Bruno Lage. Um ex-interino que começou por conquistar os benfiquistas e depois o título

Tranquilo, ponderado e ‘low profile’, andou pelos escalões secundários e de formação do futebol português e esteve a trabalhar nos Emirados Árabes Unidos e em Inglaterra. Em janeiro, o treinador que se revelou um verdadeiro gestor de atletas era apenas uma solução de transição. Arriscou na juventude e ganhou: é agora campeão nacional.

JOSE SENA GOULAO / LUSA

O Benfica conquistou o título de campeão nacional de futebol pela 37.ª vez em 18 de maio, graças a mudanças estruturais na gestão do plantel. Quem ouviu as palavras do treinador Bruno Lage, na hora de festejar no Marquês de Pombal, reconhece o que aconteceu após a saída de Rui Vitória e que alguém que não passava de um interino – com Luís Filipe Vieira a dar indicações para os adeptos de que estaria a pensar na próxima época – em poucos meses se tornou campeão nacional.

“Que este título, que esta reconquista, que este campeonato que estava perdido também seja a forma de nós começarmos a dar mérito a quem ganha – e tem de partir de nós, agora. Do nosso exemplo, começar a olhar para os nossos adversários e quando eles ganharem também é preciso dar-lhes mérito. Só assim, quando nós ganharmos, é que eles vão começar a dar-nos mérito. Fazer desta reconquista, a reconquista do bom futebol e perceber que há coisas mais importantes na nossa sociedade e no nosso país, pelas quais ainda temos de lutar”, disse Bruno Lage.

Revelou ter cultura desportiva, fair-play e mostrou que saborear a vitória não é humilhar o adversário. Mas foi mais além: “Se vocês se unirem e tiverem a força e a exigência que têm no futebol na nossa economia, na nossa saúde e na nossa educação, nós vamos ter um país melhor. Quero aproveitar esta reconquista para reconquistarmos os valores de Portugal. Não basta chamarmos nomes aos árbitros, aos treinadores quando eles perdem ou assobiar aos jogadores por não correrem. Temos de ser mais exigentes, no futebol e na sociedade – só assim temos um futebol e um país melhor”.

Há muito que um técnico não dizia tanto em tão poucas palavras. Bruno Lage indicou ter sido mais do que um treinador. Desde que assumiu o comando técnico da equipa principal do Benfica, a 3 de janeiro, mostrou-se ponderado, low profile e estudioso do jogo, mostrou ser um gestor do futebol dentro das quatro linhas – aquilo que qualquer treinador deve ser no futebol do século XXI.

Dentro do balneário teve de gerir egos, sobretudo ao preterir algumas escolhas certas da era de Vitória (é o caso de Jonas e da saída de Castillo) em prol de esperanças como João Félix, cujo potencial já conhecia das camadas jovens das ‘águias’.

Fora das quatro linhas, o setubalense conseguiu manter-se à margem dos casos judiciais que envolvem, direta ou indiretamente, os ‘encarnados’ e escusou-se a entrar em conversas de café sobre árbitros e demais picardias extrafutebol, incluindo a descrença que vários adeptos revelavam em janeiro, aquando da saída de Rui Vitória, com o clube da Luz a sete pontos do então líder FC Porto.

Resultado? À frente da equipa principal da Luz, Lage chegou a bom porto ao gerir um plantel avaliado pelo Transfermakt em 317,5 milhões de euros (dados de maio): recuperou a desvantagem pontual para o FC Porto – na era de Lage, o Benfica só perdeu dois pontos. Mas como? Apostou alto e meteu todas as fichas na Liga e pelo caminho recuperou o marroquino Taarabt, abriu caminho ao prodígio João Félix e a outros sete jovens da formação (desde 2008 que o Benfica não tinha tantos jovens da casa no plantel principal), deu condições para o suíço Seferovic ser o melhor marcador da Liga (23 golos) e para que Pizzi se tornasse “rei das assistências” (18). No final, chegou o título, carimbado por demérito dos adversários diretos FC Porto e Sporting e pelos 103 golos marcados pelas águias, dos quais 72 nos 19 jogos em que Lage comandou a equipa.

Hoje, Bruno Lage já não é o treinador interino do Benfica, mas sim um nome respeitado, com vínculo até junho de 2023.

Quem é Bruno Lage?
Licenciado em Educação Física, Saúde e Desporto, Bruno Miguel Silva Nascimento – o nome Lage herdou-o do pai para o mundo do futebol – começou a carreira a treinar camadas jovens do Vitória de Setúbal, passando pelo Comércio e Indústria, Fazendense, Estrela de Vendas Novas e Sintrense.

A chegada ao Benfica deu-se em 2004, pela mão de Jaime Graça, quando António Carraça era responsável pelo futebol de formação das águias. Jaime Graça, que Lage considera seu mentor, apoiou-o na  progressão ao torná-lo adjunto no Fazendense, clube da região de Almeirim. Mais tarde, passou a orientar os juvenis da Luz

Nas camadas jovens do Benfica, treinou todos os escalões, conquistando dois títulos nacionais e dois distritais. Passaram-lhe pelas mãos Bernardo Silva, Gonçalo Guedes, Ederson, André Gomes e João Cancelo, por exemplo. Oito anos depois, deu o ‘salto’. Foi com o espanhol Quique Flores para o Al-Ahli, dos Emirados Árabes Unidos, treinando equipa B e juniores. Depois, voou para Inglaterra, onde foi adjunto de Carlos Carvalhal no Sheffield Wednesday e Swansea. O regresso ao Benfica ocorreu no início da época 2018/2019, para a equipa B.

No currículo, Lage conta com a autoria de dois livros (“Formação – Da Iniciação à Equipa B” e “Futebol – Um Saber sobre o Saber Fazer”, em conjunto com Carlos Carvalhal e João Mário Oliveira). Há ainda registo de artigos de opinião no blogue Visão de Mercado.

Artigo publicado na edição nº1990, de 24 de maio do Jornal Económico

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