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CEO da Ageas sobre interesse na Luz Saúde: “Olhamos para todas as oportunidades”

Cada vez mais as seguradoras estão a entrar em áreas diferentes dentro da cadeia de valor, realçou o presidente da Ageas Portugal. A Ageas Portugal revelou os números de 2024. Assim os resultados líquidos operacionais somaram 103 milhões de euros, caindo face a 120 milhões um ano antes.
AGEAS, Speakers
2 Abril 2025, 18h00

Luís Menezes, CEO da Ageas Portugal desde outubro do ano passado, num almoço com jornalistas, anunciou a sua visão para a companhia de seguros, os desafios para este ano e o novo ciclo estratégico 2025-2027  do Grupo.

O responsável da seguradora quer criar uma rede própria de unidades de saúde, sejam centros de saúde (cuidados primários), centros de diagnóstico ou mesmo unidades hospitalares podendo criar de raiz, ou, então, aproveitar algumas oportunidades de aquisição que estejam no mercado. Questionado sobre se admitem entrar no capital da Luz Saúde, uma vez que a Fidelidade está no mercado a procurar um parceiro de capital minoritário para a dona do Hospital da Luz, o CEO da Ageas foi peremptório a responder dizendo “estamos a olhar para todas as oportunidades que possam estar no mercado”.

A Fidelidade quer vender uma participação minoritária na Luz Saúde e contratou o banco Natixis para receber propostas.

Capacidade financeira não falta ao grupo Ageas que no ano passado fez uma oferta de mais de três mil milhões pela Direct Line que é uma companhia de seguros com sede em Bromley, Inglaterra, e que acabou por não ter sucesso.

A Ageas Portugal quer assim entrar na cadeia de valor dos cuidados de saúde, pois quer prestar os cuidados saúde e não apenas ter seguros de saúde. O CEO admite que essa prestação pode ser quer através de compras, criação de hospitais ou centros de diagnósticos de raiz ou até mesmo com parcerias. Já sobre a opção de Parcerias Públicas Privadas (PPP) Luís Menezes mostrou menos interesse. “Diria que não rejeitando, é algo que teria de ser muito bem visto, como se compaginaria os doentes do SNS com os nossos doentes. É mais complexo”.

O novo ciclo estratégico tem o foco em três vertentes, no cliente; nos canais de distribuição e na eficiência (o que inclui as pessoas).

As prioridades são o “reforço da importância do cliente dentro da organização; o foco em todos os nossos canais de distribuição; e por fim o foco na eficiência porque quanto mais eficientes formos maior é a competitividade dos nossos produtos, mesmo do ponto de vista do preço, e as pessoas, que são o nosso maior ativo”, disse o CEO.

“Queremos focarmo-nos em menos coisas e trabalhar mais perto do core do setor segurador”, sublinhou.

Luís Menezes acrescentou ainda a intenção de investir na área do setor automóvel, ao nível da “pequena reparação”, e “quebra individual de vidros”.

Cada vez mais as seguradoras estão a entrar em áreas diferentes dentro da cadeia de valor, realçou o presidente da Ageas Portugal.

“O grupo Ageas está em três países na Europa, na Turquia e em vários países na Ásia, são mercados que estão a evoluir de forma muito diferente”, realçou o CEO da seguradora em Portugal.

“Por sermos um grupo grande temos a capacidade de olhar para várias oportunidades, sejam PPP, sejam grupos de diagnóstico, sejam grupos hospitalares que possam vir para o mercado e que iremos analisar. Mas também podemos fazer isto organicamente”, disse Luís Menezes que destacou que o setor privado da saúde tem assistido a uma subida da procura, o que é um sinal que “o SNS perdeu capacidade”.

“Uma coisa é certa vamos continuar a investir, temos uma aquisição para breve na área da fisioterapia, e vamos continuar a fazer este caminho”, afirmou Luís Menezes que lembrou a ligação entre a fisioterapia e área dos acidentes de trabalho, por causa da reabilitação. Esta aquisição junta-se a outra do mesmo setor que vai pôr a Ageas na liderança desta área.

Recorde-se que em junho do ano passado, o Grupo Ageas Portugal fez uma aquisição de 100% do capital social da OneStone – Health Care Investments ao Grupo Santo. A OneStone é titular de uma rede de clínicas de medicina física e de reabilitação que opera em território nacional, com o nome de marca One Clinics.

“Vamos comprar um novo grupo de fisioterapia português nos próximos meses”, revelou o CEO da Ageas que acrescenta que “vamos continuar a olhar para a possibilidade de crescer quer via aquisição, quer via orgânica, na área do diagnóstico, seja na área hospitalar”.

O CEO da companhia revela que “quisemos testar a criação dos ecossistemas e claramente o ecossistema da saúde saiu vencedor e é uma aposta nossa agora no novo ciclo estratégico”, mas não se compromete com uma calendário porque depende do que virá para o mercado e o que for orgânico exige tempo de preparação.

Esta é uma forma de ir controlando o aumento dos preços dos seguros que vem do aumento dos custos de prestação (que aumentaram 25%).

Luís Menezes falou ainda dos planos de poupança europeus que falharam por causa da fiscalidade, referindo-se aos Produtos Pan-Europeus de Pensões Pessoais (PEPP). “Em 2070 as pessoas vão receber de pensão de reforma 37% do salário” disse falando da importância da poupança. “É preciso ensinar as pessoas a poupar e por isso a literacia financeira não é uma questão política”, disse, lembrando ainda que faltam apoios fiscais à poupança, o que é fundamental.

