Bruno Maçães: “Esqueçamos a hegemonia da política económica e financeira. A nova era é da política externa”

Antigo secretário de Estado dos Assuntos Europeus do governo de Pedro Passos Coelho, Bruno Maçães, publicou o livro “O despertar da Eurásia” sobre as grandes alterações na ordem global. Em entrevista ao Jornal Económico, o atual consultor defende que “Portugal está nesta altura numa grande disputa geopolítica e que tem a ver com o futuro da iniciativa chinesa, a Cintura e Rota – a nova rota da seda”.

Cristina Bernardo

Ao longo do livro defende que a tendência geopolítica mais significativa é a ascensão da Eurásia. Porquê?

Falamos muitas vezes da ascensão da China e da Ásia, mas essa é uma visão incompleta porque o Ocidente, e a Europa em particular, não estão a entrar em colapso. O mundo em que estamos a entrar é um mundo de um certo equilíbrio entre Este e Oeste, entre a Ásia e o Ocidente, e, em particular, um certo equilíbrio entre a Europa e a Ásia, que são vizinhos e que estiveram durante a história divididos por uma fronteira que ninguém percebe muito bem. Não há nenhum obstáculo natural importante e hoje em dia essa fronteira já faz muito pouco sentido porque a interacção entre os dois lados é cada vez maior. Há novas infra-estruturas a serem construídas: o comércio entre a Ásia e a Europa é hoje o eixo mais importante do comércio mundial. O que sugiro no livro é que este processo está apenas a começar e se vai intensificar.

É também isso que significa o conceito de “super-continente”, cujo eixo se dirige para o Oriente, de que fala?

Sim, acho que é de toda a autoridade falar num continente eurasiático também porque os principais agentes deste super-continente pensam nesses termos. Isso é claramente o caso com a China, que tem planos ambiciosos para organizar a Eurásia no seu conjunto. Se olhar para os mapas que são produzidos pela política externa chinesa são mapas onde a Eurásia aparece desenhada e onde aparece dividida e ligada através de novas conexões. A Rússia também pensa em termos eurasiáticos. Julgo que apenas a Europa está um pouco mais tímida nesse processo.

O que é que explica essa diferença?

É normal que dois países que se consideram em ascensão tenham políticas mais ambiciosas e que a Europa seja uma espécie de poder conservador, que quer manter as coisas como estão. Não podemos é ser excessivamente conservadores porque quem não se prepara para um mundo novo acaba por ser ultrapassado por esse mundo novo. O que temos visto é que a China vê na Europa um alvo bastante apetecível, uma região de enorme riqueza, de enorme invenção tecnológica mas sem os recursos de poder duro que lhe permita ter uma política externa activa. E a Rússia imagina o mundo onde esteja colocada entre a Europa e a China, onde controle as fontes de energia e onde seja capaz de escolher a quem as vai fornecer e a que preços. Tanto a China como a Rússia imaginam o seu sítio na Eurásia. A Europa continua ainda a acreditar que existe uma fronteira algures a leste que a protege das influências, quase sempre consideradas nocivas, que vêm da Ásia. Esse é um modo antiquado de olhar o mundo.

“Hoje em dia as grandes empresas de tecnologia são quase Estados autónomos.”

Estamos perante um sistema internacional multipolar?

Sim, julgo que isso é inevitável. Estamos a entrar num mundo que se vai parecer muito com a Europa do século XIX. Há talvez cinco agentes principais e depois um certo número de agentes com influência, mas não ao mesmo nível, onde tudo se relaciona com tudo. Onde as relações são muito mais complexas, onde não há uma hierarquia clara, onde não há blocos claramente divididos, um mundo muito mais confuso e onde a política externa se torna claramente o centro da política. Esqueçamos essa hegemonia da política económica e financeira dos últimos 30 ou 40 anos. A nova era é a era da política externa.

Neste cenário existe uma erosão da soberania dos Estados?

Sim, embora eu julgue que a grande erosão resulta da maior integração. A globalização não tem recuado, tem-se tornado mais conflitual. A existência de pólos diferentes aumenta o conflito e aumenta a desordem e desse ponto de vista, os Estados têm menos controlo sobre o que se passa dentro das suas fronteiras. A internet rapidamente se revelou um limite ao poder dos Estados. Hoje em dia as grandes empresas de tecnologia são quase Estados autónomos. A possibilidade de que esta diminuição das fronteiras permite a interferência nos assuntos de cada Estado. São fenómenos novos que mostram como os Estados têm hoje uma completa incapacidade – já não é dificuldade, é uma completa incapacidade – em fechar as suas fronteiras ao exterior e por isso estão hoje sujeitos a interferências que não controlam. A soberania é hoje 80 ou 70% do que seria nos Estados inteiramente soberanos.

