Como surge a criatividade? É tudo uma questão de “trégua com as ideias”, diz Harrison Birtwistle

Um dos mais relevantes nomes da música erudita, da atualidade, defende que “as ideias provêm “do instinto”.

O compositor britânico Harrison Birtwistle, que esteve no Porto para participar no Fórum do Futuro, explicou, em entrevista à Lusa, que a criatividade surge como “uma trégua com as ideias”, o que altera o resultado final.

“Não posso sentar-me à mesa e pensar ‘esta manhã, vou ser original’. Não dá. Tem-se uma ideia, e és um sortudo se conseguires ter uma trégua com essa ideia, é a sua natureza. Esse lado é instintivo”, afirma, em entrevista à Lusa, na Casa da Música, no Porto.

As ideias provêm “do instinto”, considera o antigo clarinetista, que cresceu “no seio de uma família de classe trabalhadora” na qual sentiu “estar a ser encaminhado para ser músico numa orquestra”.

“Não queria. Nada contra músicos, mas o meu coração não estava ali. (…). Desde que me conheço era criativo, mas não pensava nisso, todos os miúdos na minha escola eram criativos. Uns é que faziam melhor que outros”, declara.

Birtwistle considera a sua música “uma afirmação política de liberdade”, embora sublinhe que a influência de temas de política e da atualidade no processo criativo “nunca vai acontecer de forma consciente”.

“Nunca pensei nisso, em estar num lado ou escrever música emblemática de uma dada situação. Nem saberia o que fazer, já acho difícil que chegue a fazer o que faço no campo técnico, quanto mais colocando outro fator que me torna menos livre… Quero fazer parte do mundo, e estar do lado da verdade, isso sim”, atira.

No Fórum do Futuro, em que foi convidado para falar sobre a influência da Grécia antiga e dos clássicos no seu trabalho, Birtwistle ensaiou “um dia” com oito pessoas, formando um coro com máscaras postas, um trabalho reminiscente do que levou a cabo em 1981, na produção do Royal National Theatre da “Oresteia”, e, depois, na ópera “The Mask of Orpheus” (1986).

Um coro possui “uma linguagem mais rica, como a plateia de um jogo de futebol, em que seguem todos a mesma equipa, mas têm vozes individuais”, contrariando a ideia “errada” em que “num coro todos dizem o mesmo”.

Para o interesse na mitologia, que abordou em obras como “The Mask of Orpheus” e “The Minotaur”, o britânico não encontra uma resposta, mas confessa-se “uma espécie de amador” na sua relação com ela.

Confessa o fascínio, já de longa data, com a figura de Orfeu, que trabalhou, durante quase uma década, na ópera estreada no início da década de 1970 – “The Mask of Orpheus” – e que, em 1985, recebeu o primeiro Prémio Grawemeyer de composição musical.

Orfeu, para Birtwistle, é uma das personagens que, pela sua riqueza, constituem “o pacote total”, em termos de capacidade de representação da humanidade.

Birtwistle destaca-o por ser também um mito “sobre a música” além de ser o que é “sobre o resto da vida, como o amor e a morte”.

Para o compositor, “a simplicidade é a complexidade destilada”, um lema que ajuda a explicar a proximidade e gosto por um tipo de escrita mais “pelo lado mecânico, embora também haja a música lírica”. E recorda “Keyboard Engine”, uma recente composição para dois pianos que é “como uma máquina, brutal”.

“Em Londres vão interpretar em breve uma outra peça, mais antiga, a que chamei ‘Harrison’s Clock’ [‘Os Relógios de Harrison’, em tradução livre], sobre John Harrison, que criou o primeiro relógio marítimo de alta precisão, e que brinca com este duplo sentido do nome Harrison”, conta o compositor.

Galardoado com a Ordem dos Cavaleiros de Honra pela coroa inglesa, Birtwistle revela ainda estar “deslumbrado com o nível de interpretação”, com “os instrumentos”.

“Na Royal Academy, interpretaram uma peça minha, para cinco instrumentos, e começaram por me dizer que era impossível de tocar, depois que precisariam de um maestro. E acabaram a tocar a peça de memória”, aponta.

Harrison Birtwistle tem fama de escrever composições difíceis, mas o compositor não considera que o faça “de propósito”, diz à Lusa.

“Não parto com a intenção de escrever uma peça difícil, apesar de já mo terem dito. São difíceis, como foram difíceis para mim também”, nesse processo de “tréguas com as ideias”, até atingir a sua forma final.

Na vida, Birtwistle foi sempre “alguém que fez o seu trabalho e depois ia à vida”, confessa à Lusa. Por isso viveu em França e “numa ilha na Escócia durante dez anos”, não por “uma necessidade de proteção”, mas por gosto.

“Tenho sido sortudo que chegue na vida para poder viver como quero, e gostava que toda a gente pudesse viver assim. Espero que esteja a ajudar as pessoas a chegar lá com o meu trabalho, mas não de uma forma consciente”, conclui.

Harrison Birtwistle nasceu a 15 de julho de 1934, em Accrington, no Lancashire, e depois de vários anos a aprender clarinete, ainda jovem começou a compor.

Estudou no Royal Manchester College of Music, estabeleceu-se como compositor em Princeton, com uma bolsa, em 1965, estreou a primeira ópera, “Punch and Judy”, em 1967, no festival de Aldeburgh, no Suffolk, no Reino Unido.

Em 1972, compôs para o filme “The Offence”, de Sidney Lumet, com Sean Connery no principal papel, naquela que foi a única banda sonora para cinema que criou. Em 1975 assumiu o cargo de diretor musical do Royal National Theatre, em Londres.

A sua obra estende-se da ópera, com mais de uma dezena de dramas compostos para palco, à música instrumental, coral, vocal, para orquestra e conjuntos de câmara, num conjunto de grandes peças que fazem de Birtwistle um dos mais relevantes nomes da música erudita, da atualidade.

Foi compositor em residência da Casa da Música, em 2017, ano dedicado ao Reino Unido, na programação da instituição.

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