Da OPA a Lage. Dois meses ‘horribilis’ de Vieira podem colocar em causa presidência de 17 anos

Tudo começou no início de maio com o chumbo definitivo da polémica OPA que o Benfica propôs. Com a retoma da Liga, vieram as derrotas e uma crise desportiva que pode alastrar-se à direção numa altura em que faltam quatro meses para as eleições das ‘águias’.

Em pouco menos de dois meses, o SL Benfica entrou num turbilhão de acontecimentos que estão a colocar em causa o futuro da atual direção e a redefinição do projeto desportivo. Se no início de maio, a CMVM colocou uma ‘pedra’ em definitivo no tema da OPA do Benfica, as más notícias continuaram em junho. Com a retoma da Liga vieram as derrotas, um novo fosso de seis pontos para o líder FC Porto, a demissão do treinador e uma incerteza diretiva que poderá alargar-se até às eleições em outubro deste ano.

“Vício” chumbou OPA do Benfica

A 8 de maio, a CMVM colocou um ponto final num processo que se arrastou durante sete meses, entre pedidos de esclarecimento e contactos com acionistas por parte do regulador. A Operação Pública de Aquisição da Benfica SGPS à Benfica SAD foi indeferida sendo que o regulador justifica essa decisão na “existência de um vício que afeta a legalidade da oferta, decorrente da estrutura de financiamento de contrapartida, extingue o procedimento iniciado com o pedido apresentado a esta Comissão a 22 de novembro de 2019.

O pedido de registo de oferta pública voluntária e parcial de aquisição implicava até 6.455.434 ações emitidas pela Sport Lisboa e Benfica – Futebol SAD, anunciada preliminarmente pela Sport Lisboa e Benfica, SGPS, SA (“Oferente”) a 18 de novembro de 2019.

Fundamentou a CMVM que, pelo que pode analisar nos últimos meses relativamente a esta oferta, “os fundos que o Oferente pretendia utilizar para liquidação da contrapartida tinham, de forma não permitida pelo Código das Sociedades Comerciais, origem na própria Sport Lisboa e Benfica – Futebol SAD, sociedade visada por esta Oferta Pública de Aquisição”.

“Esse resultado decorreu da definição e implementação de uma relação contratual entre entidades sujeitas ao domínio comum do Sport Lisboa e Benfica (Clube), que foi temporalmente coordenada e subordinada ao objetivo de permitir a esta entidade reforçar, através da Sport Lisboa e Benfica, SGPS, SA, a sua posição de controlo sobre a Sport Lisboa e Benfica – Futebol, SAD, com fundos provenientes desta sociedade cotada pela aquisição das ações para o efeito necessárias através da oferta em causa”, esclarece o regulador.

Orçamento para época 2020/21 chumbado

A 27 de junho, o orçamento do Benfica para a época 2020/21 foi chumbado na Assembleia Geral de sócios. Esta AG das ‘águias’ teve como ponto único a deliberação do orçamento ordinário de exploração, o orçamento de investimentos e o plano de atividades elaborados pela direção. No entanto, terá sido o orçamento para as modalidades a gerar a maior discordância. Este orçamento chumbou por 186 votos mas a votação foi vista como um ‘cartão amarelo’ à liderança do clube, na semana em que os ‘encarnados’ perderam no Estádio da Luz com o Santa Clara. Em 17 anos que leva na presidência do clube, Luís Filipe Vieira recebeu nessa noite o segundo chumbo por parte dos sócios depois de, em 2012, o mesmo ter acontecido com um o Relatório e Contas relativo à época 2011/2012.

Lage a quebrar

Depois de desfrutar de sete pontos de vantagem para o FC Porto, o SL Benfica liderado por Bruno Lage começou a quebrar e permitiu a recuperação da equipa liderada por Sérgio Conceição. Quando o campeonato foi interrompido, em março, as ‘águias’ tinham apenas um ponto de desvantagem para os ‘azuis e brancos’ e um calendário que lhes permitia ‘sonhar’ com a revalidação do título. No entanto, a retoma da Liga veio confirmar o mau momento do SL Benfica que, desde 8 de fevereiro (derrota no Estádio do Dragão para a Liga), apenas soma duas vitórias, quatro empates, quatro derrotas e o afastamento da Liga Europa. À quarta derrota, Bruno Lage apresentou a demissão mas as declarações de Vieira nessa noite iriam lançar outra dúvida no universo benfiquista.

Lage, de 44 anos, levou os ‘encarnados’ à conquista do título nacional em 2018/19 e esta época arrebatou a Supertaça, mas, nos últimos 13 jogos, apenas venceu dois, sendo eliminado da Liga Europa e comprometendo a revalidação do cetro. O treinador natural de Setúbal, com contrato até 30 de junho de 2023, assumiu o cargo, “provisoriamente”, em 03 de janeiro de 2019, substituindo Rui Vitória, numa altura em que o Benfica era quarto na I Liga, a sete pontos da liderança.

No total, Bruno Lage somou 51 vitórias, 12 empates e 13 derrotas (181-76 em golos), em 76 jogos.

Crise diretiva?

Em outubro deste ano, o SL Benfica vai a votos e já são conhecidos dois candidatos: Rui Gomes da Silva e Bruno Costa Carvalho. À partida, Luís Filipe Vieira anunciaria em breve a recandidatura mas tudo parece ter mudado após a derrota na Madeira. O presidente dos ‘encarnados’ surgiu perante os jornalistas e anunciou que era o único culpado da crise desportiva do Benfica e que iria refletir junto da família a continuidade como presidente no clube da Luz. “Sou o único culpado desta derrota. Quando chegar a Lisboa vou falar com a família e a seguir irei comunicar a decisão”, referiu o presidente do Benfica.

O anúncio recente do lançamento de uma oferta pública para emitir até sete milhões de obrigações com maturidade em julho de 2023, com um montante global inicial de até 35 milhões de euros (taxa de juro fixa bruta de 4%) e a recente antecipação das verbas dos direitos televisivos da NOS podem ser temas ‘quentes’ nas próximas semanas.

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