Banqueiros respondem a Horta Osório: Banca tem ponderador de risco superior aos bancos europeus

O BCE está a uniformizar a ponderação de risco dos ativos, logo “os rácios de capital dos bancos portugueses vão subir imenso”, defendem os banqueiros que responderam aos alertas deixados por António Horta Osório. Sobre fusões e aquisições, ficámos a saber que o Santander está fora da corrida a aquisições em Portugal.

Os presidentes dos maiores bancos portugueses responderam aos alertas lançados pelo Keynote Speaker da conferência do Dinheiro Vivo e TSF, que se realizou esta sexta-feira em Lisboa.

O CEO do BCP, Miguel Maya foi o mais assertivo e falou do tema do capital e o tema dos NPLs. “Quando falamos no capital dos bancos portugueses é preciso perceber que o rácio tem um numerador e um denominador. Isto é, há o capital e os ativos que o banco tem no balanço. Os ativos que os bancos têm no seu balanço são ponderados pelo risco”, disse. Ora, “a ponderação média em Portugal está acima dos 55%”, revelou o CEO do BCP. Esta ponderação do risco em Portugal compara com a Alemanha que é 25% e com Espanha que é 40%, isto apesar dos bancos portugueses até terem uma carteira de crédito muito dominada pelo crédito à habitação que tradicionalmente tem um ponderador de risco mais favorável.

“A banca portuguesa vai beneficiar bastante da uniformização da ponderação de risco a nível europeu”, disse Miguel Maya.

“Mais importante do que o tema dos NPEs é o tema da eficiência. Quando comparamos o trabalho feito pela banca portuguesa com a banca europeia, o que nós vemos é que os bancos portugueses são hoje dos mais eficientes da União Europeia. Isto é que tem a ver com a sustentabilidade futura, mais do que os NPEs, pois se estes estiverem devidamente provisionados, e se os bancos continuarem a ter uma estratégia de redução, não são um problema. Por isso, não nos forcem a passar valor para fora do sistema. Tendo o nível de provisão correto, o rácio de NPE a ter em conta devia ser o líquido de imparidades e não o bruto de imparidades”, disse ainda Miguel Maya.

Miguel Maya, presidente do Millennium BCP, defendeu que a produtividade na banca é “eficiência” e “apresentação de resultados consistentes”.

Pablo Forero, CEO do BPI, concordou que maneira como estão a ser calculados os rácios de capital dos bancos portugueses os penaliza face ao pares europeus. “Quando o cálculo deste rácio for uniformizado, e o BCE está a trabalhar nisso e está quase aprovada a regulação, os rácios de capital da banca portuguesa vão melhorar imenso”, referiu Pablo Forero. Os que vão piorar são os rácios da banca da Europa do Norte.

Já António Ramalho diz que “o próximo desafio vai ser criar um modelo mais transparente, mais escrutinável e mais compreensível”. Mas fez também suas as afirmações de Miguel Maya a desmitificar a tese que os bancos portugueses têm níveis de capital abaixo da média europeia por causa do elevado stock de NPL, referindo-se ao que disse António Horta Osório, quando afirmou que o rácio de capital da banca podia cair 30% se os níveis de cobertura dos NPL acompanhassem os níveis da banca europeia. “O nosso nível de capital é uma equação, tem numerador e denominador e este é a avaliação do risco que em Portugal é ponderado ao dobro do que nos bancos dos outros países da Europa, alguns deles com o mesmo tipo de estrutura de ativos”. No Novo Banco “os ativos são ponderados pelo risco a 66%, o que compara mal com bancos espanhóis similares onde os ativos ponderam a metade disso”. Ora metade do ativos ponderados pelo risco, significa que esse banco tem metade das exigências de capital do Novo Banco.

“Os bancos portugueses têm hoje rácios acima de 13,5% e comparam bem com os seus pares europeus”, disse o CEO do Lloyds Bank que foi  o Keynote Speaker da conferência. No entanto avisou que este rácio tem de ser visto em conjunto com o rácio de NPL (crédito malparado). Horta Osorio, defendeu que “estes ativos malparados deveriam ter em média cerca de 80% de cobertura, segundo as recomendações do BCE, e em média têm apenas cerca de 52%”. Logo, se os bancos cumprissem essa cobertura de 80%, os rácios de CET1 desceriam cerca de 30% e ficariam em cerca de 9,5%. “Isto é um sintoma de alguma fragilidade, caso haja algum choque externo”.

Já antes, o Governador do Banco de Portugal tinha dito que “os bancos têm de continuar a reduzir os ativos não produtivos, em linha com as orientações e planos de redução submetidos às autoridades de supervisão. Há que ter em conta que o rácio de empréstimos não produtivos (NPL) líquido de imparidades do setor bancário português continua a ser um dos mais elevados no quadro europeu, não obstante o progresso alcançado desde 2016”.

Na Money Conference, em Lisboa, os presidentes do BCP, CGD, Novo Banco, Santander Totta e BPI, debateram a “Transparência e Boas Práticas em Portugal”, mas acabaram a queixar-se do ambiente de taxas de juros muito baixas ou negativas que já dura há quatro anos; do excesso de regulação e da falta de regras iguais para os bancos europeus.

