Como mobilizar populações digitalmente excluídas para uma eleição durante uma pandemia?

A pandemia e as restrições à mobilidade não só ameaçam motivar uma abstenção ainda maior do que a habitualmente registada em Portugal, mas também dificultaram o acesso de populações com menos presença nos canais digitais à campanha que antecede o ato eleitoral deste domingo.

A eleição presidencial deste domingo tornar-se-á histórica por se realizar num momento em que a pandemia de Covid-19 se encontra no pico em território nacional, com vários dias consecutivos de recordes absolutos de óbitos relacionados com a doença e mais de 10 mil casos confirmados, o que ameaça a participação num país de níveis cronicamente elevados de abstenção. Mas já outras eleições marcantes foram realizadas em contexto pandémico, mais notoriamente as presidências norte-americanas.

Embora em fases diferentes da evolução da doença, os EUA realizaram a eleição geral de 2020 com números elevados de mortes e infeções que tornaram o país no mais afetado do mundo pela Covid-19. No entanto, a afluência às urnas do outro lado do Atlântico foi notável, constituindo mesmo um recorde em mais de 100 anos.

Apesar das óbvias diferenças em termos de cenário e implicações políticas, importa notar como contribuiu a sociedade civil e organizações não-governamentais (ONGs) para a mobilização dos eleitores norte-americanos, em particular de comunidades com baixa participação eleitoral e bastante excluída do espaço digital, onde decorre grande parte da comunicação numa altura de restrições ao contacto.

“[A chave é] encontrar organizações locais que tenham ligações estabelecidas com a comunidade e ter a sua ajuda na comunicação da mensagem às pessoas”, começa por explicar ao Jornal Económico (JE) Raj Aggarwal, especialista em comunicação e tecnologia e presidente da Provoc, uma consultora de comunicação e marketing focada no trabalho junto de ONGs e empresas socialmente responsáveis.

Citando a luta contra as maiores doenças e contra as desigualdades sistémicas como a sua principal prioridade, a Provoc tem vindo a colaborar nos últimos anos com campanhas de sensibilização de voto ou em projetos ligados à comunicação digital para populações com baixa literacia na área, duas temáticas que se cruzam no caso da eleição de 24 de janeiro.

“Os desafios são, por um lado, haver essa parte da população que não tem computadores e, como tal, não só é digitalmente iliterada, como nem tem acesso aos meios para fazer parte desta comunicação”, como sucede com grande parte da população mais idosa em Portugal, “mas por outro haver todo um outro grupo chamado de baixa literacia, que, independentemente do nível de educação, levam as coisas que veem na internet de forma diferente pela quantidade de informação com que são alimentadas”, argumenta Aggarwal.

A promoção da literacia e das competências digitais é um dos objetivos enunciados pelo Governo, que criou, na anterior legislatura, a Iniciativa Nacional Competências Digitais e.2030 (INCoDe.2030).

Um dos trabalhos da Provoc focou-se precisamente na comunicação em tempos de Covid-19 a populações idosas com poucos conhecimentos informáticos e, nalguns casos, baixos níveis de educação. A consultora defende que a mensagem nestes casos é mais eficiente quão mais simples for, tanto em termos de conteúdo, como visualmente, se apelar ao lado psicológico do recipiente e, de preferência, que permita a construção de uma relação duradoura, um elemento chave na confiança necessária para o processo.

A empresa de Aggarwal levou a cabo uma campanha em específico, chamada “Together We Vote” (“Juntos Votamos”), desenhada para incentivar a participação eleitoral de jovens de várias minorias étnicas presentes nos EUA. Cientes da alienação que muitas vezes estas comunidades sentem, o presidente da Provoc advoga uma comunicação de proximidade, através de organizações estabelecidas e com credibilidade junto das populações que previnam a “dissociação” que frequentemente ocorre nas redes sociais.

“Faça-se campanha especificamente para estes eleitores jovens, façamo-los ver que são quem têm mais poder. Durante os quatro anos que temos feito este projeto, é visível que os crescimentos na participação de eleição para eleição têm sido cada vez maiores”, congratula-se.

A verdade é que, em estados-chave como a Georgia, a eleição para o próximo presidente dos EUA se decidiu por poucas dezenas de milhar de votos, pelo que a mobilização recorde de eleitores de determinadas minorias, sobretudo afro-americanos e latinos na zona metropolitana de Atlanta, terá de facto tido um impacto no resultado final.

“No final de contas, a tecnologia não resolverá tudo e alguns assuntos dependerão muito da forma como os abordamos: a relação entre as organizações comunitárias e as de larga escala na comunicação de uma mensagem e contributo que os governos ou filantropos possam dar para diminuir esta barreira digital”, prevê.

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