Covid-19 ameaça posição destacada de Cabo Verde

Escassez de recursos minerais e de solos aráveis não impediu forte crescimento económico baseado nos serviços e sobretudo no turismo.

A pequena economia aberta de Cabo Verde teria, no plano teórico, inúmeros obstáculos ao seu desenvolvimento, mas a verdade é que a sua prestação nas últimas três décadas coloca a nação-arquipélago num lugar de destaque entre os países africanos.

Considerado o 11.º país mais desenvolvido do continente, à frente de territórios com uma incomparável riqueza natural, como o Gana e Angola, e de economias frequentemente apontadas como um exemplo de desenvolvimento no contexto africano, como é o caso do Quénia, Cabo Verde tem prosperado através de uma forte aposta nos serviços, sobretudo no turismo.

Face aos obstáculos geográficos ao desenvolvimento do território cabo-verdiano, o país virou-se para algumas vantagens competitivas que o tornam um caso peculiar. Uma das principais passa pela qualidade e robustez da democracia da antiga colónia portuguesa, a única entre este subgrupo do continente que não experienciou nenhuma tentativa de golpe de Estado desde a sua independência em 1975.

Apesar de uma ligeira deterioração em 2020 no índice de democracia anualmente calculado pela Unidade de Inteligência do “The Economist”, Cabo Verde é considerado o terceiro país mais democrático do continente africano. A estabilidade política e ausência de conflitos é um fator fulcral na promoção do principal serviço e componente do PIB cabo-verdiano, o turismo.

Aproveitando o seu clima ameno, praias paradisíacas e proximidade à Europa, o país evoluiu de 6,4% do PIB em receitas de turismo em 2000 para 25,6% em 2019, quando a indústria registou o maior peso na produção interna desde que o Banco de Cabo Verde contabiliza estas estatísticas. Esta é uma forma de ultrapassar as dificuldades criadas pela insularidade do território e pela fragmentação geográfica que apresenta, com os 544 mil habitantes espalhados por nove das dez ilhas que compõem o arquipélago.

Por outro lado, ao contrário de muitos países africanos, Cabo Verde apresenta reservas minerais escassas e apenas 10% de solos aráveis, como destaca o Banco Mundial, pelo que se tornou especialmente importante encontrar vias alternativas para desenvolver o país.

A aposta no turismo acelerou entre 2005 e 2006, sendo que nesse último ano o país alcançou a impressionante taxa de crescimento de 9,4% do PIB. No entanto, a crise financeira global travou a trajetória ascendente da economia de Cabo Verde, que experienciou um período de relativa estagnação entre 2009 e 2015, resultando, ainda assim, num só ano de evolução negativa.

No entanto, a partir de 2016 o país retomou o crescimento à boleia de uma retoma da economia mundial que impulsionou novamente o sector do turismo e estimulou outra componente importante do seu PIB, as remessas de emigrantes.

Estes são resultados importantes num país cuja dependência alimentar e energética leva a défices externos estruturais. Portugal e Espanha são os seus principais parceiros comerciais, sendo o nosso país responsável por 15,2% das exportações e 43,2% das importações cabo-verdianas e o país vizinho a representar 65% e 14,5%, respetivamente, segundo dados da Société Générale. As principais exportações da nação-arquipélago são predominantemente peixe e caviar, que contabilizam 78% deste indicador, enquanto os bens petrolíferos e veículos dominam as importações.

 

Consequências por apurar
O peso do exterior na atividade económica cabo-verdiana é altamente significativo, o que impactou fortemente o país em 2020. O elevado peso do turismo significa que a pandemia terá fortes consequências no PIB que ainda não são conhecidas na totalidade. No entanto, os dados até agora apurados não eram animadores: o PIB cabo-verdiano caiu, no terceiro trimestre de 2020, 18,2% em termos homólogos, uma queda que se junta à verificada no trimestre anterior, que havia sido de 31,7%.

Juntando a estes dados a quebra de 74,7% no número de hóspedes em 2020, as consequências negativas da Covid-19 serão difíceis de contornar. Apesar do reduzido impacto sanitário da doença nas ilhas, onde causou até à última terça-feira 157 óbitos fruto de 16.154 casos confirmados de infeção.

Esta crise deverá afetar a economia, que, apesar da prestação positiva nas últimas décadas, é ainda frágil e relativamente pouco desenvolvida. A quebra no turismo significou que uma percentagem significativa da população perdeu a ocupação, pelo que foram necessários programas de apoio que resultaram num aumento da dívida soberana. Esta, que vinha numa trajetória decrescente desde 2017, disparou em 2020, alcançando os 151,1% do PIB no final do ano, depois de se ter ficado nos 123,7% em 2019.

Ao mesmo tempo, a quebra nas receitas do turismo levou a um desequilíbrio das contas nacionais que também motivou o crescimento da dívida e forçará um abrandamento na busca de alguns objetivos de desenvolvimento humano, como a redução da pobreza e analfabetismo.

Para 2021, o Governo da Cidade da Praia estima um crescimento de 4,5% assente na recuperação do turismo, depois dos 550 mil turistas a menos no ano passado. Para tal, será elemento-chave a evolução das campanhas de vacinação na Europa, continente que concentra os principais mercados emissores de hóspedes para Cabo Verde, e uma adequada gestão da situação no país, onde a geografia poderá colaborar com as autoridades sanitárias, dada a maior facilidade de gerir este tipo de crises em ilhas.

Será um desafio difícil para Cabo Verde num ano de duas eleições (legislativas, a 18 de abril, e presidenciais, a 17 de outubro), mas, como afiançou o vice-primeiro-ministro Olavo Correia em novembro de 2020, cabe ao país “fazer do impossível o possível”.

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