácios exigidos e o custo de segurança e protecção assim o exigem. A Caixa tem um custo de segurança e proteção que mais ninguém tem”, lembrou.

No entanto, Paulo Macedo, e apesar da regulação europeia ser superior à regulação bancária dos Estados Unidos, não acredita “em alívio regulatório. Nem em menos exigências de capital, mas na simplificação acredito”, disse.

Miguel Maya discordou da necessidade de escala num ambiente de baixas receitas vaticinado por Paulo Macedo. O CEO do BCP disse que a banca consegue hoje chegar a mais clientes, com a tecnologia de rede, com o mesmo nível de custo.

“É preciso misturar a tecnologia com o conhecimento humano, é aí que nos vamos diferenciar”, vincou.

“Vamos pegar nas novas ferramentas do digital e vamos incorporá-las dentro do nosso próprio processo do negócio. A reorganização do banco é fundamental. Também é importante pagar impostos em Portugal, criar emprego qualificado em Portugal, criar um sentido de confiança”, acrescentou.

O CEO da CGD admite que a banca tem de ter novas formas de geração de receitas. “O ativo está mais são e o capital mais forte, mas todos os ativos que temos no nosso balanço vão ter uma rentabilidade que é metade da anterior por causa das baixas taxas. Nós temos o problema da rentabilidade”.

“Temos de continuar a ser relevantes. Como? Temos que ter com os clientes uma relação global. Temos de fazer alterações significativas ao modelo de negócio. O que não pode acontecer é que a banca seja empurrada para apenas guardar depósitos dos portugueses. Não pode ficar a CGD com os depósitos e todos os outros serviços (PPR, seguro de vida) serem prestados por outros bancos”, referiu.

O BCE divulgou um quadro com os princípios riscos para 2020. Alguns riscos diminuíram, como por exemplo o NPL e o Real Estate e os dois riscos que aumentam são as alterações estruturais ao modelo de negócio e os desafios económicos e políticos. Alguns destes são causados pelo próprio BCE. “A alteração do modelo de negócio é em parte provocado pelo próprio BCE”, aponta Paulo Macedo.

Citando as declarações do presidente do Single Resolution Board, quando este disse que os bancos devem deixar o mercado se não conseguirem gerir o seu risco de uma maneira sólida e se forem estruturalmente incapazes de manter a competitividade do seu modelo de negócio, Paulo Macedo sublinhou que “ao mesmo tempo que se quer que haja mais crédito à economia, também se quer que haja menos bancos”.

António Ramalho salientou o peso das fintech de pagamentos. “A actividade financeira tradicional sofre três perdas fundamentais: a perda dos depósitos, a perda do crédito e a perda dos pagamentos. Mas a entrada das fintech está sobretudo a verificar-se no sistema de pagamentos, por causa da arbitragem regulatória. O valor das empresas de crédito e de débito não se compara ao valor das empresas de pagamento. O market cap de uma empresa como a N26 é 3,5 mil milhões. O market cap de uma empresa que dá crédito como a Square é de 26,4 mil milhões ao passo que o valor de mercado da Pay-Pal é de 128,3 milhões. A Visa cota a 36 vezes o lucro líquido”, salientou.

“Cada vez mais as Big Techs são operadores globais e têm uma relação global com os nossos clientes, muitas vezes mais do que o próprio banco”, destacou Paulo Macedo da Caixa que adiantou que as “fintechs contribuem para alguma fragmentação do mercado. Mas podem ser extremamente úteis”.

“A Caixa costuma ser comparada com um petroleiro. Antes disso era mais um porta-aviões. A CGD está ver que tipo de navio é que vai ser, para aproveitar a metáfora.  A CGD tem de ser uma caravela mais rápida. Tem de ser mais ágil, tem de ter dimensão e tem de ser relevante”, defendeu.

“Tem de ter dimensão e para isso tem de ser pública, porque se não for pública não é portuguesa”, alertou.

Todos defenderam que na Europa “deveria haver legislação idêntica”. António Ramalho, defendeu um “sistema idêntico ao nível de toda a Europa”.

Qual é o ‘level playing field’ quando o BCP tem de pagar 50 milhões de euros ao Fundo de Resolução todos os anos, quando nenhum destes operadores que entrou no mercado [N26, Revolut, etc] paga?” Questionou o CEO do BCP.

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