Como os ’emprestados’ na Liga Portuguesa escondem ‘relações perigosas’ entre clubes

Os empréstimos têm um lado menos claro que ajuda a explicar o enorme fosso dos ‘grandes’ para os outros e, consequentemente, a dependência dos ‘pequenos’ para ‘águias’, dragões’ e ‘leões’.

É a décima nona equipa da Liga Portuguesa e parte fulcral no atual quadro competitivo do futebol profissional em Portugal. Para esta época, os ‘grandes’ emprestaram 26 atletas aos outros clubes do mesmo campeonato, garantindo assim que as equipas a quem emprestam ficam mais fracas nos duelos diretos (porque os emprestados não podem defrontar o clube de origem, ao contrário do que acontece em competições como a Liga dos Campeões ou Liga Europa) e que os mesmos emblemas fiquem mais fortes perante os rivais. A regra dos empréstimos é clara (cada clube pode receber, no máximo, três jogadores emprestados por emblema) mas a norma já foi ultrapassada com as contratações a custo zero de atletas (provenientes dos ‘grandes’) mas com cláusula de recompra, o que basicamente faz com que existam jogadores com uma espécie de empréstimos de longa duração. Tudo estaria correto se o objetivo dos empréstimos passasse apenas pelo desenvolvimento dos atletas e equilíbrio da competitividade na Liga. No entanto, os empréstimos têm um lado menos claro que ajuda a explicar o enorme fosso dos ‘grandes’ para os outros e, consequentemente, a dependência dos ‘pequenos’ para ‘águias’, dragões’ e ‘leões’.

Desvirtuamento da verdade desportiva
“A propagação desta questão dos empréstimos pode levar a um desvirtuamento da verdade desportiva”, realça Rui Pedro Braz em entrevista ao Jornal Económico. O comentador desportivo defende que, em virtude do que está previsto nas regras de empréstimos, “há aqui um claro desequilíbrio do quadro competitivo”. Para Rui Pedro Braz existe uma questão que está no cerne desta temática: “Porque é que, por norma, os regulamentos protegem os clubes grandes? Porque por norma são os clubes grandes que conseguem fazer passar as suas ideias em Assembleias Gerais da Liga nas actualizações de regulamentos. Porque conseguem juntar aliados em torno das propostas que apresentam e isso só é possível por via da questão dos empréstimos”. No entanto, os empréstimos entre clubes da Liga Portuguesa são fundamentais para esbater o desequilíbrio de forças: “Se não fossem os jogadores emprestados pelos clubes ‘grandes’ aos mais ‘pequenos’, os clubes da principal Liga portuguesa não tinham capacidade para ter plantéis competitivos porque há um desequilíbrio de forças muito grande no futebol português e uma dependência também de grande dimensão relativamente aos ditos ‘grandes’”, defende o comentador desportivo. E essa dependência não passa apenas pelos emprestados mas também pelas receitas que os mais ‘pequenos’ garantem quando recebem a visita dos três ‘grandes’.
E perante o limite colocado na lei dos empréstimos, os ‘grandes’ trataram de explorar as lacunas da lei aumentando assim o contingente de jogadores em equipas com menos argumentos competitivos: cede-se um atleta a título definitivo e o clube de origem fica com 50% dos direitos económicos garantindo uma cláusula de recompra simbólica. “Se isto continuar a acontecer, corremos o risco de ter várias equipas da Liga com seis, sete, oito jogadores, dez jogadores emprestados pelos grandes”, assegura Rui Pedro Braz. O comentador desportivo considera que “esta é das situações mais urgentes para regulamentar, isto tem implicações económicas, desportivas, legais e tem implicações em termos do que é a progressão da carreira de um jogador”.
No meio da teia de interesses que envolve as relações dos clubes da Liga Portuguesa, e no que se relaciona com os empréstimos, há um aspeto que é raramente acautelado e que deveria ser, para todos os efeitos, o primeiro objetivo quando um atleta é emprestado: o desenvolvimento do próprio jogador. “Muitas vezes”, sublinha Rui Pedro Braz, “o jogador não tem uma palavra a dizer sobre estas movimentações e o atleta acaba por aceitar porque não quer entrar em choque com a entidade patronal ou criar problemas que possam chocar com a sua progressão de carreira”.

Votos na Liga: Uns contra os outros
No turbulento ambiente do futebol português, aceita-se que existam clubes que, em virtude dos empréstimos, votem ao lado do clube que lhes empresta jogadores? Para Rui Pedro Braz, essa situação “cria uma ideia que a competição, em vez de serem todos contra todos, são uns contra os outros, uma situação em que uns ajudam a assegurar a manutenção de outros ou a garantir o título. Isso não é saudável”. E a ‘salubridade’ das relações entre clubes no futebol português diz muito daquele que é o enorme distanciamento para competições que já perceberam que o futebol só pode sobreviver enquanto modelo de negócio sustentável e que ajude a equilibrar, de forma saudável, a rentabilidade dos clubes mais ‘pequenos’. “O futebol português está a caminhar para um rumo muito perigoso porque os dirigentes não têm cultura desportiva suficiente, não têm ‘know-how’ do negócio, não têm distanciamento suficiente para se puderem sentar à mesa e discutir os verdadeiros problemas do futebol de forma que esta modalidade possa evoluir de uma forma positiva para todos enquanto negócio”, recorda o comentador desportivo.

“Cada um quer ganhar a todo o custo”
Em Inglaterra, exemplo máximo do futebol negócio traduzido em futebol espetáculo (e onde, importa recordar, não é possível o empréstimo de jogadores a emblemas do mesmo escalão), os clubes pararam para pensar, como recorda Rui Pedro Braz em entrevista ao Jornal Económico: “Estava-se a chegar a um ponto de rutura na liga inglesa (os clubes ingleses estavam a perder peso na Europa) e de repente, criou-se a Premier League porque todos se sentaram para trabalhar de forma criar uma marca, um futebol negócio, e caminhou-se na direcção do que é hoje uma das melhores Ligas do mundo”.
E em Portugal, é possível equacionar alguma mudança para os próximos anos? O comentador desportivo e jornalista não vê forma disso acontecer, pelo menos com o atual quadro de dirigentes do futebol português: “Em Portugal, estão todos fechados sobre si próprios, cada um quer ganhar a todo o custo sem querer saber o rumo que o futebol português está a seguir. E isso é grave. Os dirigentes não têm qualquer problema em matar o negócio desde que a sua marca floresça e o seu clube atinja resultados desportivos. Mas há que perceber uma coisa: ninguém joga sozinho! Existe um fosso cada vez maior entre os três grandes e os outros e se esse fosso atingir uma dimensão esmagadora, os clubes mais pequenos vão fechar portas porque não têm hipóteses de continuar a suportar os custos que o futebol profissional tem hoje em dia. Hoje praticam-se salários milionários nos clubes grandes e existia um grande amadorismo nos ‘grandes’. Portanto, o fosso que existia era de dimensão desportiva e não um fosso de dimensão financeira como aquele que existe hoje. Caminhamos para um monopólio e qualquer dia temos os três grandes a jogar entre si”.

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