“Crash” petrolífero em Nova Iorque

A cotação dos contratos de futuros de petróleo “foi ontem ao tapete” em Nova Iorque. “Um crash”, comentou ao JE um especialista português. O magnata dono da Lipow Oil, de Houston, explica que é um exemplo do fenómeno de mercado designado por “contango”. Os analistas da UBS dizem que este trimestre os preços do petróleo vão permanecer baixos. E a brasileira Petrobrás prepara-se para viver num mercado com o petróleo a 25 dólares por barril. Neste enquadramento, os sauditas continuam a debitar uma produção recorde de 12,3 milhões de barris diários, em abril.

David M. Parrott/Reuters

“Um crash é isto!” Com esta expressão, um académico do Instituto Superior Técnico (IST), especialista em petróleos, comentou ao Jornal Económico o que sucedeu ontem à tarde no mercado petrolífero dos EUA. Em poucas horas, a cotação dos contratos de futuros do petróleo WTI, para entrega em maio, bateu no fundo na praça de Nova Iorque. As cotações atingiram um dos níveis mais baixos desde que estes contratos são negociados localmente. A desvalorização máxima atingiu os 250% e a cotação entrou em terreno de preços negativos, chegando ao preço de -40 dólares por barril de WTI.

Mesmo com o corte de produção diária acordado entre os países da OPEP+, o mercado mundial tem tanto petróleo para escoar – ainda a ser transportado em quase todos os oceanos por superpetroleiros -; tem tantos tanques de armazenamento cheios de crude; tem tantas refinarias com excesso de petróleo para refinar; e também tem tanta gasolina e gasóleo por vender, que o valor dos contratos de fornecimento de petróleo com data de entrega para maio desceu aos níveis mais baixos conhecidos.

Alguns desses contratos chegaram a ser ontem negociados abaixo de um dólar por barril. Os analistas do sector admitem que o petróleo manterá cotações baixas durante este segundo trimestre porque durante estes meses continuará a ser sentido grande excesso de oferta de petróleo e a procura não aumentará significativamente.

Especialistas do Citigroup já tinham admitido que os cortes de produção de 9,7 milhões de barris diários acordados na última reunião extraordinária da OPEP+ – fruto do acordo entre sauditas e russos – fariam pouco efeito no sentido de travarem a tendência descendente das cotações do petróleo.

No mesmo sentido, o banco de investimento Goldman Sachs referiu que o acordo da OPEP+ foi “histórico”, mas também considerou que seria “insuficiente” para travar a queda das cotações, o que se confirmou a 20 de abril.

O “excesso de oferta” de petróleo “é tão grande” que provoca o fenómeno a que os especialistas do sector chamam “contango”, como referiu à agência Bloomberg, Andy Lipow, presidente da Lipow Oil, em Houston.

“Estamos a aumentar o ‘contango’, e isso não é um bom sinal”, considera Andy Lipow. Em rigor, “contango” traduz uma situação em que o preço futuro de uma mercadoria é superior ao preço à vista que o mesmo produto tem hoje.

Além de que um corte de 9,7 milhões de barris diários é ineficaz face à previsão aceite no sector petrolífero de que a redução do consumo mundial se pode quantificar em cerca de 35 milhões de barris por dia. Neste sentido, a Bloomberg adianta que os analistas do UBS Group admitem que o excesso de petróleo persistirá neste trimestre.

Em Lisboa, o especialista e académico do IST referiu ao JE que “todos os grandes consumidores de combustíveis do sector dos transportes estão parados”. “O transporte aéreo é atualmente um dos grandes clientes da indústria petrolífera, e sabemos que as frotas de aviões estão paradas no chão”, refere. “Não acontece só no aeroporto da Portela, em Lisboa, acontece em todo o mundo. Não há viagens aéreas. Agora, as principais avenidas de Moscovo, Nova Iorque, Londres ou Paris, estão praticamente desertas à tradicional hora de ponta. Ninguém consome combustíveis. Ponto final”, conclui o especialista português.

Com os contratos de futuros do petróleo WTI para entrega em junho a serem cotados em Nova Iorque a 21,02 dólares por barril (o que traduz uma queda de 16,02% face à cotação de abertura) às 20h54 de Lisboa, de ontem, segunda-feira, 20 de abril, toda a estratégia desenvolvida pelo presidente dos EUA, Donald Trump, em defesa dos produtores de shale oil e da indústria petrolífera norte-americana acabou por ser infrutífera.

Note-se que o preço deste petróleo americano chegou a cair mais de 90% no início da tarde de segunda-feira, negociando-se abaixo de 1 dólar por barril. O mercado nova-iorquino assistiu ontem a uma verdadeira corrida dos operadores na tentativa de venderem todos os contratos petrolíferos com entrega prevista para maio, num momento em que não praticamente não havia capacidade para armazenar mais petróleo no território dos EUA. Foi cerca das 15h00 locais que a cotação do barril para entrega em maio desceu aos 0,99 dólares, registando perdas de 94,58%.

O petróleo Brent do Mar do Norte para entrega em junho era negociado na Europa – em Londres e Roterdão –, a valores superiores, embora estivesse francamente abaixo da fasquia dos 30 dólares por barril. Às 20h54 de ontem, em Lisboa, o Brent, para junho, era negociado a 26,14 dólares por barril (menos 6,91% em relação à cotação de abertura do mercado). Entre os grandes produtores petrolíferos, estes preços de mercado vão implicar muitas revisões de investimentos ou até encerramentos de unidades de exploração. O presidente da petrolífera estatal brasileira Petrobras, roberto Castello Branco, já admitiu publicamente que “estamos preparando a Petrobras para viver com petróleo abaixo dos 25 dólares por barril”.

Entre os grandes traders de petróleo, a situação é catastrófica. A Hin Leong Trading, a maior trader de petróleo de Singapura, declarou falência depois de ter registado perdas de 800 milhões de dólares nos contratos de futuros.

No entanto, mesmo com tanta oferta disponível no mercado, os especialistas do sector petrolífero estimam que a Arábia Saudita consiga vender cerca de 600 mil barris de petróleo por dia de petróleo aos EUA, ainda em abril, o que corresponde a um dos maiores fornecimentos petrolíferos sauditas concretizados a refinadores norte-americanos. A Arábia Saudita, segundo as mesmas fontes, manteve a sua estrutura de produção assegurando o débito máximo recorde de 12,3 milhões de barris por dia em abril. Para maio, o mercado internacional aguarda que a Saudi Aramco reduza a sua produção para 8,5 milhões de barris por dia, cumprindo assim a sua parte do acordo da OPEP+.

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