Como o PCP vê os outros: comprometidos com o capital, promovidos pelos média e a branquear o passado

“Teses” que serão discutidas no XXI Congresso do PCP apontam críticas generalizadas aos restantes partidos (tirando o aliado PEV) na “rearrumação” em curso. Convergência entre PS e PSD e “anticomunismo” do Bloco de Esquerda e PAN integram rol de acusações que também passam pela “dinâmica fascizante” do Chega.

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João Relvas/Lusa

O PCP não poupa críticas a nenhum partido, a não ser o tradicional aliado PEV, na parte do documento do Comité Central que será discutido no XXI Congresso, marcado para 27, 28 e 29 de novembro, que é dedicada ao quadro político e partidário de Portugal. As “Teses – Projeto de Resolução Política” elaboradas pelos comunistas indicam “elementos de posicionamento e rearrumações do quadro partidário” a que não são alheias a intervenção do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, “procurando favorecer uma aproximação formal entre PS e PSD favorável a um desenvolvimento menos condicionado das opções que têm marcado a política de direita”.

Segundo o documento do Comité Central do PCP, o PS “mantém as mesmas opções estruturais de compromisso com o grande capital e de submissão à União Europeia e ao euro”, mas com o seu Governo minoritário “agora mais liberto” devido à correlação de forças resultante das legislativas de 2019. Assim sendo, apesar das “reiteradas afirmações de soluções à esquerda”, converge cada vez em matérias decisivas com o PSD na “prioridade aos interesses do grande capital em detrimento do trabalho”, na “absolutização da redução do défice e da dívida em prejuízo das necessidades de investimento e valorização da Administração Pública e dos seus serviços”, e ainda a “prioridade a opções assistencialistas em prejuízo de uma mais justa distribuição da riqueza produzida”.

No que toca ao PSD, as “Teses – Projeto de Resolução Política” destacam o “esforço de reposicionamento” em curso, tendo em vista “branquear ou apagar responsabilidades recentes na política de retrocesso social e declínio económico que impôs ao país”, o que também é apontado ao CDS – mas de forma mais sucinta, sendo os centristas aqueles que menos interessam à análise comunista -, partilhando também as críticas ao “reacionarismo” dos partidos que governaram em coligação quando Pedro Passos Coelho era primeiro-ministro.

O PCP defende que o PSD “continua a ser tido pelo grande capital como instrumento de promoção da política de direita”, o que acontecerá “apesar das frequentes convulsões e disputas internas” dos sociais-democratas, cujo último congresso foi encarado pelos comunistas como um momento de “formulação de um projeto político reacionário” centrada na “ambição de alterações” à Constituição e às leis eleitorais e de “subversão” da Segurança Social e do Serviço Nacional de Saúde.

Ao Bloco de Esquerda e ao PAN é reconhecido o usufruto de “promoção mediática” – em contraste com o “silêncio e menorização” de que o PEV é “alvo pela comunicação social” – e assinalado o “preconceito anticomunista” (Bloco) e “anticomunismo primário” (PAN), mas a crítica principal apontada nas “Teses” difere entre esses dois partidos. Enquanto nos bloquistas haverá “uma agenda e um posicionamento assentes num verbalismo que não altera no essencial o seu carácter social-democratizante”, patente nas “posturas federalistas assumidas no quadro da União Europeia”, na “submissão ao ambiente ideológico dominante” e no “alinhamento com objetivos do imperialismo e revisionismo histórico em curso”, ao PAN é mesmo denunciado “uma indisfarçável convergência com componentes da política de direita e interesses do grande capital” no “discurso demagógico” e na ação centrada na defesa dos animais e algumas matérias ambientais.

Também não foram esquecidas pelo PCP as três novas forças políticas que elegeram deputados nas legislativas de 2019. Quanto ao Livre, que terá procurado “apresentar-se como força de causas e de influência em meios urbanos, nem sempre assumindo o seu carácter social-democratizante e federalista”, as “Teses” concluem que a perda de representação parlamentar (com a passagem de Joacine Katar Moreira a não inscrita) foi um desenvolvimento “que não está desligado da natureza e posicionamentos que alimentaram a sua base eleitoral”. Por seu lado, a Iniciativa Liberal e o Chega são apresentados como “sucedâneos do PSD e do CDS, associados aos centros mais reacionários do capital e que intervêm para projetar valores e conceções antidemocráticas e intensificar a ofensiva ideológica dirigida contra os trabalhadores”.

Ao Chega, no entanto, é dedicada atenção particular nas “Teses – Projeto de Resolução Política” do PCP, pois é defendido que o “discurso demagógico de exacerbação de temas que identifica como suscetíveis de apoio” acaba por esconder “deliberadamente o seu papel ao serviço do capital” e a “dinâmica fascizante presente na sua ação” e nos objetivos expressos no programa do partido fundado e presidido por André Ventura, que “de forma explícita, propõe a liquidação do Serviço Nacional de Saúde, da escola pública e a subversão do regime constitucional”.

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