O CEO lembrou que 67% do dinheiros dos portugueses está em depósitos à ordem e destacou que “as seguradoras também são um veículo de poupança”.

No passado o grupo foi “para além dos seguros” e questionado se vai manter essa estratégia no plano estratégico, Luís Menezes disse que investiram em quatro áreas. Criaram a Ageas Repara (para dar serviço na área do ramo multirisco habitação); criaram a Pétis, empresa de serviços produtos e informações para cães e gatos; criaram a marca de serviços Livo para soluções de habitação na área de sustentabilidade (janelas e painéis solares, etc); e ainda tiveram a Kleya, um projeto que facilitava e agilizava o processo de estabelecimento de estrangeiros de elevados rendimentos que pretendessem residir, trabalhar ou estudar em Portugal, prestando um apoio personalizado e transversal desde a consultoria de investimento, procura de casa, serviços de assistência (assistentes pessoais) a todo o tratamento burocrático. Mas a Kleya foi fechada há um ano, o ecossistema da Pétis foi desativado e mantiveram apenas o seguro para os animais; e a Livo foi encerrada em fevereiro deste ano, tudo porque não foram atingidos os objetivos pretendidos.

O CEO da Ageas diz que estão focados no sistema de ecossistema no multirrisco habitação e na saúde (numa lógica de ligação da Médis com as clínicas Médis).

“A saúde é uma área em que queremos crescer em tudo aquilo que vai para lá dos seguros, queremos entrar na cadeia de valor”, reforçou.

Ageas Portugal com resultados líquidos operacionais a caírem em 2024

A Ageas Portugal revelou os números de 2024. Assim os resultados líquidos operacionais somaram 103 milhões de euros, o que compara com 120 milhões um ano antes. O CEO da seguradora referiu que os resultados líquidos estão “muito próximos” dos resultados líquidos operacionais, mas não revelou o número.

A queda de 14,2% dos resultados líquidos operacionais deve-se em parte aos resultados negativos no ramo automóvel, explicou. Os resultados negativos do setor automóvel são provenientes dos últimos dois anos.

“Também tivemos um conjunto de write-offs de balanço que também contribuíram para estes resultados”, explicou.

Luís Menezes diz que “temos o desafio de olhar para a frente e querer recuperar a rentabilidade que perdemos este ano”.

“Mas a nossa ambição é liderar a nível de experiência do cliente em Portugal, vamos continuar a olhar para oportunidades de crescimento por aquisição na área vida e não vida”, afirmou.

A atividade seguradora (Vida e Não Vida) do mercado português registou um crescimento de 21,1% atingindo de 14.308 milhões de euros em produção de seguro direto.

No ramo não vida o crescimento foi de 10,4% impulsionado pela saúde (+17,5%); acidentes de trabalho (+9,4%); e auto (+9,8%).

No ramo vida o crescimento foi expressivo de 34,9% com destaque para a subida de 47,8% dos PPR; e de 47,1% dos produtos de capitalização.

O impacto do Grupo Ageas Portugal está espelhado no crescimento do segmento vida que foi impulsionado (+50,9%). Sem o Grupo Ageas, o crescimento do mercado Vida seria de 31,8%.

O volume de negócios em 2024 da Ageas Portugal ascendeu a 2,4 mil milhões de euros, crescendo face aos 1,8 mil milhões em 2023. O crescimento da faturação vem do lado dos produtos financeiros.

O rácio de solvência da seguradora é de 234%, o que o CEO disse ser “muito robusto”.

Em quotas de mercado, a Ageas em termos globais tem em Portugal 15,5% (é o segundo maior do mercado). No ramo não vida tem 14,5% (está em 3º lugar); no ramo vida tem uma quota de 18,1% (segundo do mercado); nos Fundos de Pensões são o número um com uma quota de 32,5% e na saúde estão em segundo com 27,4%.

A Ageas tem uma rede exclusiva  composta por 78 agentes gerais exclusivos e 164 lojas; a rede multimarca tem 850 agentes e 80 lojas com imagem Ageas; e a rede private tem 404 consultores.

Recorde-se que a Ageas tem também uma parceria com o BCP há mais de 20 anos que é um case study de bancassurance em toda Europa e o CEO da companhia diz que a jont-venture “tem muito potencial para dar e é o nosso canal mais relevante, em dimensão, em vida e não vida”.

O grupo destacou ainda a Fundação Ageas que está focada em três áreas críticas, na saúde, envelhecimento e exclusão social. O apoio à comunidade no ano passado ascendeu a 1,4 milhões de euros.

Na sustentabilidade tem dois edifícios sede (o Ageas Tejo e Icon Douro) com certificação BREEAM.

O grupo Ageas gere um bilião de euros em ativos sustentáveis.

Sobre o tema do risco sísmico, o CEO da Ageas considera que é uma oportunidade para o país. Mas reconhece que a criação do fundo sísmico para a proteção do bem comum (um sistema de cobertura do risco de fenómenos sísmicos em Portugal) só será acessível se for muito mutualizado, e para isso teria de ser obrigatório para todos.

O presidente da Ageas  frisou que quer mostrar a relevância que o setor segurador tem para a economia. Não apenas para a proteção dos segurados, para a poupança dos portugueses, mas também a importância do setor no tecido económico português.

O setor segurador teve um impacto de 11 mil milhões na economia em 2023 e em 2024 o CEO estima que esse impacto seja de 13 mil milhões, disse, referindo-se aos sinistros pagos que voltam para a economia.

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