“Podemos dizer que queremos taxas de juro mais altas, queremos o mesmo level playing field [regras semelhantes para atividade semelhante na zona euro], queremos menos regulação. Mas temos de gerir o negócio a partir desta situação”, disse Pedro Castro e Almeida, CEO do Santander, que contrapôs com a necessidade de dar atenção à alteração do comportamento dos clientes – o que o CEO do banco chamou de momento disruptivo e citou o exemplo de as operadoras de telecomunicações, que no dia em que nasceu o Whatsapp (para o qual já estavam avisados três anos antes), a Telefónica perdeu mil milhões de euros num ano em receitas e a Deutsche Telekom 1,5 mil milhões.

“O nosso modelo de negócio vai mudar nos próximos dois anos, como não mudou nos últimos 50”, disse o responsável pelo Santander em Portugal.

Para Pedro Castro e Almeida o foco tem de estar na “eficiência”. Mas isto não é corte de custos, “é pensar num negócio que vai ser transformado e que terá, simultaneamente, de ir de encontro dos clientes”, disse.

Pedro Castro e Almeida defende assim que as comissões devem acompanhar o grau de satisfação dos clientes, podendo subir ou descer em função disso. “Vamos adaptar as comissões àquele que é o custo do nosso serviço e às necessidades e vontade dos nossos clientes”, respondeu o CEO do Santander Portugal à questão das comissões. “Antigamente o banco isentava comissões a quem tinha mais de 1.000 euros na conta, mas num ambiente de taxas de juro negativas deixou de fazer sentido essa isenção”, defendeu ao mesmo tempo que lembrou que os clientes não pagam comissões nos levantamentos em ATM.

Miguel Maya, do BCP, alinhou pelo mesmo argumento, dizendo que as comissões devem acompanhar o nível do serviço prestado. “Não temos de comer todos na cantina, ao mesmo preço”, disse, metaforicamente. O CEO defende a transparência e a facilidade em mudar de banco.

Por outro lado, Paulo Macedo, presidente da CGD, voltou a falar do facto de as taxas de juro baixas estarem a penalizar o negócio bancário. “Nunca ninguém geriu bancos com taxas de juro negativas durante tanto tempo”, disse o CEO da Caixa.

“Não há investimento sem poupança e temos os níveis de poupança mais baixos da Europa”, disse por sua vez Pedro Castro e Almeida, CEO do Santander Totta. “Como posso atrair talento do mundo inteiro para tornar este país sustentável?”, disse ainda.

António Ramalho, do Novo Banco, recentrou o debate na transparência e na qualidade dos serviços dos bancos. “Não fizemos nenhuma alteração de preçário das comissões para o próximo ano. Mas o que é importante é o que os clientes esperam de nós e isso é, maior eficiência, maior acompanhamento de empresas, maior penetração do sistema de exportação, maior conhecimento dos mercados e maior apoio”, disse.

Miguel Maya colocou o tema das contribuições para o Fundo de Resolução em cima da mesa. “O BCP paga 47 milhões por ano para uma coisa com o qual não tem nada a ver, que é o BES”, disse o presidente do BCP, que defende que sem rentabilidade, não há prosperidade e sem prosperidade não há capacidade de pagar melhor salários. Disto até ao tradicional apelo a um “level playing field” foi uma ápice. Miguel Maya voltou ao tema que várias vezes tem falado em conferências de banca, a uniformização das regras europeias do setor bancário.

Pablo Forero veio depois pegar no tema do Fundo de Resolução que no caso do BPI obriga a pagar anualmente 32 milhões de euros. “Não é agradável. Mas é o que é, foi assim que o BES foi resolvido”, disse.

O presidente do BPI lembrou a transparência que existe no facto de o BdP disponibilizar um comparador de comissões, o que não existe noutros países.

O peso das comissões no produto bancário, em média, representa 30%, que é o mesmo nível da Europa, abaixo de Espanha, de França e de Itália, disse Forero. Sobre os ativos totais médios as comissão representam 0,74%, em Itália é 1%, em Espanha é 0,73%, por isso “estão perfeitamente alinhadas com a Europa”, disse.

O presidente do Santander apelou à estabilidade fiscal como condição para atrair investimento e defendeu a necessidade da desburocratização ao nível do licenciamento e da interação com as câmaras municipais.

Paulo Macedo focou as suas intervenções nos efeitos nefastos da política monetária altamente acomodatícia, que, apesar de bem intencionada no que toca à macroeconomia, e dos seus efeitos para evitar uma recessão através de tornar o dinheiro mais barato, não tem surtido efeitos no investimento “O que temos vindo a assistir é que não está a surtir efeitos no investimento, que não está a crescer nem em Portugal nem no resto da Europa com estas taxas de juro”, disse o presidente da Caixa.

“Temos uma política monetária que não está a atingir um dos principais objetivos que é aumentar os investimentos das empresas”, disse, admitindo que está a permitir o aumento do crédito à habitação. Mas “está a afetar negativamente os bancos em termos de margem financeira e solvabilidade”, disse ainda.

