Congresso dos Estados Unidos ainda tem cinco incógnitas um mês depois das eleições

Dois lugares no Senado serão decididos numa segunda volta, marcada para 5 de janeiro, enquanto a Câmara dos Representantes aguarda por um duelo entre dois republicanos e pelas batalhas judiciais que devem ser travadas por dois candidatos democratas que ficaram a um punhado de votos das vencedoras. Elevado número de boletins enviados pelo correio atrasou escrutínio sobretudo nos estados da Califórnia e de Nova Iorque.

Um mês depois das eleições que ditaram a vitória do democrata Joe Biden sobre o atual presidente republicano Donald Trump, apesar de este ainda não ter reconhecido a desvantagem no colégio eleitoral e no total de votos apurados, sucedendo-se alegações de fraude eleitoral que até agora não obtiveram acolhimento junto dos tribunais, ainda há incógnitas quanto à identidade de cinco titulares do próximo Congresso dos Estados Unidos, que tomará posse a 3 de janeiro de 2021.

Entre os 35 lugares do Senado que foram a votos no mesmo dia em que os norte-americanos decidiram quem ficaria na Casa Branca nos quatro anos seguintes – em boa verdade, não necessariamente no mesmo dia, pois a pandemia de Covid-19 generalizou o recurso ao voto presencial antecipado ou pelo correio – dois continuarão por preencher aquando da reabertura dos trabalhos. E ambos em representação do estado da Georgia, onde a lei eleitoral exige mais de 50% dos votos válidos, o que não foi conseguido por nenhum dos dois republicanos que procuravam reeleger-se.

Assim sendo, a decisão final ficou adiada para 5 de janeiro, sabendo-se então (ou uns bons dias depois, caso se repita o que aconteceu no mês passado) se Joe Biden poderá contar com Kamala Harris, que presidirá ao Senado na qualidade de vice-presidente dos Estados Unidos, para desfazer o empate 50-50 no Senado que existirá se os democratas vencerem essas duas segundas voltas.

David Perdue ficou muito perto de garantir a manutenção da maioria republicana na câmara alta do Congresso dos Estados Unidos, chegando ao final da morosa contagem de votos na Georgia com 49,7% do total, contra 48,0% do rival democrata Joe Ossoff, que carrega no currículo uma derrota, precisamente à segunda volta, numa anterior tentativa de se tornar congressista em representação de um dos círculos do estado.

Mais difícil poderá ser a missão da também atual senadora Kelly Loeffler, uma empresária que é uma das donas da equipa de basquetebol feminino Atlanta Dream, pois só conseguiu 25,9% numa primária em que enfrentou um rival republicano apoiado por Donald Trump, acabando superada pelo democrata Raphael Warnock. O pastor da mesma igreja de Atlanta em que Martin Luther King pregou obteve 32,9% na primeira volta, e terá a seu favor a forte mobilização do eleitorado negro que ajudou Biden a superar Trump no estado sulista, sendo o primeiro candidato presidencial democrata a consegui-lo desde 1992.

Também na Câmara dos Representantes, câmara baixa do Congresso que tem a responsabilidade de aprovar leis, permanecem três dúvidas sobre a identidade dos próximos titulares, sendo certo que os democratas conservarão a maioria, com pelo menos 222 congressistas, enquanto os republicanos podem chegar a 213 graças a mais de uma dezena de conquistas. Certo está que elegerão um mínimo de 211, pois o quinto círculo do Louisiana terá neste sábado uma segunda volta entre os dois candidatos mais votados a 3 de novembro, ambos republicanos, que procuram suceder ao veterano Ralph Abraham. O seu antigo chefe de gabinete, Luke Letlow, tem o apoio de Abraham e vantagem na primeira volta, mas o empresário Lance Harris procura colar-lhe a imagem de político profissional.

Claramente bem orientada para finalmente entrar na Câmara dos Representantes, após várias tentativas falhadas, a médica e militar na reserva Mariannette Miller-Meeks conquistou o primeiro círculo do Iowa para o Partido Republicano, suplantando a democrata Rita Hart, mas o mais certo é que esta última impugne os resultados. Uma prolongada luta nos tribunais deve ser o passo seguinte, depois de uma recontagem de todos os boletins de voto ter reduzido a vantagem de Miller-Meeks de 282 para apenas seis, com 196.964 eleitores contra 196.958 da rival.

E ainda mais complexa pode ser a situação no 22.º círculo de Nova Iorque, pois os 12 votos de vantagem da republicana Claudia Tenney sobre o incumbente Anthony Brindisi poderão ser facilmente revertidos caso um juiz decida na próxima segunda-feira que alguns boletins de voto recusados em primeira instância deverão ser escrutinados. Certo é que os votos enviados pelo correio favorecem o democrata, que tinha uma desvantagem de mais de 28 mil votos nas urnas.

Devido ao elevado número de votos enviados por correio e a problemas variados no escrutínio foram muitos os lugares na Câmara dos Representantes que ficaram em aberto semanas após as eleições. No 25.º círculo da Califórnia só a 1 de dezembro é que a democrata Christy Smith reconheceu a derrota para o incumbente republicano Mike Garcia, enquanto no 21.º círculo do mesmo estado o atual congressista democrata TJ Cox ainda não felicitou o republicano David Valadao, um empresário agrícola lusodescendente do Vale de São Joaquim que recuperou o lugar em Washington que perdera para o rival em 2018. Ambas as corridas eleitorais arrastaram-se, com sucessivas descargas de boletins a serem acrescentados de tantos em tantos dias até ficar claro para organizações noticiosas como a Associated Press e a ABC News de que os vencedores estavam encontrados.

Também muito demorada foi a descoberta de vários vencedores das eleições no estado de Nova Iorque, tendo os democratas registado três vitórias e os republicanos mais duas depois de 15 de novembro. Também para mais tarde, devido à chegada de boletins por correio, ficou a confirmação de que o republicano Burgess Owens venceu o quarto círculo do Utah, sendo apenas um de dois eleitos negros desse partido na Câmara dos Representantes, mas as incertezas resultantes da chegada de votos a conta-gotas conduziu a situações tão bizarras quanto a Associated Press só ter confirmado a vitória da republicana Nicole Malliotakis no 11.º círculo de Nova Iorque a 1 de dezembro, apesar de o seu adversário, o congressista democrata Max Rose, ter reconhecido a derrota logo a 11 de novembro.

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