Cabo Verde: Correia e Silva toma posse contra desemprego e pobreza

O primeiro-ministro de Cabo Verde apontou o emprego e a redução da pobreza como prioridades do novo mandato, mantendo a necessidade de alívio da dívida externa para recuperar a economia.

Fernando de Pina / Lusa

O primeiro-ministro de Cabo Verde, Ulisses Correia e Silva, apontou o emprego e a redução da pobreza como prioridades do governo no novo mandato iniciado esta sexta-feira, mantendo a necessidade de alívio da dívida externa para recuperar a economia.

“O emprego, a eliminação da pobreza extrema e a redução da pobreza absoluta são as nossas grandes prioridades”, afirmou Ulisses Correia e Silva, após ter sido empossado pelo Presidente da República, Jorge Carlos Fonseca, para um novo mandato como primeiro-ministro, juntamente com os restantes 27 membros do VIII Governo Constitucional da segunda República.

“Lançaremos um forte pacote social dirigido às famílias em situação de pobreza extrema e economicamente vulneráveis e que integra o alargamento do acesso a rendimentos, a cuidados, à educação, à formação, à inclusão produtiva, à saúde, à segurança social e à habitação condigna”, prometeu o primeiro-ministro e líder do Movimento para a Democracia (MpD), partido que venceu as eleições legislativas de 18 de abril, mantendo a maioria absoluta no parlamento.

O governante disse que “a democracia funcionou mais uma vez” e “os cabo-verdianos livremente decidiram através do voto”.

O líder do governo acrescentou que o crescimento económico, o alívio da dívida externa, o aumento da resiliência e a diversificação da economia, são “prioridades económicas e ambientais” para este mandato, ainda fortemente marcado pelas consequências económicas e sanitárias da pandemia de covid-19.

Ulisses Correia e Silva apontou a necessidade de o país retomar o crescimento económico “para criar empregos e melhorar o rendimento das famílias”, mas também do alívio da dívida externa, “para libertar recursos para investimentos com impacto em transformações estruturais”.

“Somos um povo resiliente e inconformado com a pobreza. Hoje, na era atual, não temos que voltar aos poemas em que as cabras nos ensinavam a comer pedras para não padecermos e não termos de cantar também que os flagelados do vento leste nos tiravam esperanças”, reconheceu.

Prometeu igualmente medidas para fomentar o “aumento da resiliência e diversificação da economia, para reduzir as vulnerabilidades a choques externos económicos, ambientais e climáticos” e garantiu que o executivo está a trabalhar “para a retoma do turismo”.

“Queremos ganhar ainda o verão e, seguramente, cresceremos durante o inverno dos países emissores de turismo para Cabo Verde”, apontou, no discurso da tomada de posse.

“Sincronizado com as medidas de proteção devido aos efeitos da covid-19, um pacote de medidas está a ser trabalhado para apoiar a retoma e o relançamento dos negócios das empresas, particularmente as mais afetadas pelos efeitos da pandemia”, anunciou ainda.

Defendeu que a aposta deve continuar a passar pelo “aumento da resiliência e a diversificação da economia”, pelo que o programa do Governo “apostará forte no desenvolvimento do capital humano, na aceleração da transição energética, na ação climática, na estratégia da água para a agricultura, no desenvolvimento da economia azul e na economia digital”.

“Teremos uma atenção especial à indústria, nomeadamente a indústria farmacêutica e agroalimentar e extrativa”, garantiu, assumindo que este novo mandato será ainda orientado para o desenvolvimento sustentável.

Dirigindo-se aos restantes membros do Governo – que cresceu do elenco de 20 atingido dois anos após a posse do primeiro mandato, em 2016, para os atuais 28 – afirmou que governar “é uma missão dura e difícil, mas compensadora” pelo “serviço” prestado à nação: “Servir Cabo Verde é a nossa nobre missão para os próximos cinco anos. Estamos à altura dos desafios que se colocam a este país”.

Sobre as eleições legislativas, realizadas em contexto de pandemia, Ulisses Correia e Silva reconheceu que “não foi fácil conciliar a campanha eleitoral com a proteção através do distanciamento físico”, mas sublinhou que “a democracia não foi confinada”.

“Depois da campanha eleitoral e no dia seguinte à votação foi bom verificar o retorno à normalidade da vida por parte das pessoas, com um sentimento de dever de cidadania cumprido. A tranquilidade do povo pós-eleições, é o melhor indicador de que os cabo-verdianos confiam na democracia, confiam nas instituições. Não é por acaso que Cabo Verde é bem classificado nos ‘rankings’ internacional da liberdade e democracia”, destacou.

Contudo, alertou para “fenómenos como o populismo e o extremismo”, que “tendem a globalizar-se e a procurar terrenos férteis para se implantarem, crescer e desenvolver”, pelo que “é preciso continuar a cuidar, proteger e aprimorar a liberdade e a democracia”.

“É preciso continuar a apostar na estabilidade política e na paz social. Estes são dos maiores ativos de Cabo Verde que devemos preservar de forma perene”, disse.

Realçou que Cabo Verde deve posicionar-se, na relação com o resto do mundo, “como uma economia aberta, com uma relação cosmopolita, descomplexada, aberta à circulação de pessoas, proativa na atração e fixação de investimentos, capitais, tecnologia e conhecimento”.

Recordou que na anterior legislatura, Cabo Verde foi exposto a três anos de seca severa e à pandemia de covid-19, que travou o crescimento económico que se verificava, a uma média anual de 5%, “em ambiente de estabilidade macroeconómica e de consolidação fiscal” e “a caminho de um milhão de turistas”.

“Reforcemos o espírito da nação colocando-o acima dos combates político-partidários, criemos pontes de entendimento na divergência e na diversidade, coloquemos Cabo Verde acima de tudo, num quadro de uma democracia mais consolidada e de uma sociedade civil cada vez mais ciente dos seus direitos, mas também das suas obrigações”, apelou o primeiro-ministro.

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