De volta ao “normal”?

O mundo é diferente e está diferente e só assumindo esta realidade é que poderemos verdadeiramente prosseguir e construir um “novo normal”.

Finalmente o país voltou ao “normal”. Esta frase tem sido nos últimos dias uma constante com o fim tão aguardado das restrições impostas pela pandemia. Voltamos a nos sentar à mesa do café com os amigos, a viajar para quase todos os países, a sair à noite sem horas para voltar a casa, voltamos finalmente “ao normal”. Ou será que voltamos mesmo?

A palavra “normalidade” tem muito que se lhe diga. Se considerarmos que a normalidade é voltar a fazer o mesmo que antes, então talvez tenhamos voltado ao normal. Mas será que podemos realmente “cantar vitória”?

Há cerca de quase 2 anos atrás iniciamos uma pandemia mundial, com restrições inimagináveis para todos nós. Mudamos os nossos hábitos, a ciência avançou tremendamente com o desenvolvimento da vacina e com esta surgiu a tão ansiada liberdade. Mas poderemos mesmo pensar que voltamos ao “normal”? Poderemos mesmo pensar que, finalmente, voltamos ao “antes”?

A verdade é que a Covid-19 ainda não acabou. Quem acredita que sim, está enganado. Estamos num momento muito melhor, isso sem sombra de dúvida. Os efeitos da maioria da população vacinada, pelo menos em Portugal, já se começam a notar, contudo, ainda hoje pessoas são infetadas e perdem-se vidas para a Covid-19. Por isso, será que realmente podemos afirmar que voltamos “ao normal” quando atualmente a pandemia ainda existe? Será que podemos realmente voltar “ao normal” quando este voltar ao normal poderá implicar um regressar da Covid em grande força, caso prossigamos por um caminho descuidado, acreditando que as medidas de proteção individual já não são necessárias? Será que voltamos “ao normal” quando milhares de pessoas perderam os seus trabalhos, milhares de empresas foram afetadas, milhares de pessoas vivem na pobreza, muitas fruto desta pandemia?

Não podemos fechar os olhos pensando que o mundo voltou “ao normal”, porque o mundo nunca mais será o mesmo e se acreditamos que voltará estamos “condenados a repetir a História”.

É importante que tenhamos esta realidade bem presente, de que não voltamos ao normal de antes, para que não deitemos abaixo todo um trabalho construído ao longo destes 2 anos de proteção nossa e da própria humanidade. É importante que não nos esqueçamos que embora o mundo possa parecer normal e tenhamos voltado a frequentar cafés e restaurantes, que tenhamos voltado a nos reunir com os nossos amigos, ainda existe a possibilidade deste inimigo invisível estar por perto.

Porém, com esta reflexão não quero aqui deixar o pessimismo fluir, mas sim trazer uma certa dose de realidade: o mundo não voltou ao normal, não voltou ao antes. O mundo é diferente e está diferente e só assumindo esta realidade é que poderemos verdadeiramente prosseguir e construir um “novo normal”. Este sim, aceitando a realidade de uma pandemia no século XXI que deixou e continua a deixar as suas marcas na História.

A tentativa de um regresso ao normal não deve ser por isso um regresso ao normal de há 2 anos atrás, mas deve sim ser um reconhecimento de que este novo normal necessita ser (re)construído, necessita de visão e necessita de inovação. Por isso, é importante que não nos esqueçamos que embora medidas estejam a ser tomadas para amenizar os impactos da pandemia, como a famosa “bazuca” pela qual todos anseiam, ela não irá resolver todos os problemas económicos que a pandemia trouxe, nem os problemas sociais que daí surgiram, sem visão, nem inovação. Não é a “bazuca” per se que irá resolver os problemas, mas é a forma como a mesma será aplicada que será determinante na atenuação dos danos causados pela pandemia. E esta aplicação não deverá ocorrer com um pensamento voltado para o passado, para um “normal” que já não existe, mas sim cuidando do presente com um pensamento voltado para o futuro, pois como Peter Drucker um dia disse: “The greatest danger in times of turbulence is not the turbulence; it is to act with yesterday’s logic”.

 

 

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