Como é que os Estados podem responder a esses desafios?

Julgo sobretudo que têm que viver com estas influências. Têm de as controlar não através do isolamento, mas da tentativa de também eles exercerem influência sobre os seus vizinhos. Tem de haver um equilíbrio baseado no poder, baseado na influência mútua. Se quisermos limitar a influência chinesa na Europa, só há um modo de o fazer: não é fechando as fronteiras, é aumentado a influência europeia na China, para que depois, com base em influências, mútuas seja possível chegar a acordos, seja possível chegar a equilíbrios.

É uma opção viável? 

Desde que haja a vontade política para isso. A China criou uma organização 16 mais um, construída pela China, por cinco países dos Balcãs e 11 países da União Europeia que se reúnem todos os anos e que têm projectos em comum. É quase inconcebível que a Europa fizesse o mesmo: criar uma organização incluindo 11 províncias chinesas. Mas isso mostra antes de mais a ambição da política externa chinesa e a enorme debilidade da política externa europeia. Não vamos conseguir delimitar a influência chinesa se não tivermos pontos de influência e de pressão sobre a China.

Mas a questão é se a Europa precisa limitar a influência chinesa no seu território ou se precisa aumentar a influência europeia na China?

Claramente, a segunda possibilidade. Fechar as fronteiras à influência chinesa não é possível, mas se quisermos encontrar um modo de vida com a China que seja aceitável para nós, isso só pode ser conseguido através de negociação permanente, de acordos com a China. Só podemos ter acordos equilibrados se tivermos essa capacidade de influenciar a acção chinesa. Primeiro, temos de chegar a uma posição de poder equilibrada e depois sentarmo-nos à mesa. Porque não negociar um acordo de livre-comércio com a China, que permita resolver muitos dos desequilíbrios que existam nesta altura?

A política externa chinesa tem sido caracterizada pela não ingerência em assuntos de outros Estados. Em que medida é que esta abordagem se relaciona com a ascensão da China?

A China tinha uma política de não interferência nos assuntos de outros países e continua a afirmá-la oficialmente, mas é muito difícil dizer que essa seja a política hoje em dia, pelo contrário. O que vemos atualmente é que a China aparece no centro de todas as questões mundiais. O golpe de Estado no Zimbabué, as eleições norte-americanas, a mudança de poder no Paquistão e na Malásia. Tornou-se hoje uma verdadeira superpotência mundial.

O investimento chinês em sectores chave da economia de outros países, através de empresas com capital estatal, pode ser considerado uma das formas de interferência nos assuntos internos de outro Estado?

Há uma questão crítica importante: saber até que ponto é que a China usa o seu poder económico para prosseguir fins políticos. Há países como Portugal onde a presença económica chinesa foi e até agora muito claramente separada da influência política. A experiência no Governo a que pertenci, e julgo que isso continuou depois, foi sempre que a China percebia muito bem que a participação na economia portuguesa não seria usada para prosseguir fins políticos. Desse ponto de vista, a experiência tem sido muito positiva e uma das prioridades da política portuguesa tem de ser garantirmos que isso continua assim.

“A Rússia tornou-se o desestabilizador por excelência da política internacional.”

No livro diz que o Presidente russo, Vladimir Putin, acredita que a política internacional é uma área de rivalidade e competição permanente. É este o melhor retrato da estratégia da Rússia no xadrez da política mundial?

Sim, a Rússia tornou-se o desestabilizador por excelência da política internacional. Por um lado tem um entendimento da política internacional assente na competição permanente e por outro lado com uma orientação sempre para a criação de uma nova ordem. A Rússia tornou-se, talvez seja um regresso à União Soviética, um poder revolucionário. Não é um poder conservador como a União Europeia, é um poder sempre interessado em alterar os equilíbrios existentes e as regras existentes. Muitas vezes interessada em alterar as regras existentes apenas para as alterar, uma espécie de gosto pela instabilidade, pela revolução.

E qual é o papel dos Estados Unidos? Existe um declínio do poder norte-americano ou isso é um anúncio prematuro?

