Conversão de dívida cabo-verdiana em investimentos por Portugal é “boa notícia”, diz Olavo Correia

“A reconversão da dívida pública em investimento é uma opção inteligente e com benefícios para todos os lados”, afirmou o vice-primeiro-ministro de Cabo Verde, que é também ministro das Finanças em exercício, em reação à disponibilidade manifestada por Portugal.

O vice-primeiro-ministro de Cabo Verde disse esta segunda-feira que a abertura de Portugal para negociar a dívida do país, com conversão de parte em investimentos, é uma “boa notícia”, sublinhando a importância para a recuperação económica pós-pandemia.

“A reconversão da dívida pública em investimento é uma opção inteligente e com benefícios para todos os lados”, afirmou Olavo Correia, que é também ministro das Finanças em exercício, em reação à disponibilidade manifestada por Portugal.

O governante recordou que Cabo Verde está no grupo dos países africanos e dos pequenos países insulares que trabalha “numa estratégia diplomática económico-financeira para colocar na agenda, o tema do perdão da dívida pública externa – ou mesmo da sua reconversão em investimento estratégico de longo prazo”.

Acrescentou que Cabo Verde enfrenta um triplo desafio, atualmente, o qual passa por “controlar a pandemia, recuperar a situação económica e social e garantir que a recuperação económica seja efetiva”.

“Cabo Verde precisa de espaço orçamental para continuar a investir, não só nas áreas da inclusão social, que têm a ver com investimentos imediatos, como também setores que são também fundamentais, num curto prazo, como a saúde, o saneamento, o digital, a qualificação os recursos humanos, a água e a resiliência”, afirmou.

O ministro dos Negócios Estrangeiros e da Defesa de Cabo Verde, que terminou sábado a primeira visita oficial a Lisboa, disse que ouviu de Portugal abertura para negociar a dívida do país, com conversão de uma parte em investimentos.

“Lançamos as bases para olharmos para a dívida no seu todo e sobre as condições da nossa dívida. Não só quanto a um perdão da dívida, que está na ordem do dia junto de organizações internacionais e nas relações entre os países, mas também na conversão da dívida em investimentos importantes, para enfrentarmos este período no pós-covid”, afirmou no domingo, em entrevista à Lusa, em Lisboa, o chefe da diplomacia cabo-verdiana.

Assim, ficou decidido que os ministérios das Finanças de Portugal e de Cabo Verde vão agora estudar e apresentar, “brevemente”, uma proposta para reconversão de parte da dívida do país africano ao Estado e à banca portugueses, em investimentos com a participação de empresas portuguesas.

Rui Figueiredo Soares salientou que sentiu grande abertura por parte do seu homólogo português, Augusto Santos Silva, e do primeiro-ministro, António Costa, dois dos governantes com os quais se reuniu na semana passada, em Lisboa.

Cabo Verde já vinha a defender uma “reconversão” da dívida de 600 milhões de euros a Portugal em “investimentos estratégicos” no arquipélago, em “condições” que fossem “do interesse” de ambos os países.

“Da parte do Governo português recebemos a maior abertura para que os nossos ministérios das Finanças analisem a dívida cabo-verdiana e façam propostas sobre como uma boa parte dessa dívida seja convertida em investimentos de fundo, que interessam, e também com a participação de empresas portuguesas, e de serviços portugueses”, adiantou.

Para o chefe da diplomacia de Cabo Verde, a possibilidade de participação de empresas portuguesas nos investimentos de fundo no seu país será “importante também para o relançamento da economia no próprio país credor, que é Portugal”.

Entre os investimentos que podem ser concretizados neste plano, Rui Figueiredo Soares apontou como exemplo alguns na área da saúde, como um novo hospital na capital cabo-verdiana, a cidade da Praia, bem como outros nos setores da economia azul e economia digital.

“Brevemente” serão apresentadas propostas, “porque o tempo urge”, afirmou.

“Com a covid-19 tudo é urgente. E esta é uma matéria urgente que tem a ver com o relançamento da economia”, realçou o ministro dos Negócios Estrangeiros cabo-verdiano.

Quanto ao montante total da dívida de Cabo Verde a Portugal, o membro do novo executivo cabo-verdiano preferiu não especificar: “Os números exatos estão a ser contabilizados”, até porque o país “tem dívidas com a banca portuguesa e o pacote está a ser analisado em conjunto”.

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