Batata quente

A Europa está protegida por um banco central disposto a comprar a estabilidade política, colocando dinheiro nos problemas como se estes se resolvessem por si.

A expectativa de subida de taxas de juro por parte da FED está a ter um impacto substancial nos mercados de dívida, com a taxa de juro a dez anos a bater máximos de sete anos, ultrapassado já os 3%. Neste momento estamos próximos da inversão da curva de rendimentos, uma vez que a diferença entre os dez e 30 anos é quase residual. Normalmente, quando as taxas no curto prazo são superiores, isso significa que nos anos mais próximos teremos uma recessão.

Ora, a recente subida de taxas de juro na economia mais endividada do mundo não deixa antever um bom desfecho para os restantes países. Os EUA acumulam um défice gémeo, ou seja, orçamental e comercial. Uma forma de financiar este défice e de manter a procura por dívida americana é aumentar os juros. No entanto, também a economia precisa de juros mais altos, uma vez que o dinheiro barato e os mais de 4,5 biliões de dólares injectados se traduziram no desperdício de muito capital em projectos sem viabilidade. Parece que regressámos a 1999,  período marcado por muita inovação e euforia, mas cujos resultados ainda têm de aparecer ou a perda de confiança irá ditar o desinvestimento e com ele uma recessão.

A subida de taxas de juro para níveis de 3,5% ou 4,5% terá um impacto devastador para o tesouro americano. Cada um por cento de aumento traz consigo mais de 200 mil milhões de dólares em juros, metade do crescimento económico projectado. O impacto desta subida de taxas de juro no crédito automóvel, ao consumo ou aos estudantes, é imensurável.

O problema da dívida passou de mãos em mãos, como uma ‘batata quente’, não fosse o facto desta ficar cada vez maior e de um dia alguém ter de lidar com o problema de forma séria. A crise do sector privado, quer em 2001, quer em 2007, foi financiada pelo sector público, que depois foi salvo pelas entidades responsáveis pela manutenção da credibilidade dos meios de pagamento, os bancos centrais. A seguir vieram as entidades supranacionais, como os fundos de resolução, fundos de estabilidade e mecanismos diversos que, sem dinheiro, também prometeram salvar nações. Finalmente, com taxas de juro negativas, o crédito regressa aos mesmos, famílias e empresas, que através do seu consumo financiado por dívida antecipam impostos aos Estados.

A Europa está mais protegida por um banco central disposto a comprar a estabilidade política, colocando dinheiro nos problemas como se estes se resolvessem por si. Dez anos depois da crise, a Autoridade Bancária Europeia irá divulgar recomendações aos bancos acerca da gestão do crédito malparado, que ultrapassa o bilião de euros. A burocracia e inacção acabarão por ditar o fim desta Europa de faz de conta.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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