A estratégia norte-americana modificou-se claramente. Os EUA abandonaram a ideia de converter o mundo a um modelo ocidental. Estão preocupados em competir com a Rússia e a China, que agora pela primeira vez são apresentados como adversários. Isso significa que os EUA já não acreditam que a Rússia e a China se possam tornar pilares da ordem liberal internacional. São adversários, dispostos a subverter a ordem existente e contra os quais têm de agir. Essa é uma alteração fundamental e começou apenas nos últimos três ou cinco anos. Estão também cada vez mais forçados a exercer o seu poder de um modo menos activo. Já não são capazes de decidir unilateralmente o que fazer e estão sobretudo interessados em limitar a ascensão da China, sobretudo, mas também da Rússia. Estão sobretudo interessados em usar os seus instrumentos de política para conter a China. Isso também é uma modificação porque a ideia de um poder unilateral desapareceu e hoje a estratégia norte-americana é muito mais a de dividir para reinar, usar um dos grandes Estados da Eurásia para limitar o outro e conter sempre aquele que esteja em expansão – que nesta altura é a China.

Mas a estratégia russa não coloca pressão no continente eurasiático? No sentido da desagregação da força que poderia ter?

Não, julgo que coloca uma pressão para definir a organização da Eurásia. Há vários cenários possíveis. Podemos assistir a uma aliança entre a Rússia e a China, que seria uma aliança que colocaria a União Europeia numa posição complicada, ou poderemos assistir a uma aliança mais informal entre a União Europeia, a Rússia e a China. Se o divórcio entre os Estados Unidos e a UE continuar isso não poderá ser excluído. Ou podemos assistir a um sistema que a Eurásia continua a ser um espaço integrado, mas com grande rivalidade, na qual os EUA mantêm uma posição de supremacia. Há vários cenários. Pode acontecer que um deles triunfe, pode ser que a rivalidade e o conflito continuem por mais algumas décadas ou que se chegue a um equilíbrio. Claramente todos [estes países] pensam no espaço eurasiático e não pensam na sua região, ou em unidades mais pequenas. O espaço claramente para as grandes decisões de política externa é a Eurásia.

“O plano chinês é que Portugal adira [à iniciativa Cintura e Rota] na visita do presidente Xi Jinping em 2019.”

Qual é o lugar de Portugal nesse espaço?

Portugal está nesta altura de uma grande disputa geopolítica e que tem a ver com o futuro da iniciativa chinesa, a Cintura e Rota – a nova rota da seda. A China está ativamente a tentar conseguir que alguns países da Europa Ocidental se juntem à iniciativa e um alvo óbvio onde as atenções estão concentradas é Portugal, com quem tem relações económicas profundas e onde julgam que é possível uma adesão formal à iniciativa. Fico bastante surpreendido que uma questão tão importante como a adesão de Portugal à Cintura e Rota, não esteja a ser discutida em público quando na verdade está a ser discutida nos bastidores. O plano chinês é que Portugal adira na visita do presidente Xi Jinping em 2019 e, curiosamente, a pressão vem não só da China, mas também da Alemanha e da França que têm tornado muito claro ao Governo português que vêem com muitos maus olhos essa adesão. Ou seja, para aqueles que pensam que Portugal está distantes destas questões, na verdade, está precisamente no centro com movimentações diplomáticas intensas, quer da China, quer da França para tentar garantir no caso chinês, que Portugal adira, e no caso francês para que Portugal não o faça.

E quais são consequências políticas e económicas que essa decisão pode ter para Portugal?

Evidentemente que Portugal teria de garantir para que num ponto tão valioso para a China como a adesão do primeiro país da Europa Ocidental que Portugal fosse recompensado por essa decisão. Não sei o que o Governo português pensa sobre isso. Do ponto de vista da Europa, o que se sente é que isso seria mais um passo numa espécie de divisão na União Europeia que a China tem tentado e prosseguido. Teve resultados na Europa do Leste e conseguiria agora na Europa Ocidental. Não creio que Portugal pagasse um peço, mas do ponto de vista de Bruxelas e Paris, a UE pagaria um preço por essa decisão do Governo português. Resta saber o que é que Portugal ganharia com essa decisão. Faltam poucos meses para que a decisão tenha que ser tomada, até ao fim do ano.

Mas do ponto de vista concreto, quais são as vantagens para Portugal?

Pode ganhar do ponto de vista económico se uma nova onda de investimento chinês chegar a Portugal. Isso terá que ser negociado com a China. Pode ganhar do ponto de vista político ao tornar-se um dos países europeus com relações mais próximas com a China e sobretudo seria interessante pensar que possa ser um primeiro passo de Portugal para voltar a ocupar uma posição de ligação entre a Europa e a Ásia que já ocupou no passado e que pode ser feita de diferentes maneiras. A participação nesta iniciativa chinesa pode ser uma forma de o fazer.

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