Os bancos têm mais capital e a venda de malparado melhora o balanço no imediato e evita imparidades acrescidas em face de um ambiente económico pior disse o banqueiro, porque esse crédito é aquele que entra mais depressa em novas imparidades num cenário de recessão económico. Por outro lado o crédito está menos dependente de títulos e propriedades como colaterais. Paulo Macedo não quer “uma crise de malparado em cima de taxas de juro como as que temos hoje”.

O presidente do Novo Banco, António Ramalho, recordou, por seu turno, que “a banca trabalha sobre riscos que podem acontecer”.

A reputação dos bancos também foi tema, mas destaca-se a revelação de um estudo que chegou ao conhecimento do CEO do Santander Totta em que os bancos apareciam em penúltimo lugar em reputação e o último lugar cabia aos media.

O risco foi um dos temas da conferência. Há hoje várias linhas de defesa nos bancos, como o risco e o compliance, e depois a auditoria, explicou o CEO da CGD, banco que teve já várias auditorias e comissões de inquérito nos últimos três anos.

O Novo Banco vai ser alvo de uma nova auditoria da Deloitte sobre os créditos que justificaram a ajuda do Fundo de Resolução, e Ramalho apressou-se a dizer que “a auditoria é excelente”. O banco herdado do BES tinha 36% de NPL, recordou.

Já antes Carlos Costa, Governador do Banco de Portugal, no discurso de abertura, tinha falado das funções de controlo interno (compliance, controlo da gestão de riscos e a auditoria interna), que “são também essenciais, nomeadamente para garantir um adequado controlo dos riscos incorridos na atividade bancária”. Ao “auditor externo cabe certificar de forma exaustiva a veracidade e a completude da informação, nomeadamente os riscos que a instituição incorre e os custos para as diferentes partes interessadas”, disse ainda.

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O CEO do BPI defende que é sempre obrigação olhar para qualquer oportunidade, mas estão focados no crescimento orgânico do banco. Pablo Forero, disse assim que o banco dos espanhóis CaixaBank estava “obrigado” a olhar para as oportunidades do mercado. “A obrigação de qualquer um de nós é olhar para todas as oportunidades de fazer um bom negócio para os nossos acionistas. É a nossa obrigação olhar para qualquer oportunidade. Agora, no BPI estamos todos focados no desenvolvimento orgânico do banco e em ter um melhor serviço para os nossos clientes”, referiu o líder do BPI.

Miguel Maya, presidente do BCP, lembrou o que disse quando iniciou o seu mandato. “Disse no início do mandato que fazia uma aquisição. Está feita: foi na Polónia (o Euro Bank). A partir daqui, a estratégia do banco é de crescimento orgânico”.

“Em seis meses fizemos a integração completa do Euro Bank”, lembrou o CEO. “O nosso foco agora é o crescimento orgânico, até ao fim do mandato que acaba em 2021”. Se, “por ter dito isto, significa que não olho para as oportunidades? Digo que qualquer gestor tem de estar atento a qualquer oportunidade. Mas não tenho nenhuma intenção de fazer qualquer outra aquisição até final do meu mandato. Qualquer gestor tem de estar atento às oportunidades”, revelou o presidente do maior banco privado em Portugal.

“Até 2020, no plano estratégico, estamos vedados de fazer qualquer tipo aquisição. Portanto, até 2020 não faremos qualquer tipo de aquisição”, declarou Paulo Macedo, presidente da Caixa Geral de Depósitos (CGD), depois de questionado se o banco público estaria preparado para acolher  alguma instituição. Paulo Macedo disse que “depois de 2021 e até 2024, claramente isso acontecerá”, referindo-se a possibilidade de estudar aquisições.

Também Pedro Castro e Almeida descartou uma nova aquisição, isto depois de o Santander Totta ter comprado o Banif e o Popular nos últimos anos, duas operações que lhe permitiram ganhar relevo no mercado português. “Sendo o capital escasso no grupo, não me parece que faça muito sentido o Banco Santander alocar capital para fazer uma nova aquisição em Portugal. Há sítios onde o banco está presente que se justifica muito mais”. Pedro Castro e Almeida diz “que faz mais sentido comprar fintechs, a múltiplos de resultados em vez de múltiplos de vendas, ou fazer parcerias”. Pedro Castro e Almeida tem a maior das dúvidas que haja bancos na Europa a fazer aquisições, dados os múltiplos a que transacionam.

Em Portugal, claramente afastou o tema do Novo Banco da agenda. “Não me parece que faça muito sentido, até porque já temos uma quota muito importante no país, alocar a Portugal capital para fazer uma nova aquisição“, disse o presidente do Santander Totta. “Acho que o grupo não vai querer alocar” mais dinheiro em Portugal para uma nova compra, frisou.

António Ramalho interrompeu o debate para perguntar por que razão não lhe questionaram se o Novo Banco poderia fazer alguma aquisição no próximo ano,  e acabou a responder “estamos impedidos de fazer aquisições até 2021”.

 

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