Banco de Portugal prevê recessão de 5,7% em 2020 no cenário mais adverso

A incerteza devido ao Covid-19 é tão complexa que o banco central não pôde apresentar um único cenário mais provável, mas um de base com uma recessão de 3,7% e outro mais adverso com um tombo de 5,7% no PIB este ano. Alertou ainda que “atendendo às condições de partida e à incerteza que envolve a crise em curso, não podem ser excluídos cenários ainda mais adversos”.

O Banco de Portugal (BdP) afirmou esta quinta-feira que as perspetivas para a economia portuguesa deterioraram-se de foram  abrupta devido à pandemia Covid-19, num choque económico que poderá levar a um recuo de 5,7% no Produto Interno Bruto este ano no cenário mais adverso, que consiste numa paralisação mais prolongada da atividade económica em vários países, com maior destruição de capital e perda de emprego.

No cenário base, no que o BdP assume um impacto económico relativamente limitado, estima-se uma redução de 3,7% do PIB real em 2020.

“As perspetivas para a economia portuguesa deterioraram-se abrupta e significativamente em resultado do impacto da pandemia Covid-19. A pandemia corresponde a um choque económico adverso com efeitos muito significativos e potencialmente prolongados no tempo em termos do bem-estar dos cidadãos e da atividade das empresas”, referiu o BdP, no Boletim Económico.

“A incerteza exacerbada e a complexidade que caraterizam este exercício de projeção implicam que não seja possível apresentar um cenário mais provável para a evolução da economia portuguesa”, adiantou.

Neste contexto, o Banco de Portugal optou por elaborar dois cenários – um cenário base e um cenário adverso – com hipóteses diferentes sobre os efeitos económicos da pandemia a nível nacional e mundial. As projeções procuram ter em consideração o potencial impacto das políticas adotadas pelas autoridades nacionais e europeias em face do choque, adiantou.

Ambos os cenários contemplam uma recessão da economia portuguesa em 2020. “O choque deverá atingir o seu pico no segundo trimestre deste ano, prevendo-se uma normalização gradual a partir do segundo semestre. O impacto da crise pandémica tem uma natureza muito persistente, associada à destruição de capacidade produtiva instalada, não se observando um retorno do nível do PIB à trajetória projetada no boletim de dezembro de 2019”

No cenário base, o BdP estima uma redução de 3,7% do PIB real em 2020. “Assume-se que o impacto económico da pandemia é relativamente limitado, o que decorre, em parte, da hipótese de que as medidas adotadas pelas autoridades económicas são bem-sucedidas na contenção dos danos sobre a economia. A economia portuguesa apresenta um crescimento ainda fraco em 2021 (0,7%), recuperando mais notoriamente em 2022 (3,1%)”.

Nesse cenário o emprego caíria de 3,5%, com uma subida da taxa de desemprego para 10,1% em 2020. Nos anos seguintes, a taxa de desemprego reduz-se gradualmente, para 9,5% e 8,0%, respetivamente, em 2021 e 2022.

“No cenário adverso, assume-se que o impacto económico da pandemia é mais significativo devido à paralisação mais prolongada da atividade económica em vários países, conduzindo a maior destruição de capital e perda de emprego. Este cenário considera também uma maior incerteza e níveis de turbulência mais significativos nos mercados financeiros”, sublinhou o banco central.

Nestas condições, a economia portuguesa regista uma recessão mais profunda, com o PIB a reduzir-se 5,7% em 2020. Nos anos seguintes, a atividade económica recupera, prevendo-se um crescimento de 1,4% em 2021 e de 3,4% em 2022.

Neste cenário, a taxa de desemprego aumenta mais marcadamente em 2020, para 11,7%, e apesar da redução esperada nos anos seguintes mantém-se em níveis superiores aos do cenário base (10,7% e 8,3%, respetivamente, em 2021 e 2022).

O banco central liderado por Carlos Costa recordou que nos dois cenários apresentados, as projeções para o crescimento do PIB em 2020 traduzem revisões significativas em baixa face ao projetado no Boletim Económico de dezembro, onde se apontava para um aumento da atividade económica de 1,7% este ano e de 1,6% nos seguintes.

BdP não exclui cenários ainda mais adversos

O BdP salientou que a incerteza em torno destes cenários é muito elevada tendo em conta a evolução recente da pandemia, as medidas de confinamento adotadas pela generalidade dos países, a elevada perturbação nos mercados financeiros e as medidas de política que têm vindo a ser sucessivamente reforçadas em várias jurisdições.

“Atendendo às condições de partida e à incerteza que envolve a crise em curso, não podem ser excluídos cenários ainda mais adversos”, vincou.

O banco central alertou que a economia portuguesa apresenta vulnerabilidades específicas face a um choque desta natureza. “A importância do setor do turismo na atividade económica implica uma elevada exposição à redução esperada da procura global deste tipo de serviços, que será muito significativa”.

Um choque económico desta dimensão coloca também dificuldades acrescidas ao tecido empresarial, dominado por empresas de pequena dimensão e com situação financeira relativamente frágil, sublinhou.

“Finalmente, a elevada percentagem de famílias perto ou abaixo do limiar de pobreza em Portugal implica uma reduzida margem de absorção do choque perspetivado sobre o rendimento”, afiantou.

“A crise desencadeada pelo novo coronavírus constitui um inédito e sério desafio às diversas políticas económicas, que deverão dar prioridade à resposta de curto prazo ao impacto provocado pela pandemia, mas as considerações de médio prazo deverão também ser tidas em conta”, concluiu.

[Atualizada às 13h26]

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